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VERSÃO IMPRESSA

A narrativa do absurdo

01:30 | 18/05/2017

Ítalo Coriolano, editor-adjunto de Conjuntura

Quando a Operação Lava Jato foi deflagrada, atingindo quase todo o espectro político brasileiro, chegou-se a ter a esperança de que, ao menos durante as investigações, as práticas perniciosas seriam estancadas. Que nada! No auge de toda a tensão política, pressionado de todos os lados, o presidente da República, segundo mostrou o jornal O Globo, ainda teve a desfaçatez de negociar com empresários a compra do silêncio do cassado e preso Eduardo Cunha. Uma mistura de falta de noção com amadorismo que revela o quão grave e doentio é o nível que chegou a corrupção em nosso País. E o mais curioso é que não foram necessárias escutas telefônicas, câmeras escondidas e toda a parafernália tecnológica da Polícia Federal para colher uma clara prova de tentativa de obstrução da Justiça. Um simples gravador no bolso de um dos donos da JBS, Joesley Batista, pode ajudar a derrubar o comandante máximo de uma nação. Esse famoso aparelhinho já usado pelo ex-presidente da Transpetro, Sergio Machado, que revelou toda uma trama para "estancar a sangria". A bala de prata no coração de uma administração que já sofria pela falta de legitimidade. Crime por cima de crime para tentar segurar um governo insustentável. A decisão de recorrer a essa tipo de artifício deve ter sido tomada em um contexto de desespero. Afinal, o ex-presidente da Câmara já está preso há mais de seis meses e tinha mandado alguns recados que poderiam envolver diretamente Michel Temer no escândalo da Petrobras.

O episódio vem mostrar ainda o que muitos já defendiam desde a época do processo de impeachment da então presidente Dilma Rousseff (PT). A saída Temer era uma das mais perigosas para o futuro do País, exatamente pelo histórico de seu partido e de todos as evidências que recaíam sobre nomes fortes da sigla. A melhor das opções seria a realização de novas eleições. Apenas as urnas poderiam garantir o mínimo de tranquilidade tanto para a retomada do crescimento econômico como para a continuidade da Lava Jato. Mas não. Nunca pacto medíocre entre todos os Poderes, veio a solução mais prática, aprofundado uma das maiores crises do País. Clima zero para a aprovação de qualquer reforma. A grave situação mostra não ser possível esperar até outubro de 2018. A mudança tem que ser imediata.