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Termina a apresentação de Os Sertões em Quixeramobim

Durante cinco dias, o público de Quixeramobim precisou se acostumar com a complexa dramaturgia de Os Sertões, bem diferente de outras montagens tradicionais

Camila Vieira
Enviada a Quixeramobim

19 Nov 2007 - 00h38min

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 O espetáculo Os Sertões terminou ontem, após cinco dias de apresentação em Quixeramobim(Foto: SEBASTIÃO BISNETO)
Nos últimos cinco dias, quem acompanhou a maratona de espetáculos de Os Sertões, em Quixeramobim, pôde entrar em contato com uma experiência criativa completamente distinta do teatro tradicional. Em forma de extenso corredor cercado por uma estrutura metálica de três andares, o formato inusitado da réplica do palco do Teatro Oficina obrigou o público a chegar cedo para garantir os locais que davam melhor visibilidade a todos os detalhes do espetáculo. Alguns chegaram a levar almofadas para tornar as duras arquibancadas mais confortáveis, já que cada montagem durava de seis a sete horas.

No entanto, não foi apenas o desgaste físico que dispersou parte do público. A complexidade de referências históricas, alegóricas e míticas reinventadas por José Celso Martinez Corrêa, o formato musical operístico, a nudez dos atores e a interação com a platéia causaram estranhamento em várias pessoas, que nem sabiam direito o que estavam vendo. “Não estou entendendo absolutamente nada. Parece que tudo isso aí exige a leitura prévia do livro Os Sertões. É uma pena, porque não cheguei a ler”, comentou o comerciante Josefino Braga, 43, que saiu após duas horas de apresentação de A Luta I, no último sábado.

Em entrevista ao O POVO no saguão do hotel em que estavam hospedados em Quixeramobim, três atores de Os Sertões - a mineira Letícia Coura, o pernambucano Adriano Salhab e o cearense Aury Porto - explicam que tais características de Os Sertões dimensionam a dramaturgia de Zé Celso. “Os espetáculos estão em constante processo. É tudo muito orgânico. O que vemos no palco é o que a própria cena pede”, afirmou Letícia, que também é diretora do coro das peças. Quando ela entrou na montagem, ainda não havia músicos na equipe, apesar de já existirem algumas composições criadas pela direção musical de Tom Zé. “Aprendemos todas as músicas já feitas e, nos ensaios, começaram a aparecer os músicos”.

Música
Parte do elenco é formada por músicos e cantores profissionais, como Karina Buhr e Naomy Schölling, enquanto outros são apenas atores que aprenderam a cantar nos ensaios. “Mesmo desafinados, eles trazem algo da vida real mesmo. No início, só dava o tom no cavaquinho e a gente fazia tudo no canto. O que mais gosto de fazer é juntar teatro com música. As letras ganham sentido com a interpretação dos atores”, comentou Letícia, que participa do projeto Revista Bixiga Oficina do Samba, um painel de sambas do bairro paulista do Bixiga, do Teatro Oficina e da Escola de Samba Vai Vai.

Ex-integrante da banda de rock recifense Textículos de Mary, o músico Adriano Salhab tornou-se ator e baixista do quinteto musical de Os Sertões, em 2003. “Cheguei para salvar o espetáculo, que passava por uma crise com os músicos da época”. Durante os espetáculos, a banda pontua as cenas com ritmos que vão do samba ao rap. “Os estilos musicais são bem diversificados e cada músico novo usa sua linguagem própria, mas Zé Celso acaba administrando uma estética que estabelece uma unidade”, disse Adriano que, durante as apresentações de Os Sertões, lança o CD O Sol Rodando Vermelho, com 15 composições da montagem e vendido por R$ 15,00.

Graças ao exercício de concentração, os atores conseguem interpretar vários personagens em cada uma das cinco longas partes do espetáculo. “Falar texto com música e com rima acaba sendo bem mais fácil. Às vezes, nos confundimos, mas tem sempre alguém ali para ajudar”, explicou Aury Porto, natural de Lavras da Mangabeira e principal incentivador da montagem de Os Sertões, idéia antiga de Zé Celso desde 1989.

Para o ator, o coro é o principal personagem de Os Sertões, na medida em que leva o ator a uma espécie de anulação. “Apesar de manter suas individualidades, cada ator fica no tudo”. É o que Letícia chamou de “corpo sem órgãos”. No momento em que algum ator se destaca, o coro pede para que ele se dissolva na narrativa que está sendo cantada. Uma característica que vem do teatro grego. “A gente perde a noção do tempo e entra em outra sintonia. Há ensaios que levam a gente do transe à desistência”, pontuou Adriano.


E-mais
Depois da maratona de Os Sertões em Quixeramobim, José Celso Martinez Corrêa chega a Fortaleza para ministrar amanhã, às 18h30min, palestra gratuita no seminário avançado “O Movimento Tropicalista”, no Centro Cultural Banco do Nordeste (rua Floriano Peixoto, 941 - Centro).

Em seguida, ele encena o monólogo “Antônio Conselheiro”, parte integrante do espetáculo Os Sertões. De 28 de novembro a 2 de dezembro, o Teatro Oficina leva as cinco partes de Os Sertões para Canudos.

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