Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Ceará

EDUCAÇÃO

De prato em prato, o aprendizado

Isabelle Câmara
enviada a São Gonçalo do Amarante

Professora muda a vida da comunidade escolar associando educação com alimentação saudável


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

10/09/2007 00:54

Três espigas de milho, três ovos, uma xícara e meia de açúcar, um quarto de xícara de farinha de trigo, uma colher de sopa de fermento em pó. Não, não se trata de uma simples receita de bolo de milho, mas de uma receita, de sucesso, de aprendizado. Criada por Francilda Chagas, professora de classes de aceleração da Escola de Ensino fundamental Porfírio de Araújo, no distrito de Croatá, São Gonçalo do Amarante, município a 55 quilômetros de Fortaleza, a fórmula de ensinar através da alimentação está transformando a vida dos estudantes daquela localidade.

Tudo começou quando Francilda percebeu que seus alunos, com 14 anos em média, e com um delicado histórico de repetência, estavam no nível silábico. Inquieta, ela viu que precisava envolvê-los na aprendizagem, fazendo com que eles se sentissem parte desse processo. Foi assim que ela decidiu alfabetizá-los através do ensino de uma alimentação saudável, pois, como ela mesmo recorda, "alimentação é essencial na vida das pessoas. Vi que pelos alimentos, eles iriam aprender e nunca iriam esquecer".

"A goiaba é gostosa, a laranja é docinha", começou Francilda. E os alunos foram aprendendo. Mas, ela ponderou que muitos dos alimentos que os alunos estavam aprendendo a ler e escrever, certamente nunca haviam sido degustados. Então, ela propôs a eles trazerem qualquer fruta que tivessem em casa para juntos fazerem uma salada de frutas. À escola, propôs a compra de frutas mais requintadas, como a uva. "Foi uma festa", lembra a professora. "Todos se envolveram no preparo da salada. O dia foi registrado com fotografias e quando eles se viram nas fotos, a alegria foi ainda maior".

Através das receitas, Francilda trabalhava conteúdos do português, da matemática e das ciências, acrescentando o valor nutritivo dos alimentos, a pirâmide alimentar, aulas práticas e aulas de campo, para pesquisa de preços. O interesse dos alunos, da professora e da escola foi aumentando. Tanto que os aprendizes passaram a levar lanches mais saudáveis para a escola. A instituição também permitiu à professora intervir na merenda escolar, sugerindo a entrada de verduras no cardápio, o que de pronto foi aceito pelas merendeiras e pelos estudantes. "Eu aprendi a ler, a escrever, a somar, a dividir, a fazer bolo de milho e a comer verduras!", festeja Amaury Albuquerque, 14 anos. Joana da Silva Souza, 14, diz que sabia escrever, mas não sabia ler. "O que eu mais gostei foi aprender a ler e de saber o que eu estou escrevendo", revela.

Déficit Alimentar
Mas Francilda foi além. Decidiu criar uma ficha pessoal para cada aluno, chamada "Meu Perfil", na qual os estudantes colocaram informações diversas sobre qualidades, defeitos, gostos, sonhos, peso, altura etc. De posse dessa ficha preenchida, ela foi até o Posto de Saúde do Distrito e identificou que muitos estavam subnutridos. Foi aí que ela pegou uma hora dedicada ao planejamento das aulas e decidiu sair de casa em casa para conversar com as famílias e sugerir mudanças simples no cardápio familiar, como a ingestão do caldo de feijão. "Não dava pra ficar só na sala de aula, eu precisava ver a realidade dos meninos e explicar aos pais que podemos prevenir doenças com os alimentos", recorda a professora. "Muitas pessoas não se alimentam bem, mesmo tendo recursos para isso", complementa. Francisca Grecielly de Souza, 14 anos. Ela diz que ainda lê devagar, mas que já sabe ler, escrever, fazer conta e ajudar em casa. "E lá agora não faltam frutas nem verduras", comemora.

A iniciativa de Francilda repercutiu na vida de toda comunidade escolar. O seu projeto está sendo encampado pela secretaria de Educação do Montepio, além de ter tocado alguns comerciantes locais, como donos de quitandas que sempre doam alimentos para escola. "O professor tem o poder de resgatar vidas, mas também de aniquilá-las, de fazer o aprendizado estacionar. Eu precisava realizar bem essa tarefa. Era uma missão", filosofa a professora.


Saiba mais

São Gonçalo do Amarante

População estimada (2006) - 40.281
Vocação econômica - fabricação de laticínios, de conservas e sucos de caju, produção de leite, piscicultura e estabelecimentos hoteleiros.

Fonte: Anuário do Ceará 2007 - 2008


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato