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Entra em cartaz hoje exposição Guerreiras ou Artistas?

Três mulheres e um sonho em comum: ser reconhecida pelo seu trabalho artístico. Num ambiente ainda masculino, essas pintoras misturam cores e resistências

01:30 | 08/03/2017
FÁTIMA AZEVEDO
Pintora autodidata desde menina, é médica geneticista e professora da UFC

CIDINHA FONSECA
(No centro) Graduada em artes visuais, trabalhou como professora e é também dona de casa

FÁTIMA GOMES
Trabalha com educação patrimonial em Aquiraz e é graduada em artes visuais pelo IFCE FOTO: MATEUS DANTAS
FÁTIMA AZEVEDO Pintora autodidata desde menina, é médica geneticista e professora da UFC CIDINHA FONSECA (No centro) Graduada em artes visuais, trabalhou como professora e é também dona de casa FÁTIMA GOMES Trabalha com educação patrimonial em Aquiraz e é graduada em artes visuais pelo IFCE FOTO: MATEUS DANTAS

A busca “grandes pintores” no Google nos leva a uma lista de cinquenta nomes importantes para as artes de todo o mundo. Nessa listagem, porém, só há espaço para duas mulheres: a mexicana Frida Kahlo e a francesa Dora Maar. “Se você for ver nos livros de história da arte sempre quem se destaca são os homens. Do período da renascença, por exemplo, nem se escuta falar em mulheres, mas existiram pintoras renascentistas, elas só não aparecem na história”, reclama a pintora Fátima Gomes. Foi motivada por essa “invisibilização” que a cearense deu as mãos às também pintoras Cidinha Fonseca e Fátima Azevedo. Juntas, as três montaram projeto, foram contempladas por edital e hoje inauguram, às 17 horas, a exposição Guerreiras ou artistas? no Espaço Cultural Correios, no Centro.

“Somos três artistas ainda não tão conhecidas no mundo da arte. Pintamos e produzimos há algum tempo, mas sempre com muita dificuldade de mostrar o nosso trabalho”, conta Fátima Azevedo, que é também médica geneticista e professora da Universidade Federal do Ceará. “Existe um mundo ainda muito masculino, a gente tem dificuldade no salário, no espaço na arte, na ciência, na tecnologia”, enumera. Apesar de descortinar um mundo em que “homens estão se transformando em aliados”, a pintora diz ainda haver uma cobrança maior sobre a mulher. “Para marcar espaço, a mulher tem de ser muito, mas muito boa, ter uma luz muito grande, uma ajuda divina talvez e esquecer os ‘não’ que recebe”, resiste.

Para refletir suas próprias histórias, as pintoras se inspiraram em outras três artistas cearenses: Nice firmeza, Heloísa Juaçaba e Daisy Grieser. “São algumas das poucas mulheres que conseguiram mostrar seus trabalhos aqui no Ceará”, explica Cidinha Fonseca, responsável pelo início da pesquisa, realizada enquanto ela cursava artes visuais no Instituto Federal do Ceará (IFCE). “Dizem que não existe diferença entre artista homem e artista mulher, mas, de fato, existe. O machismo está em todas as áreas. Eu sonho que um dia nós todos fiquemos no mesmo patamar”, projeta a mulher que, além de dona de casa, já trabalhou também como professora.

Para elas, é simbólico poder iniciar a exposição no Dia Internacional da Mulher. “A partir da arte, eu consigo dar o meu grito no mundo, eu consigo expressar o meu eu. Às vezes mais agressiva, às vezes mais sensível”, traça Fátima Gomes, apontando que, apesar dos avanços nesses 40 anos em que a data é lembrada mundialmente, ainda se faz necessária atenção às lutas femininas de cada dia. Ela explica que o objetivo das três artistas com a mostra é inspirar outras mulheres. “Essa exposição é um pontapé para chamar atenção dessas mulheres que talvez sejam talentosas e estão escondidas. É um alerta para elas colocarem sua cara no mundo”, convida a artista, que trabalha também com educação patrimonial e oferece oficinas de artes em Aquiraz.

Cidinha destaca haver um estigma de que mulher só pinta motivos delicados. Segundo ela, esse preconceito acaba inibindo pintoras de criarem o que quiser. “Antes eu me sentia mal por só pintar florzinhas, mas tudo tem seu valor. A gente pensa que a arte é só algo engajado, político. Tem coisas da nossa alma que a gente só coloca através da arte”, afirma, pontuando que a militância feminina serve também para garantir o direito de ela ser “mulherzinha” se quiser. As três utilizam técnica de aquarela, mas também trabalham com tinta acrílica e a óleo.

Fátima Azevedo reforça o desejo de ter traço delicado sem que isso seja considerado menor dentro da técnica artística. “Nós três temos aflorada a sensibilidade do feminino. A gente tem um traço leve, as cores, as imagens femininas, muita ternura”, defende, salientando que essa leveza não tem de ser regra quando se fala de pintoras. Para a médica-artista, um mundo menos machista depende diretamente de mulheres mais conscientes de si. “A maioria dos homens recebe educação de mulheres, então, na verdade, essa mudança tem que partir muito da gente”, reflete. “E está partindo”, assegura.

 

SERVIÇO

 

Mostra Guerreiras ou artistas?

Quando: abertura hoje, às 17 horas. Segue em cartaz até 10 de junho

Onde: Espaço Cultural dos Correios (Rua Senador Alencar, 38 - Centro)

Entrada gratuita

Telefone: 32557238

 

RENATO ABê