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Cláudio Ferreira Lima: "Eu S/A, o sujeito neoliberal"

17:00 | 29/04/2017

Cláudio Ferreira Lima

claudioflster@gmail.com

Economista

Pierre Dardot, filósofo, e Christian Laval, sociólogo, publicaram “A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal” (São Paulo: Boitempo, 2016), obra, segundo eles, de esclarecimento político sobre o neoliberalismo, na qual adotaram como referência central “Nascimento da biopolítica”, curso dado por Michel Foucault no Collège de France em 1978-1979, editado no Brasil pela Martins Fontes em 2008.

Trata-se, portanto, da abordagem do modo de governo, ou seja, do modo de conduzir a conduta dos homens, tanto a conduta que se tem para consigo mesmo quanto para com os outros.

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Assim, o neoliberalismo é, em essência, “uma racionalidade e, como tal, tende a estruturar e organizar não apenas a ação dos governantes, mas até a própria conduta dos governados” (p. 17).

A norma de vida neoliberal “impõe a cada um de nós que vivamos num universo de competição generalizada, intima os assalariados e as populações a entrar em luta econômica uns com os outros, ordena as relações sociais segundo o modelo de mercado, obriga a justificar desigualdades cada vez mais profundas, muda até o indivíduo, que é instado a conceber a si mesmo e a comportar-se como uma empresa” (p. 16).

Nesse sentido, entre os seus traços mais marcantes, está o eu s/a, quer dizer, o neosujeito, o sujeito neoliberal, que não se vê como trabalhador, mas, sim, como empresa que vende um serviço no mercado. Em sua gestão de si mesmo, fabrica para si mesmo um eu produtivo. É o homem da competição e do desempenho, o empreendedor de si, feito para “ganhar”, ser bem-sucedido. Daí, aos quatro ventos, o discurso do “sucesso” como valor supremo, não importando os meios para alcançá-lo.

A nova norma de si é a realização pessoal: autoconhecimento e autoestima, para chegar lá. Para isso, recebe formação especializada em empresas de si mesmo (coaching).

Adeus, quadro estável, carreira previsível e solidez nas relações humanas. A vida profissional é feita de “transações pontuais” (e não de relações sociais), com o mínimo de lealdade e fidelidade. E, como empresa de si mesmo, eu s/a vive, diuturnamente, em risco.

Para Dardot e Laval, a crise mundial é “a crise de um modo de governo das economias e das sociedades baseado na generalização do mercado e da concorrência” (p. 27), que corrói os laços sociais e destrói a dimensão coletiva da existência.

Mais que nunca, é preciso superar o neoliberalismo, lutar por outra razão do mundo, sustentada num sistema de relações sociais que privilegia “o uso comum sobre a propriedade privada exclusiva, o autogoverno democrático sobre o comando hierárquico e, acima de tudo, torna a coatividade indissociável da codecisão” (p. 9). Enfim, como diz Caetano: “Eu não espero pelo dia em que todos os homens concordem,/ Apenas sei de diversas harmonias bonitas possíveis sem Juízo Final”.