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Correspondente em Portugal narra o cenário de um incêndio anunciado

Altas temperaturas, baixa umidade e ventos fortes contribuiram para que o fogo se alastrasse rapidamente. Outros fatores, no entanto, agravaram a tragédia

01:30 | 19/06/2017

Mais de 24 horas após o início do incêndio, as chamas ainda podiam ser vistas nas florestas de eucalipto na região de Pedrógão Grande e vilarejos vizinhos, no centro de Portugal. Tragédia chocou o país FOTOS PATRÍCIA DE MELO MOREIRA/AFP
Mais de 24 horas após o início do incêndio, as chamas ainda podiam ser vistas nas florestas de eucalipto na região de Pedrógão Grande e vilarejos vizinhos, no centro de Portugal. Tragédia chocou o país FOTOS PATRÍCIA DE MELO MOREIRA/AFP
 

ARIADNE ARAÚJO

DE PORTUGAL

ESPECIAL PARA O POVO

O fogo sempre devorou florestas em Portugal. Todos os anos é a mesma coisa. Incêndios por aqui são tantos, principalmente nos quentes verões, que já ninguém se assusta. Vê-se pela televisão, lê-se detalhes nos jornais, comenta-se nas ruas, vive-se com eles. Mas neste 2017 eles começaram cedo. Pleno inverno – foram poucas as chuvas -, ainda no primeiro trimestre do ano, o fogo já tinha devorado 20 vezes mais áreas que no mesmo período de 2016. Na imprensa local, o Secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, explicou que este era um ano atípico e que tinha pronto um plano robusto de “mais vigilância”. Um plano “mortes zero”.

Moradores da localidade de Castanheira de Pêra foram resgatados de suas casas pela Cruz Vermelha
Moradores da localidade de Castanheira de Pêra foram resgatados de suas casas pela Cruz Vermelha

A tragédia desse final de semana deixou Jorge Gomes, e o país inteiro, aos prantos. A emoção e a perplexidade são grandes até porque não se tem memória de incêndio igual no país. Para se ter ideia, segundo a agência de notícias Lusa, em 2012 centenas de incêndios em Portugal provocaram 6 mortes. Ano passado, incêndios na ilha da Madeira mataram 3 pessoas e deixaram 37 sem casa. Mas dessa vez, diante da magnitude desse incêndio e do número de mortos e feridos, a pergunta é por que esse foi assim tão mortífero e incontrolável?


Moradora de Figueiró dos Vinhos teve o carro carbonizado após sair de casa para escapar do fogo
Moradora de Figueiró dos Vinhos teve o carro carbonizado após sair de casa para escapar do fogo

A resposta não será completa, mas algumas informações ajudam a montar este quadro diabólico que, muitos dizem por aqui, se não evitado totalmente, poderia ter sido de menor proporção. Sim, pois este incêndio, digamos, estava “anunciado”. Mas, vamos por partes. Primeiro, a imprensa tinha avisado aos portugueses: este final de semana seria infernalmente quente. Previsão para Lisboa era de 40 graus. Outras regiões do centro do país, mais que isso. Para piorar, a umidade estava muito baixa e os ventos fortes sopravam lufadas de ar quente a mais de 30 quilômetros por hora. Os três elementos juntos são combinação ideal para incêndios florestais.

Por isso, enquanto os portugueses aproveitavam o sábado de verão abafado nas praias e terraços de café, vários pontos de incêndios começaram por volta das 2 da tarde, naquela região central de Portugal, chamada Pinhal Interior Norte, onde se insere Pedrógão Grande. Às 18 horas, quando o raio caiu sobre uma árvore – a chamada trovoada seca – o conjunto da obra estava completo. Segundo testemunhas, num minuto o fogo estava longe, noutro estava ao lado.

Muita gente tentou fugir de carro, mas o dia de sol luminoso tinha se transformado em noite, a fumaça e as labaredas trouxeram o pânico. Segundo as notícias, dos 61 mortos (até agora), pelo menos 30 morreram dentro dos carros e outros 17 na estrada. Pelo que se sabe, no meio da confusão e sem visibilidade, os carros bateram uns contra os outros e atropelaram pessoas.

Quem sobreviveu fala de uma noite de inferno sobre a Terra. Em casa, cercados pelo fogo, falam de um trauma para toda a vida. As imagens feitas por drones e exibidas nas televisões portuguesas mostram o rastro deixado pelo fogo. No caminho, placas derretidas, carros carbonizados, corpos irreconhecíveis atravessados pelo chão. Várias aldeias foram evacuadas, mas muita gente não quer partir. Os mais idosos são os mais difíceis de convencer a deixarem suas casas.

Aliás, nestas pequenas aldeias da região incendiada, o despovoamento é crescente. Sem novos braços para cuidar da terra, também não há mais quem faça a limpeza (obrigatória contra incêndios florestais) do mato seco e das faixas de segurança das casas e beiras de estradas. Para complicar, o pinheiro (que dá o nome da região) cobre só a metade da área. A outra metade é eucalipto. No jornal Público, António Louro, presidente da maior federação de produtores florestais do país, o Fórum Florestal, disse que a combinação dessas duas espécies é um “desastre”. Enquanto o pinheiro dá “severidade” ao incêndio, o eucalipto ajuda a projetar o fogo, “tornando-o mais difícil de controlar”.

No dia do grande incêndio em Pedrógão Grande, foi um pouco de tudo isso que se conjugou para dar início a 153 pequenos fogos que se deflagraram antes do tal raio eletrocutar uma árvore. Isso tudo e, provável, um último elemento que não está nada descartado. O da mão humana que, por estas bandas, provoca incêndios em Portugal todos os anos.

Certo, a trovoada seca provocou o incêndio que começou às 18 horas, mas e os outros que já ardiam desde às 14 horas? Sem eles, tudo teria sido diferente, dizem alguns especialistas. A começar pelos bombeiros que não teriam que se multiplicar para combater o fogo em várias frentes. Mas isso (talvez) nunca saberemos.

 

Números

 

40 graus era a temperatura média em Portugal no fim de semana, o que potencializou a ocorrência dos incêndios nas áreas de pinheiros e eucaliptos

 

30 pessoas morreram carbonizadas dentro de seus carros na estrada entre Figueiró dos Vinhos e Castanheira de Pêra, que foi tomada pelo fogo no sábado, 17