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Novo longa de Rosemberg Cariry tem pre-estreia hoje

Apostando na cultura popular e no circo, longa cearense Os Pobres Diabos, de Rosemberg Cariry, discute a valorização da arte e do artista

01:30 | 22/06/2017
Lançado em 2013 no Festival de Brasília, estreia comercial do longa só ocorre em julho deste ano DIVULGAÇÃO
Lançado em 2013 no Festival de Brasília, estreia comercial do longa só ocorre em julho deste ano DIVULGAÇÃO

Em uma cena do filme cearense Os Pobres Diabos, sobre uma trupe circense que chega à cidade de Aracati enquanto luta pela sobrevivência daquela arte, a personagem Creuza, interpretada pela atriz Sílvia Buarque, lembra: “artista precisa de aplauso, artista precisa de público”. Dirigido pelo cineasta Rosemberg Cariry, o longa foi lançado na edição de 2013 do Festival de Brasília (onde ganhou o prêmio de melhor filme pelo júri popular) e, quatro anos depois, finalmente poderá encontrar os aplausos do público a partir de 6 de julho, data da estreia nacional.

Em entrevista ao O POVO, Sílvia Buarque define a experiência do filme como “idílica em todos os sentidos”. “O Rosemberg me deu uma personagem fora do meu padrão, mal humorada, meio vulgar, e fiquei muito envaidecida com o convite”, conta. Além do desafio profissional, a atriz destaca também o lado pessoal. “Levei minha filha, que na época era menor, passamos cinco semanas seguidas em Aracati, criei e mantive laços no Ceará. Era muita alegria”, resgata.

Rosemberg Cariry e Sílvia Buarque durante as filmagens
Rosemberg Cariry e Sílvia Buarque durante as filmagens

Debruçando-se no circo, o filme é mais um exemplo na história do cinema nacional que visita esse universo — outros vão de Os Saltimbancos Trapalhões ao recente Sangue Azul, passando pelo clássico Bye Bye Brasil, de Cacá Diegues, que é inclusive citado como referência por Sílvia. “Devo muito a minha personagem à Betty Faria (uma das protagonistas de Bye Bye Brasil). Vi na época do lançamento e revi duas vezes para ajudar a compor a Creuza”, conta a atriz. Para Rosemberg, a proposta do longa é “lembrar e homenagear os artistas populares dos pequenos circos que perambulavam pelo interior do Ceará, do Nordeste”. “É um universo rico, mágico, mas marcado por dificuldades, sobretudo nos circos pequenos e pobres. Eles levam o encantamento, mas travam uma luta pela sobrevivência. É uma homenagem sincera, emotiva e viva”, afirma .

Trazendo também as dificuldades enfrentadas pelos artistas circenses, Os Pobres Diabos estabelece diálogo entre as situações da ficção e da vida real, como o próprio processo de conseguir exibir o longa nos cinemas. “Filmes estão sendo produzidos no País graças à ação decisiva da Ancine. Os chamados arranjos regionais têm possibilitado a regionalização da produção e também o acesso”, contextualiza. “Infelizmente, poucos trabalhos chegam às salas de cinema, sendo estes as produções de grande porte, da Globo Filmes, por exemplo. Para o cinema independente, a situação é difícil. São trabalhos que circulam em festivais, ganham prêmios, mas não entram em cartaz. É uma contradição”, critica. Apesar da demora, o filme, que tem distribuição da maranhense Lume Filmes, estreará em 20 salas de várias capitais brasileiras, com a meta de chegar a “30 ou 40”. “Frederico Machado, da Lume, e a equipe local, composta pela (produtora) Bárbara (Cariry) e pelo (distribuidor) Salomão (Santana), estão empenhados”, celebra.

Para além do audiovisual, Os Pobres Diabos cria paralelos também com a situação geral da cultura no País. “A gente percebe que quem se ferra primeiro são os mais ferrados”, ironiza Sílvia, que se diz pessimista com o atual momento. “O que hoje acontece numa escala maior sempre aconteceu com o artista resistente do Nordeste ou com o do Rio que opta pelo teatro. Mesmo nos ministérios que fizeram coisas boas, a cultura sempre foi tratada como algo de segunda classe. Não estou otimista com esse governo”, opina. “Nós estamos pegando um ‘último suspiro’. Eu temo que um filme com essas pretensões artísticas, essa marca autoral, poderá desaparecer com as novas políticas culturais”, afirma a atriz.

“Vai ser inevitável as pessoas compararem a situação dos artistas no filme com o que vivemos hoje. Ele é uma tragicomédia, e essa tragédia presente pode ser lida como a própria tragédia contemporânea brasileira”, compara o diretor. Apesar das dificuldades, tanto ele quanto Sílvia apostam na resistência. “É preciso ver que os artistas resistem e lutam”, aponta Rosemberg. Sílvia faz coro e finaliza: “A forma de comunicação do teatro e do circo, a curiosidade de uma criança olhando um palhaço, a alegria da minha filha ao aprender a andar de perna de pau… Tem coisas que não acabam”, acredita.

 

SERVIÇO

 

Os Pobres Diabos

Pré-estreia hoje, às 19h45min, no Cinema do Shopping Del Paseo

*Evento para convidados

 

JOãO GABRIEL TRéZ