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Tempo de brincar e de cuidar

17:00 | 12/08/2017

 

LUIZ GUSTAVO E ANDRÉ LUIZ

André foi nascendo ao mesmo tempo em que Gustavo fazia uma segunda graduação. O biólogo, professor da rede pública, queria mudar de profissão e, aos oito meses de gravidez da namorada, tentou o Enem para Direito. “Teve essa questão de não ser planejada (a gravidez), de muitos medos, de muitos planos”, ele costura os dias que vieram entre os sonhos da juventude. O tempo que une filho e pai é, justamente, este que amplia a vida para além do que se planeja ou do que já se sabe.

Até a hora do parto, e do choro, e da fome, e do cuidado infinito, nenhuma leitura ou conversa sobre paternidade havia revelado a dimensão de um filho - e de um pai. Contaram-lhe das madrugadas e da necessidade de paciência, mas nenhuma palavra lhe diria, completamente, o amar. Luiz Gustavo Fagundes Bezerra, 35 anos, e a namorada só moraram juntos “no finalzinho da gravidez e até os seis primeiros meses de vida” de André Luiz Santos de Araújo Fagundes Bezerra (hoje, com cinco anos). Desde então, o menino cresce na conjugação do pai. “Por conta das circunstâncias de vida mesmo... ele foi apegado à mim, às pessoas daqui de casa (avós)”, liga-se Gustavo. 

“Geralmente, ele (André) só come comigo e só dorme comigo”, partilha o biólogo e advogado, enquanto inicia novo emprego e outros rumos. “É difícil explicar, mas a vida passou a ter sentido. As coisas iam caminhando no automático... e, agora, tenho uma pessoa por quem sou responsável e não posso mais planejar a minha vida só”, desdobra-se. 

André segue um caminho que o pai ainda desbrava em meio à “muita insegurança, principalmente, projetando o futuro de experiências que ele (filho) vai ter e que precisa ter”. Adiante, aponta Gustavo, estão a adolescência, o primeiro amor, os amigos, as festas, as incontáveis dores, a saída de casa, a vontade do tempo. Ele promete permanecer ao lado de André, então, abrindo caminhos juntos: “Tem um ser humano crescendo e ele precisa de uma orientação”. 

Os dois sempre conversam antes de dormir, extrai Gustavo, passando o dia e a vida a limpo. André lhe conta do colégio, o pai lhe narra o mundo. Explica-lhe, por exemplo, que menino não suporta mais dor que menina; que homens não se tornam donos das mulheres; que mãe e pai, verdadeiramente, são iguais no compromisso de criar um filho. Gustavo deseja que André “seja uma pessoa com caráter” e tenta fazê-lo entender que ele “está crescendo em uma sociedade diferente. Isso é o melhor pra ele: evoluir. Ele crescer sendo melhor do que eu nesse sentido: de conceitos que tive, e de dar um passo à frente”.

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É uma troca de entendimentos, na prática. André, com sua personalidade forte e seus porquês, diz Gustavo, também ensina sobre abnegação, “o se doar. Entender que existe uma pessoa que não tem a mesma compreensão do mundo. E que, ao mesmo tempo que ele não lhe pertence, você se dar e tentar enxergar o mundo pelos olhos dele”. O maior aprendizado desta relação que se faz e refaz, sublinha o pai, é alimentar o filho antes da própria fome, é acalentá-lo antes de sanar o próprio cansaço. E é deixá-lo livre quando se quer tê-lo nas mãos. “O tempo voa! Ele já está um rapaz! A gente está nessa rotina, não vai percebendo, mas o tempo vai correndo”, cirandam. 

Gustavo procura, nas histórias, o primeiro banho que deu no filho, a primeira troca de fraldas e, para driblar o tempo, transforma as horas depois do expediente em brincadeiras. “Hoje é o tempo dele aprender as coisas que gosto de fazer: ele está aprendendo a andar de skate, jogar bola, surfar”, demarca Gustavo. 

Na conjugação de pai e filho, um vai sendo parte do outro. Vão nascendo juntos. “Quando ele falou, a primeira vez, que me amava, não dormi. Fiquei a noite todinha chorando! Ele tinha três anos na época”, espelha Gustavo. 

Se o pai pudesse guardar o tempo, guardaria as noites, quando ele 

e o filho passam a vida a limpo. “As conversas que a gente tem. Porque sei que vai chegar um momento que ele não vai querer que eu chegue perto, que eu entre no quarto dele”, adianta até a adolescência, a saída de casa, a vontade do tempo. 

Mais à frente, ele projeta, quando houver a velhice e for a vez de o filho desbravar o caminho dos cuidados, Gustavo gostaria que André soubesse que sempre existirá um tempo que une pai e filho: “Eu queria que ele soubesse que meu amor por ele é algo puro, verdadeiro. Eu queria que ele tivesse essa compreensão de que fiz o meu melhor. Talvez, o meu melhor não seja o que ele esteja esperando. Mas sempre tentei fazer o meu melhor: evoluindo, aprendendo. Por ele”. 

Francisco e Ana Mary

REPÓRTER ESPECIAL

 

Na verdade, meu pai não era um “pé de valsa”, mas, do seu jeito, me indicou os passos para dançar conforme a vida. Ele me ensinou mesmo foi a andar de bicicleta: a levantar depois da queda, a me equilibrar, a fazer meus próprios caminhos, a querer a liberdade. Sou filha do Francisco, pra sempre.