PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Santuário trouxe prestígio a Fátima

Por décadas, os portugueses enxergavam Fátima como atraso, coisa de beato, mas a realidade virou. A cidade passou a projetar o país, atrair figuras importantes do cenário mundial, peregrinos e, principalmente, muitos turistas que movimentam a economia

01:30 | 12/05/2017
Oito milhões de pessoas devem passar por Fátima neste ano do Centenário das Aparições PATRÍCIA MOREIRA/AFP
Oito milhões de pessoas devem passar por Fátima neste ano do Centenário das Aparições PATRÍCIA MOREIRA/AFP

A cidade virou marca de prestígio para Portugal. Um século depois das aparições, a cidade coloca o país novamente no circuito mundial e começa a engendrar uma ponta de orgulho nacional. E isso é algo novo por aqui. Quer dizer, durante décadas os portugueses viram Fátima com olhos atravessados. De um modo geral, a devoção à Senhora do Rosário era vista como coisa de beato, de gente sem instrução, objeto de manipulações político-religiosas nos tempos de ditadura. Assim, ninguém apostava que Fátima teria essa projeção e, melhor, traria projeção. Além, claro, de milhares de turistas para o país. Só por Fátima devem passar oito milhões de pessoas este ano, o que sempre ajuda a economia ainda trêmula das pernas.

A vinda de três papas – Francisco será o quarto – joga os holofotes sobre a cidade e faz o milagre na multiplicação de visitas. Difícil imaginar como um descampado pedregoso e seco da Cova da Iria tenha se transformado nesse Santuário moderno, cada prédio assinado por grandes arquitetos, com obras de arte aqui e ali, pensado de maneira a acolher a devoção do mundo inteiro. Em 1917, era apenas um ermo perdido. Havia um pórtico sinalizando o lugar das aparições e uma minúscula capelinha feita, de iniciativa própria, por um pedreiro local. Os devotos ainda em busca de uma imagenzinha para por sobre o altar.

Nos anos 30, a primeira imagem de Fátima tinha já sido esculpida e construído o monumento ao Sagrado Coração de Jesus, com sua fonte de água. Depois foi a enorme Basílica do Rosário (1928–1953) que, no seu estilo tradicional, deu um status ao lugar. Desenhava-se aí este enorme pátio aberto, lugar para grandes assembleias de devotos. Aos domingos, é lá que se reza missa a céu aberto, num presbítero novinho em folha, remodelado e ampliado para a celebração de amanhã do papa Francisco. Por último, buquê final, foi construída a moderna igreja da Santíssima Trindade, feita para receber nove mil pessoas.

Mas, acredite, o Santuário não é só isso. Nos 30 mil metros quadrados de terreno, correspondente só ao recinto de oração, encontramos também o prédio da reitoria, duas casas de retiros – a Nossa Senhora das Dores e a Nossa Senhora do Carmo –, um centro pastoral e uma residência para peregrinos, museus e capelas no subterrâneo do pátio, sala de projeção de filmes, uma loja de artigos religiosos e uma livraria. Ao lado disso, segundo a revista Visão, são ainda 90 pontos de vendas de artigos em duas pracetas, a São José e a Santo Antônio, além de 14 parques de estacionamento de uso grátis para os peregrinos.

Cresceu em arquitetura e terreno (há mais área do Santuário em outros pontos), mas cresceu também aos olhos dos portugueses. Tantos anos torcendo o nariz para a crença nas aparições, parte da população viu pasmada o desfile no Santuário: além de papas, membros da realeza, líderes religiosos como o Dalai Lama, que deixou uma flor aos pés de Fátima, também chefes de Estado e até ditadores. A princesa Grace Kelly, a madre Teresa de Calcutá e mesmo Hillary Clinton figuram na longa, e surpreendente, lista de devotos famosos. O canal de tevê História, com documentário especial sobre o tema, resumiu bem o caso: o fenômeno tem para Portugal de hoje o mesmo impacto que as grandes navegações tiveram no passado.

(Ariadne Araújo, de Fátima, especial para O POVO)