Publicidade

Jornal O POVO Leia o Jornal de Hoje


Buchicho

CAPA

Moda com arte

Paula Lima
da redação

O arquiteto e estilista Mark Greiner abre as portas do seu ateliê de moda e conversa com o Buchicho sobre a nova coleção, valores, família e Dragão Fashion. Sua coleção Herança Cultural, abre o Dragão Fashion na noite de amanhã em um desfile para convidados no Palácio da Abolição. O evento acontece até o dia 13


Diminuir a fonte do texto Aumentar a fonte do texto

07/04/2007 15:46


Ele é arquiteto, tem 36 anos. Nasceu em Fortaleza, de pai chinês e mãe cearense – do Crato –, loiro de olhos claros e voz doce, Mark Greiner vem se destacando no cenário da moda local. Por volta das 18 horas de uma segunda-feira recebe a equipe do Buchicho, abre a porta e indica o caminho rodeado de flores e plantas até seu ateliê. Na casa dos pais, onde vive desde os anos 70, Mark diminuiu a sala da família com um biombo e montou seu ateliê de moda, onde três costureiras trabalham. "Há uma semana do desfile, trabalhamos dia e noite", conta.

Tímido na sessão de fotos, ele só se solta depois que senta no sofá e começa a falar das artesãs com quem fez parceria na coleção Herança Cultural, que apresenta amanhã, na abertura do Dragão Fashion, no Mausoléu Castelo Branco.

E avisa: "Eu nem me defino estilista. Comecei a trabalhar com moda em 2001, no concurso de Novos talentos no Dragão Fashion, quando ainda acontecia no Dragão do Mar, também participei em 2002. E em 2003 já fazia parte do casting do evento. Sou cria do Dragão", diverte-se.

Moda é para Mark mais um canal de expressão. Arquiteto de interiores, trabalha desde os anos 80 no escritório Yone Fiúza. As criações femininas no desfile de 2006 foram aplaudidas de pé. A boa aceitação faz com que Mark, pelo menos, "pague as costureiras", confeccionando roupas que custam a partir de R$ 1.500. "Ainda não dá para ganhar dinheiro", diz.

Na semana anterior ao desfile, ele diz que não pára um segundo. "Sou eu quem desenvolvo tudo: acessórios, sapatos, trilha, cenografia, é muito trabalho".
No fim da entrevista mostra as peças que estarão na passarela: acabamento perfeito, renda labirinto, colares bordados, "sushis" de tecido, cetim, chapéus anos 40 e até um xadrez amarelo.

O POVO – Como começou seu envolvimento com moda?
Mark Greiner – No fim dos anos 80, houve um boom de moda cearense, foi a época que o Lino Villaventura despontou, Tetê Vieira, Beatriz Castro e Cabeto vieram desse período que fomentou a moda local. Na época o curso da UFC de Estilismo e Moda estava na terceira turma, e foi quando eu terminei o curso de Arquitetura. Moda pra mim sempre foi um veículo de manifestação artística, e eu sempre quis trabalhar com artes plásticas e a moda foi a arte que eu encontrei que fala mais democraticamente com as pessoas. Envolve desejo, as pessoas se espelham e é a arte que mais provoca reação, porque ou você se identifica ou não. Então fiz Estilismo por um ano e meio e como nunca deixei de trabalhar com arquitetura tive que optar pelo profissional.

OP – Então a moda não é para você uma profissão?
Mark – Hoje eu me divido entra as duas áreas. Mas em primeiro lugar vem a arquitetura. No ateliê tenho uma clientela pequena que é essa a forma de manter uma boa relação. Procuro sempre criar uma roupa que tenha a minha identidade e que satisfaça o cliente, então é preciso gerar um processo de empatia.

OP – Qual é o perfil das mulheres que procuram suas criações?
Mark – Ah, nem sei dizer. Já criei peças para desde meninas de 13 a senhoras de 70 a 80 anos. Não faço street wear. Quando você trabalha com moda de ateliê é um laboratório constante, é um processo gradativo até aquele momento que é especial, quando a cliente vê a peça pronta. Existe a satisfação da cliente gostar da roupa, sempre fico muito tenso.

OP – E quando é você quem não gosta da peça?
Mark – Abandono e começo de novo do zero. Na época de criar coleção acontece demais isso, porque a gente usa tecidos que nunca experimentou e aí tem que ter muita paciência. A coleção é um trabalho coletivo, meu e das costureiras e o bacana é isso.

OP – Qual é o primeiro passo na hora de criar uma coleção?
Mark – Eu acredito que o que você pode levar para a moda é o nosso universo, nossa história. Me inspiro em valores, nos laços afetivos. Já trabalhei com o tema família, falando de ancestralidade, fiz uma homenagem à Vânia Dummar, pelo pioneirismo com moda no Estado, e agora estou ligado à questão do artesanato que tem sido muito presente no meu trabalho. E acho que foi o meu trabalho no Sebrae (Mark é consultor do Sebrae) que me influenciou, porque aprendi os processos e formei laços afetivos com aquelas artesãs. Você desenvolve essa relação afetiva porque você conhece e identifica o trabalho de cada uma. Quero deixar claro que não é uma apropriação da mão-de-obra, elas são parceiras desse trabalho e fomos lá em Paracuru, Trairi e Aracati para mostrar que se elas acreditassem na proposta podem criar algo de verdade. Não estou aqui fazendo o papel de bonzinho, de dar oportunidade para essas mulheres, esse é um trabalho coletivo onde todo mundo ganha.

OP – Como foi esse processo de ir até as artesãs e mostrar as propostas? Elas toparam logo no primeiro momento?
Mark – A gente sempre chega e mostra que aquela é mais uma forma delas fazerem o próprio trabalho, que é mais uma forma de arriscar, porque a gente tem que mostrar o trabalho da gente e é uma possibilidade delas atingirem mercados ainda inexplorados pra elas, e apresento o meu trabalho. Todas toparam graças a Deus. Também dialogamos bastante com o pessoal do Sebrae.

OP – Nessa coleção Herança Cultural você também foi buscar inspiração na história da sua família. Que história é essa?
Mark – Meu pai é chinês. Quando a minha avó morreu, eu recebi uma mala que era dela, e ali estava toda a história que eu pretendo narrar no desfile. Meu pai ainda criança saiu da China, com meus avós, para fugir da revolução Comunista de Mao e eles passaram por muitos lugares até chegar ao Brasil, porque meu avô tinha um irmão que morava em São Paulo, e depois aconteceu o encontro com a alma nordestina. Eles viajaram por lugares como Japão, Filipinas, América e Inglaterra e na mala que recebi a minha avó tinha guardado muita coisa das viagens, desde fotos até guest list dos navios. Então resolvi contar essa riqueza de influências que nos faz um povo mestiço. É uma história particular que passa para o coletivo, porque é a história da nossa raça.

OP – Quais os elementos, tecidos e peças que você vai usar para contar essa história na passarela?
Mark – A coleção tem uma referência no glamour dos anos 40, ombros marcados, tem também uma modernidade nos tecidos acetinados, cores metálicas. Existe uma feminilidade contida dos anos 40. E contrapondo com elementos que contêm esse processo histórico. Esse é o desafio da coleção. Ao todo são 30 looks.

OP – Ainda hoje, com um trabalho tão cheio de referências, você não se sente estilista?
Mark – Até hoje me sinto arquiteto que trabalha com moda, porque ainda tenho muito o que aprender. Depois do curso de Estilismo e Moda, entrei no curso de Desenvolvimento de Produto, do Senai e também não conclui, mas comecei a enveredar em eventos de moda. Acredito que a moda está interligada a tudo, então leio desde literatura específica até coisas do dia-a-dia. Hoje é tudo muito multidisciplinar, nada se fecha numa área específica, é preciso interagir. Não acredito em moda atemporal, moda é como uma onda, vem e volta, como as fases da lua. Isso tem que estar refletido no seu trabalho, por isso tem que se informar sobre tudo.

OP – Você se influencia pelas tendências dos desfiles de moda internacional?
Mark – Olha, vou te dizer de forma bem sincera. Eu acompanho tudo para ver onde estou me enquadrando e entender o andar da carruagem. E você vê o desfile do Martim Magiela, da última coleção, ele usa essa referência de anos 40, você pensa: puxa que bacana que casou. É bacana que você se sente fazendo parte dessa onda. Nessa globalização todo mundo está em sintonia, acaba que as pessoas pensam parecido. E moda ninguém inventa, é algo coletivo que cada um vai dando sua identidade.

OP – Você lança junto com essa coleção o Ceará Original Sound Fashion. Que projeto é esse?
Mark – Esse é o segundo disco, o primeiro lançamos ano passado no Dragão Fashion, mas se chamava Ceará Original Soundtrack. É um catálogo que vai reunir músicos locais, artistas visuais e moda. É a forma que encontramos de mostrar que a coisa acontece associado com muitas pessoas, e é um produto para mostrar a cara do Ceará. Porque esse trabalho é coletivo, muitas pessoas colaboraram, não é só meu. Por mim todo mundo entrava na passarela. Não são só roupas que estamos mostrando ali. Vamos distribuir os cartões postais e democratizar isso através da Internet. As músicas poderão ser baixadas. Outra idéia desse projeto é que ele sirva de cartão de visita para as rendeiras entrarem no mercado nacional, em outros eventos de moda, como o Fashion Bussiness, por exemplo.

OP - Dessa forma você pretende se aproximar de um desfile-performace, é isso?
Mark – Não gosto de dizer isso para não gerar expectativa. A idéia é falar de conceitos e mostrar valores, mostrar que todos nós do Ceará podemos fazer trabalhos legais, que a arte não tem fronteira e que a gente pode somar muito no cenário.

OP – Você acha que vai chegar o dia em que vai ter que decidir entre a arquitetura e a moda?
Mark – Espero que não tenha que decidir. Eu gosto de novos desafios, agora, por exemplo, estou unindo música e artesanato à minha coleção. Busco uma linguagem artística, as questões profissionais são conseqüências disso. Encontro-me num processo de desenvolvimento de estilo. É mais ou menos isso, vou maturando e aí as idéias vão evoluindo. Não posso me dar o luxo de dizer sobre o que vou decidir.

OP – E que estilo é esse? Como você define seu trabalho com moda?
Mark – Ah, eu nem queria responder. As pessoas é quem tem que identificar por elas estarem como espectadoras. Não cabe a mim identificá-lo. Eu não estou querendo ser difícil, entende? Mas é que eu não sei identificar mesmo.

Leia mais sobre esse assunto


Comente esta Notícia

Clique aqui para comentar



Adicionar O POVO como Página Inicial · Adicionar O POVO aos Favoritos · Política de privacidade · Assine · Publicidade · Contato