PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Literatura. Áridas peregrinações de Valter Hugo Mãe

Primeiro nome internacional confirmado na Bienal do Livro do Ceará, o escritor angolano assume os riscos da escrita e fala do peso da vida e morte em suas jornadas

17:00 | 01/04/2017
A caminho de Fortaleza, Valter Hugo Mãe espera encontrar obras de Alberto Nepomuceno NELSON D'AIRES/ DIVULGAÇÃO
A caminho de Fortaleza, Valter Hugo Mãe espera encontrar obras de Alberto Nepomuceno NELSON D'AIRES/ DIVULGAÇÃO

A escrita de Valter Hugo Mãe é um convite. As palavras - grafadas em minúsculas ou não - carregam uma potência afetiva incomum e conduzem de forma envolvente e insuspeitada aos universos da memória, solidão e morte. Aí está toda a peculiaridade e maestria da literatura de Mãe: a busca -e o encontro - da delicadeza e alento em meio a temas áridos que inquietam e entristecem.


O autor português não se atém a formas. Entre 2004 e 2010 publicou a tetralogia das minúsculas, quatro livros sem uma letra maiúscula sequer. Alcançou notoriedade com esta marca e foi além. As maiúsculas tomaram parte em suas histórias e as minúsculas ficaram no passado. O que permaneceu foi o tom emocionado da prosa.


Mãe esteve no Brasil pela primeira na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2011. Foi aplaudido de pé, vendeu 500 livros em dois dias e recebeu um pedido de casamento de uma mulher na fila de autógrafos. Mas sua literatura não atrai apenas mulheres. O escritor José Saramago o classificou como um “tsunami linguístico”.

&nsbp;

Com um aglomerado cada vez maior de leitores e prêmios na bagagem - venceu os prêmios José Saramago (2007) e o Portugal Telecom (2010) - Mãe vem a Fortaleza pela primeira vez no próximo dia 14 como principal nome da XII Bienal Internacional do Livro do Ceará.


A seguir, o autor comenta a polêmica recente em que se viu envolvido, quando um de seus livros foi alvo de críticas por supostamente conter momentos “sexualmente incômodos”. Cidadão do mundo, ele também reflete o modo como os deslocamentos aparecem em sua obra. Comenta ainda a relação com o Brasil, o peso da morte e afirma: “tenho cada vez menos amigos”.


O POVO - Recentemente, pais de alunos do 8° ano de um liceu em Portugal reclamaram da presença de trechos “sexualmente incômodos” no livro O Nosso Reino. Como você encarou isso?

Valter Hugo Mãe - Encarei com estupefação. O puritanismo tem vindo a aparecer nas mentes do mundo. Com os medos irracionais e todos os recuos nos direitos humanos, há quem queira regressar a um tempo de obscurantismo, onde o bicho papão está em toda a parte. Acho glorioso que, com tanta televisão sensual, MTV feita de uma quase pornografia, com tanta internet de pornografia livre, seja exatamente um livro sobre uma criança aspirando à santidade que, por duas frases e três palavrões, seja acusado de perverter o mundo. É uma imbecilidade risível.

OP - A morte vem sendo tema recorrente em tua produção. O que me chamou atenção em Homens Imprudentemente Poéticos é que a morte é um elemento provocado, antinatural. Falamos de suicídio, de assassinato. Como foi trabalhar essa temática sob um novo olhar?

Mãe - Venho trabalhando a ideia de que a morte precisa de ser ponto de completude e não fratura. Em vários romances vou procurando afunilar essa ideia de que morrer só será dignificador se permitir que nos sintamos completos mais do que interrompidos. Os suicidas japoneses podem conter uma resposta muito peculiar e importante para esta angústia de chegar ao fim. É muito instigador pensar na morte como resultado de uma meditação madura e não como desespero.

 

OP - Cada vez mais, você vem se firmando como um homem do mundo. O que é mais difícil, reconhecer-se em uma nação ou ter a coragem para se afastar dela?

Mãe - Começa a ser difícil regressar ao mesmo lugar. Com o tempo, minha cidade pequena esvazia. A política local não é competente para fixar as pessoas. A emigração é tremenda. Tenho cada vez menos amigos. Isto fica como um belo lugar triste que, mais ainda, nos agride. É revoltante. Sou levado a crer que melhor é circular. Sair para ver como o mundo pode ter outra dinâmica. Como outras cidades são feitas de maior força ou genuinidade. Lugares que amam suas pessoas.

OP - E por falar em viagens e deslocamentos, você já pensou em escrever sobre os refugiados?

Mãe - Sinto que tem tanta gente escrevendo sobre o assunto que seria muito confundido com oportunismo. Não quero vampirizar a desgraça de ninguém. Talvez mais adiante. Conheci um poeta sírio, há 15 anos, que me dizia que o seu país era o mais belo do mundo. A verdadeira terra da maravilha. Não consigo esquecer essa conversa. O poeta chorava pedindo que eu acreditasse e viajasse para a Síria vendo como era assim mesmo. Penso nisso agora que vemos as imagens da destruição. Penso em como a maravilha sucumbe à força do horror humano.

OP - E o livro que se passaria no Brasil? Ainda está nos planos?

Mãe - Sim. Mas, como tenho dito, bem adiado para quando fizer sentido. Para quando puder escrever-se de modo muito natural.

OP - Em outra ocasião você disse que “a melhor coisa que os portugueses fizeram foi o Brasil”. O qual foi a melhor coisa que os brasileiros fizeram?

Mãe - Agostinho da Silva, filósofo português que viveu muitos anos no Brasil, profundamente encantado pelo País, disse isso. Eu julguei que estivesse citando algo bem conhecido. O Brasil, como lugar de povo uno, é um resultado histórico da influência portuguesa. Isso é o que de melhor sobrou do grotesco tempo da primeira globalização levada a cabo por Portugal e Espanha. É lindo que um país tão grande e distinto seja, sem grande conflito identitário, uma verdadeira nação. Os portugueses que poderão ter induzido isso são os que aí ficaram. Ou seja, esses portugueses viraram alguns dos primeiros brasileiros. Claro, infelizmente preterindo os índios, que são verdadeiramente os brasileiros. Na verdade, independentemente da história, que foi feita de horrores em todo o mundo, penso que o Brasil precisaria hoje de honrar os índios. Todo o cidadão brasileiro é, de certo modo, hóspede de índio. Isso tem de ser respeitado. Até para que todo o resto seja dignificado e legítimo.

OP - São 20 anos de carreira. Escrever tornou-se hábito ou ainda te intimida e surpreende?

Mãe - Intimida cada vez mais. Não posso anunciar qualquer coisa como nova dentro do meu trabalho. Para sentir alguma sensação de novo tenho de buscar muito mais. Arriscar mais. Talvez sofrer mais. A escrita não tem lado comodo. Ela é gratificante, mas é continuamente um quebrar de ossos.

OP - Você conhece Fortaleza? O que te vem à cabeça quando pensa na cidade?

Mãe - Não conheço. Quero muito. Calor. Alberto Nepomuceno. José de Alencar. Calor. Creio que todas as pessoas me falam do calor. Gostaria de assistir um recital de Nepomuceno. Talvez tenha sorte. E de comprar CDs com suas obras interpretadas. Aqui é muito difícil de comprar, é quase impossível encontrar.

 

REEDIÇÕES E NOVIDADES

Em dezembro de 2015, quando foi anunciado o fechamento da Cosac Naify, casa que vinha editando os livros de Valter Hugo Mãe no Brasil, os fãs do autor começaram a se perguntar sobre o destino que seria dado aos seus velhos e novos títulos. Para alívio dos leitores, a Biblioteca Azul, selo da Globo livros que publica Elena Ferrante e Alice Munro, assumiu essa responsabilidade. Além de reeditar três de seus títulos já publicados (1. A Desumanização, 2. a máquina de fazer espanhóis e 3. O Filho de Mil Homens), lançou recentemente seu último romance,(4) Homens Imprudentemente Poéticos, com trama que se desenvolve no Japão antigo.

JÁDER SANTANA | MARINA SOLON