PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

"Não renunciarei", afirma Temer após delação da JBS

Em dia dramático para a economia, Michel Temer se tornou alvo de inquérito e viu vir à tona gravação que complica sua permanência no poder. Ele nega, no entanto, deixar o cargo

01:30 | 19/05/2017
Crise se aprofunda, mas Michel Temer afirma que não deixará presidência AGÊNCIA BRASIL
Crise se aprofunda, mas Michel Temer afirma que não deixará presidência AGÊNCIA BRASIL

Dois principais trunfos de Michel Temer, a base sólida no Congresso e a gradual melhora da economia foram implodidos ontem pelos avanços da Lava Jato e deixaram sinais de um governo à deriva. Em escalada da pressão política que obrigou Temer a vir a público descartar renúncia, o presidente se tornou alvo de inquérito na Operação e viu vir à tona gravação que coloca sua permanência no cargo no limiar do insustentável.

Em áudio incluído na delação de Joesley Batista, um dos donos da JBS, o empresário revela a Temer que estava “comprando” um procurador da República em troca de dados sigilosos sobre investigações contra ele. Na gravação ocorrida em março no Palácio do Jaburu, Temer é informado ainda sobre plano para interferir nas investigações – e não reage contra.

Outra denúncia da delação, de que o presidente teria dado aval para “compra” do silêncio do ex-deputado Eduardo Cunha (PMDB-RJ) na Lava Jato, ainda segue inconclusiva. Na gravação divulgada ontem, parte dos trechos em que os dois conversam sobre Cunha é inaudível. Em dado momento, Batista informa que está “de bem” com Eduardo, ao que Temer responde: “Tem que manter isso, viu?”.

No acordo de delação premiada, no entanto, o empresário afirma que os trechos inaudíveis diziam respeito a acertos em dinheiro. Antes de citar que está em bom relacionamento com o deputado cassado, Joesley Batista relata já ter sido cobrado por ele.

“Dentro do possível, eu o máximo que deu ali, zerei tudo, o que tinha de alguma pendência daqui para ali, zerou tudo. E ele foi firme em cima. Ele já estava...Veio, cobrou, tal, tal, tal”, disse. Depois da orientação de Temer em “manter” a iniciativa, Joesley responde “todo mês”. Até agora, não foi divulgada transcrição oficial do diálogo.

Paralelamente ao levantamento do sigilo das delações da JBS, o relator da Lava Jato, Edson Fachin, determinou que a Procuradoria-Geral da República abra inquérito contra o presidente no caso.

Já o procurador da República Ângelo Goulart Villela, provável representante do MPF citado pelo empresário, foi preso ontem sob suspeita de vazar investigações para a JBS. Villela era membro da força-tarefa da Operação Greenfield, que apura rombo bilionário em fundos de pensão.

Sobre o caso, o empresário disse a Temer “estar enrolado”. “Aqui eu dei conta de um lado o juiz, dei uma segurada, de outro lado o juiz substituto”. “Tá segurando os dois?”, pergunta Temer. “Segurando os dois”, diz Joesley. “Ótimo, ótimo”, responde Temer.

Sem renúncia

Pressionado pela reação da economia e acúmulo de pedidos de impeachment na Câmara – oito até a noite de ontem –, Temer discursou em cadeia nacional sobre as acusações e negou cogitar renúncia. “Não renunciarei! Repito: não renunciarei! Sei o que fiz e sei a correção dos meus atos”, disse, em breve discurso de cerca de cinco minutos.

As negativas não conteram dia dramático para a economia – com queda de 10% da bolsa e alta de mais de 8% do dólar – e sinais de início, ainda que contido, de um processo de “desmonte” da base do presidente no Congresso.

Após reação do governo, apenas PPS e Podemos (antigo PTN) anunciaram saída da base aliada. Apesar de Bruno Araújo (Cidades) ter inicialmente cogitado deixar o cargo, apenas Roberto Freire (Cultura) entregou o cargo.

Principais siglas da base aliada, PSDB e DEM racharam, com alguns parlamentares cobrando rompimento, mas tom geral pregando “cautela” e espera por novos fatos. (com Agência Estado)

SAIBA MAIS

Em reunião fechada com sua cúpula na tarde de ontem, o presidente Michel Temer orientou a equipe a “partir para o enfrentamento” nos próximos dias. A ideia é mostrar que o governo não está acuado com as delações da JBS nem com abertura de inquérito contra ele na Procuradoria-Geral da República (PGR)

Temer pediu “resistência” a partidos aliados, do PSDB ao PP, e cobrou apoio à agenda de reformas. Ele chegou a ser aconselhado a renunciar por dois assessores de sua extrema confiança. "Não sou homem de cair de joelhos. Caio de pé", reagiu.

A portas fechadas, Temer usou termos como "conspiração" e "ação orquestrada" para se referir ao vazamento das delações de Joesley Batista e de executivos da JBS.

CARLOS MAZZA