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Filme Corpo Delito, do cineasta cearense Pedro Rocha, será exibido hoje

Seguindo a vida de um homem em regime de liberdade condicional que é vigiado por uma tornozeleira eletrônica, documentário cearense critica justiça e racismo estrutural

01:30 | 21/03/2017
Divulgação
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Protagonista do documentário cearense Corpo Delito, Ivan é um homem de 30 anos que passou os últimos oito na prisão. Ele saiu do encarceramento e passou a poder circular limitadamente, vigiado por uma tornozeleira eletrônica. O longa, que tem sessão especial hoje, às 19 horas, no Cineteatro São Luiz, é o retrato de um cotidiano e também de uma estrutura descrita por seu diretor, o jornalista e cineasta Pedro Rocha, como racista e seletiva.

“O filme surgiu de um incômodo com o ‘baculejo’, que é a rotina da revista policial, quando se chega a um perfil do suspeito”, inicia Pedro. O cineasta enxerga no procedimento da polícia traços do racismo estrutural e histórico do País. “Alguns sinais fisiológicos e culturais fazem com que a polícia decida abordar ou não uma pessoa: se um cara tá andando de bicicleta, sem camisa, se tem pele negra”, elabora. “Partimos desse racismo estrutural e da história para questionar essa realidade, em que a lei parece mais focada nos delitos cometidos por essa parte da população”, explica.

Auxiliado pelo programa “Histórias que Ficam”, da Fundação CSN, que presta consultoria e fomenta a produção de documentários brasileiros, o filme é focado em Ivan, mas também dá espaço para Gleice, sua esposa, e Neto, amigo dele. As cenas registradas vão de uma ida de Neto ao shopping até reuniões de Ivan, que não se adapta nem à rotina regrada do trabalho nem à tornozeleira, com assistentes sociais e promotores.

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A partir do olhar para esse universo específico, o longa aborda uma série de questões da estrutura carcerária e da justiça no Brasil. “O filme é crítico sobre vários aspectos da sociedade, como a justiça seletiva, o racismo, o discurso do medo”, elenca o cineasta. “São discursos bem costurados, começando nos programas policiais, na política do medo. No começo do contato com o Ivan, ele pensava que eu podia ser policial disfarçado”, exemplifica.

No início deste ano, o secretário da Segurança do Ceará, André Costa, declarou que “bandido tem justiça e tem cemitério” para escolher. No início de Corpo Delito, em conversa com uma psicóloga do trabalho e angustiado com a limitação dos percursos por conta da tornozeleira, Ivan diz: “Ou é cadeia ou é cemitério, essa vida. Não tem outro destino, não”. O paralelo entre os pensamentos, tão próximos na ideia, mas tão diferentes pelo lugar de fala, impressiona. Em meio à lógica da punição e a da vivência, Pedro avalia que os problemas do País devem ser encarados para, um dia, poderem ser superados.

“As crises e os massacres no sistema carcerário não são à toa. Não vejo paz, vamos dizer assim, se o Brasil não enfrentar essa questão. As pessoas moram em condições precárias, tem educação ruim, trabalhos ruins”, lista. “Atentar para essas questões, principalmente para a juventude, são fundamentais para enfrentar a calamidade”, opina o cineasta.

O filme, que foi lançado em janeiro na última edição da Mostra de Cinema de Tiradentes, ainda não tem data fechada para a estreia comercial, mas está listado no projeto Sessão Vitrine Petrobras, que realiza a distribuição coletiva de longas nacionais. “Até o final do ano ele estreia no circuito, mas essa sessão de hoje é para entregar logo o filme à Cidade. Isso é muito importante para a gente, não queríamos demorar muito. O filme nasce do cotidiano da cidade, tem uma relação muito intensa com Fortaleza”, finaliza.