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ESPERA

O telefone não tocou

Na última terça-feira, dia da tragédia com o avião da TAM, o comandante Kleyber Aguiar Lima não ligou como de costume para a mãe. Todas as vezes que se noticiava acidente envolvendo aeronaves da empresa, Kleyber aquietava a mãe através de uma ligação

Demitri Túlio
da Redação

20 Jul 2007 - 02h00min

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Havia um acordo entre o filho solteiro e a mãe viúva. Qualquer imprevisto envolvendo aviões da TAM, Kleyber Aguiar Lima, 54, ligaria pra dona Maria Guedes de Aguiar Lima, 78. De onde estivesse, pegaria o telefone e apascentaria o coração materno. Foi assim em 1996, quando um Folker-100 da TAM se espatifou matando 99 pessoas no bairro Jabaquara em São Paulo. Pela televisão, a má notícia correu o Brasil. Minutos depois, o comandante Kleyber ligou pra Fortaleza e desviou com o vento qualquer presságio.

Na última terça-feira, porém, a história foi outra. O sobrinho de Kleyber Lima, Sheldon Lima Melo e Medeiros, 19, foi quem viu primeiro a informação sobre o acidente do vôo 3054 nas biqueiras do aeroporto de Congonhas. Estava assistindo à televisão quando a musiquinha do plantão da Globo alarmou e foi dando outro tom aos batimentos cardíacos da mãe. As informações, embora confusas, tinham motivo para deixar os parentes com os nervos estilhaçados. O avião (as imagens da TV mostravam a calda da aeronave) era da TAM Linhas Aéreas.

Era da TAM, mas não tardaria e o filho ligaria pra mãe! Havia esperança e, segundo Sheldon, só depois de estranharem a demora não-habitual do disciplinado comandante resolveram rastreá-lo. Primeiro ligaram para o celular e nada. Depois para o telefone do pequeno apartamento de dois quartos (banheiro e cozinha) onde Kleyber Lima morava, sozinho, no bairro Santa Catarina, em São Paulo. Tocou que cansou e fez apertar mais ainda os corações.

O que era pressentimento (os flashes angustiantes das televisões ajudavam a enlouquecer) foi desnorteando ainda mais a família de dona Maria Guedes. Ligaram pra TAM e as linhas estavam congestionadas, não era pra menos. Foi da própria empresa que veio um alento esquisito. Segundo Sheldon Lima, "eles ligaram e disseram que o tio Kleyber" não era o comandante do vôo 3054. Mas, a mãe não se aquietou. O telefone do apartamento de dona Maria Guedes, na Cidade dos Funcionários, em Fortaleza, não tocou.

Os funcionários da TAM, empresa onde Kleyber foi piloto por mais de 20 anos, mesmo depois de aposentado, estavam enganados. Por volta de uma hora da manhã da última quarta-feira, um assistente social ligou pra contar o que dona Maria Guedes relutava em acreditar. O filho, segundo de uma lista de cinco rebentos, era um dos principais personagens da tragédia que o Brasil assistia ao vivo pelas tevês.

No apartamento de três quatro e duas suítes em Fortaleza, presente dado por Kleyber à mãe, há seis meses, desespero e lembranças. No quarto dele, as réplicas de quatro aviões que comandou, os certificados da profissão que "dizia adorar", e um elogio do "saudoso" comandante Rolim Amaro por bons serviços prestados. Pela casa, o casal de cachorros yorkshire Atmã e Radija, de Kleyber, e a mãe inconformada por ter sobrevivido à cria.


OS CEARENSES

Fábio Costa Balsells: 32 anos, administrador de empresas concursado da Petrobras. Nasceu em Fortaleza e morava em São Paulo desde 2004, com a esposa, Cristiane. Fábio não tinha filhos e foi a Porto Alegre a trabalho. No próximo dia 31, faria três anos de casado.

Fernando Fleck de Paula Pessoa: 21 anos, estudante de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRS). Nasceu em Fortaleza, mas foi morar em Porto Alegre, com a família materna, para fazer o curso superior. Viajava para Fortaleza para passar as férias com a família paterna e estava acompanhado, no avião, pela avó materna Suely Fleck, que também morreu. Fernando era primo do deputado estadual Tomás Filho (PSDB), sobrinho do prefeito de Santa Quitéria, Tomás Figueiredo (PSDB) e do conselheiro do Tribunal de Contas do Estado (TCE) Alexandre Figueiredo.

Jamile Ponce de Leon: tinha 21 anos e viajava com o filho Levi Ponce de Leon. Ela morava em Manaus há três anos, onde nasceu o filho Levi Ponce de Leon, de um ano e oito meses, também morto no acidente. Jamile vinha de Porto Alegre, após uns dias de férias, para visitar a família, em Fortaleza. O marido dela, o advogado Ilderley Ponce de Leon, 38, embarcou uma hora antes, em um vôo da Gol, para dar prioridade a ela e à criança na única vaga disponibilizada no vôo da TAM.

O POVO apurou que ainda havia outros dois cearenses primos de sua esposa, no avião. A família ainda não revela os nomes das vítimas.

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