PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Caetano. Doce, bárbaro, estrangeiro, genial

Completando 75 anos amanhã, Caetano Veloso segue inventivo como criador e artista, seja na música, nas letras, no cinema ou nos discursos

17:00 | 05/08/2017

Cultura 

“Se alguém tentar explicar ao público anglo-americano quem é Caetano Veloso, vai acabar construindo um híbrido de Brian Wilson (Beach Boys), Stevie Wonder, Bob Dylan, Syd Barrett (Pink Floyd), John Lennon e Bob Marley. O mundo pop de língua inglesa não tem um Caetano Veloso e é provavelmente por isso que gente como Beck, Kurt Cobain e David Byrne o idolatra”, é o que diz John Lewis, editor da publicação britânica Time Out, no livro 1001 Discos Para Ouvir Antes de Morrer. E continua: “Andrógino, profundamente intelectual e, ainda assim, muito irreverente, ele é capaz de se apresentar a plateias do tamanho de um estádio de futebol com uma música desavergonhadamente esnobe”. 

Um estrangeiro demasiado baiano para esquecer suas raízes. Entre a bossa sessentista de Domingo e a bossa roqueira de Abraçaço, ele abriu espaço para samba, sambareggae, frevo, rock, discoteca e ritmos tão inclassificáveis que somente alguém de conhecimento enciclopédico sobre música poderia misturá-los. Caetano Veloso é exatamente isso, um bicho fluído, antenado, adequável e sempre moderno. Ou não. Ele também sabe ser tradicional, interiorano, bucólico e conservador. 

O fato é que o filho de Dona Canô, dona de casa que casou com o funcionário dos Correios José Telles Velloso, completa amanhã 75 anos, 50 deles dedicados a uma carreira discográfica que apontou e absorveu muitos caminhos da música brasileira. No entanto, na confusão de referências que preenche a cabeça de Caetano, é impossível compreender sua arte apenas pela música. O irmão mais ilustre de Maria Bethânia é também próximo das artes plásticas e, desde muito pequeno, gostava de desenhar. Sonhou em ser pintor. As calçadas da pequena Santo Amaro, localizada a 72 km da capital baiana, ficavam mais coloridas quando ele passava. 

E como não falar do amor de Caetano pelo cinema. De cinéfilo apaixonado, ele ainda provou um pouco de várias funções que a sétima arte propõe. Um dos seus primeiros trabalhos foi como autor de críticas e ensaios sobre seus diretores preferidos. Ele ainda usou sua porção ator atuando, entre outros, em O Demiurgo (1970), loucura lisérgica de Jorge Mautner, filmada durante o exílio em Londres, e O Mandarim (1995), película experimental sobre o cantor Mário Reis, que traz Caetano interpretando a si mesmo. E ainda se mostrou diretor, quando lançou o inclassificável Cinema Falado (1986).  

E o que dizer do único brasileiro a cantar numa cerimônia do Oscar? Em 2003, ele subiu ao palco do Kodak Theatre para interpretar Burn In blue, ao lado da mexicana Lila Downs. A faixa fez parte da trilha do filme Frida, de Julie Taymor, e era uma das concorrentes à estatueta de melhor canção. 

Se for para entrar no assunto “trilha sonora para cinema”, a lista de experiências não caberia nesta página. “Eu e o Marcio tivemos o trabalho hercúleo de montar esse quebra cabeça quase enlouquecedor. Essa pluralidade talvez tenha sido o grande desafio”, comenta Carlos Eduardo Drummond, que dividiu com Marcio Nolasco a recém lançada biografia do cantor, Caetano Uma Biografia (A vida de Caetano Veloso, o mais Doce Bárbaro dos Trópicos). Da formação do município onde os Veloso cresceram até os primeiros anos deste século, o livro destrincha a vida do compositor em detalhes até constrangedores, como a primeira transa e as relações quentes com Regina Casé (musa de Rapte-me, camaleoa), Vera Zimmermann (Vera gata) e Paula Lavigne (Branquinha), que começou a namorar Caetano em 1982, aos 13 anos. 

Nas mais de 500 páginas do livro, as minúcias sobre o compositor de Você é Linda e Trilhos Urbanos foram proporcionadas por horas de pesquisas em periódicos e cerca de 103 entrevistas. “Não tínhamos ideia do tamanho da pesquisa que seria sobre o Caetano”, admite Carlos Eduardo, que chegou a visitar todas as escolas por onde passou o baiano, além de dezenas de amigos e até o sempre desafeto Geraldo Vandré, um ferrenho crítico do tropicalismo. 

É bem verdade que existe um desafio em escrever uma biografia sobre Caetano Veloso, uma vez que muito já foi escrito e o próprio já lançou Verdade Tropical, uma análise particular sobre sua vida com ares de biografia. Some a isso o fato de Caetano ainda estar em plena atividade, já preparando disco novo para ser lançado em breve e que ele já anunciou que não vai ser uma continuidade do trabalho desenvolvido com a Banda Cê.  

75 anos e Caetano continua, como define Rita Lee, “lapidado pelo tempo”, um “homem-vinho” um “eterno Dorian Gray”. 

 

DISCOGRAFIA

SELECIONADA: CAETANO VELOSO (1968) Apontado como um dos 1001 Discos Para se Ouvir Antes de Morrer, o disco lançou as bases do tropicalismo com faixas como Alegria, Alegria. TRANSA (1972) Retrato dos anos de exílio em Londres, o álbum de sonoridade acústica revela a nostalgia e a saudade de casa. Um ponto alto da obra de Caetano. OUTRAS PALAVRAS (1981) Já dominando a arte de fazer música pop, Caetano entra nos anos 1980 com álbum doce que explode em homenagens a amigos e ídolos, como os Trapalhões (Jeito de Corpo) TOTALMENTE DEMAIS (1986) Em seu primeiro disco ao vivo, Caetano registra a participação no projeto Luz do Solo. Acompanhado apenas de violão, ele explora a ótima voz em Amanhã, Dom de Iludir e outras. CIRCULADÔ (1991) Cáustico, crítico e pop, o álbum tem a explosiva Fora de Ordem, a balançante Boas vindas e a delicada Lindeza. A parceria com Milton Nascimento em A terceira Margem do Rio é um destaque. EU NÃO PEÇO DESCULPAS (2002) Dividido com Jorge Mautner, o álbum é exatamente o que se espera desses dois amigos: música boa misturada com loucura. Morre-se assim e Manjar de Reis são ótimas. CÊ (2006) Gravado ao lado de um trio de jovens músicos, o álbum abre uma trilogia de estudos sobre o rock, o samba e a bossa nova. Tudo sustentado sobre baixo, bateria e guitarra. 

 

Serviço 

CAETANO - UMA BIOGRAFIA De Carlos Eduardo Drummond e Marcio Nolasco Ed. Seoman 544 pág. Quanto: R.90