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O Vida&Arte destaca a força de temas sociais e políticos na poesia

Encerrando série sobre o Dia Mundial da Poesia - data comemorada hoje -, o Vida&Arte destaca a força de temas sociais e políticos dentro de um fazer poético que vai muito além das confissões do íntimo

01:30 | 21/03/2017

Príncipe dos Poetas Cearenses, o escritor Linhares Filho sustenta que a palavra poética tem potencial para dar conta “do agora e do sempre”. Desde o primeiro livro, Sumos do tempo (1968), o autor cearense tem como eixos o lírico e o social. Dono do honroso título concedido pela Academia Cearense de Letras (ACL), Linhares é um exemplo da safra de poetas que encontram nos acontecimentos nacionais e internacionais material para criar versos.


“Exploro agora, entre outros temas, a metafísica do dinheiro, a tragédia e glória do Chapecoense, o caso dos imigrantes refugiados e o acerco da Justiça brasileira na punição aos corruptos”, destaca o poeta, antecipando que esses são os temas contidos em seu próximo livro, ainda sem data de lançamento. Ele, que revela ter olhar atento a “aspectos brasileiros e mundiais”, também seguirá abordando “a confissão do eu”. Junto aos temas sociais, ele costura questões como “o amor no seu tríplice aspecto (erótico, philia e ágape), o metapoema, o telúrico, o elegíaco, o cívico, o religioso e o existencial ontológico”.

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Poeta e filósofo, Renato Pessoa afirma que, direta ou indiretamente, questões de ordem social atravessam o fazer poético, especialmente de autores independentes — “que não são reféns do mercado”. “Estamos atravessando uma crise política e isso causa também uma crise de representação social do sujeito no mundo. Muita gente acredita que o texto poético está ligado a uma subjetividade vazia, quando, na verdade, o poeta é totalmente inserido num contexto social”, aponta.


Autor de quatro livros de poesia — o último, Paisagem da febre, recém-lançado —, Renato detalha que, ao abarcar temáticas mais objetivas, o poeta se vale, em alguns momentos, de recursos da prosa. “O texto poético tem como característica o trabalho maior com linguagem e, ao trabalhar temas sociais, o caminho pode ser uma linguagem mais direta. O poeta, quando está preocupado com o contexto (histórico) do que escreve, não pensa só em estilo”, elabora. Para ele, o desafio é tratar temas, muitas vezes, espinhosos e manter “a qualidade poética”.

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Professor do curso de Letras da Universidade Federal do Ceará, o poeta Henrique Beltrão de Castro aponta que a “noção superficial” da poesia voltada apenas a temas românticos já ficou para trás. “A poesia traduz a vida plenamente, não só o que a vida tem de belo. Num momento como esse em que a gente vive, de golpe e exceção, é necessário se manifestar como fez Drummond”, afirma, trançando paralelo entre o Brasil de 2017 e o país que viveu a ditadura militar.


Para o poeta Baticum, que integra o coletivo Sarau da Okupação, a poesia pode também desempenhar um papel social. Morador do bairro Antônio Bezerra e articulador de atividades em espaços como Morro do Santiago, na Barra do Ceará, ele defende a força da poesia na vida de crianças e adolescentes das periferias. “Muitos têm receio de se relacionar com a poesia pelo déficit educacional, mas, quando eles se abrem para essas possibilidades, aqueles momentos mínimos causam grandes transformações e despertam neles outras oportunidades”, aponta, defendendo que a poesia serve de ponte para o interesse pela leitura e pela escrita e, assim, “dar voz” a quem tem muito a falar.


Três lados do mesmo poema

O Vida&Arte encerra hoje especial sobre a poesia. A série foi dividida em três partes: O Ofício (link: goo.gl/2HJSxp), O Mercado (goo.gl/EUXF6y) e, hoje, O Poema. Apresentamos também os poetas Lucas Doth (goo.gl/UjjhLo) e Alexandre Reis (goo.gl/MvVw0d)
 

RENATO ABê