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São José. A simplicidade que atraiu a devoção do povo

Com festa celebrada hoje pelos devotos, José foi o santo que apareceu nos relatos bíblicos sem nenhuma fala e com diversos exemplos a serem seguidos

17:00 | 18/03/2017

“Calem-se, portanto, as palavras e falem as obras”. A frase é de Santo Antônio de Pádua e se encaixa perfeitamente na vida de São José. Nas narrativas bíblicas, José não pronuncia uma frase sequer. São as atitudes como noivo e, depois, como esposo e pai adotivo que dão conta da missão vivida por ele. Sem ter sido concebido livre do pecado, ele mostrou que é possível ser totalmente criatura e obediente aos planos de Deus, ressalta o padre Rafhael Maciel, reitor do Seminário Propedêutico de Fortaleza.


Ele é acionado em causas especiais e admirado pela função de proteger e sustentar a família formada com Maria e Jesus. O carpinteiro José tem festa celebrada hoje, dia em que o sertanejo espera por chuvas como sinal de bom inverno no Ceará. Para além das novenas e pedidos de intercessão, a prática mais valiosa do devoto é seguir os exemplos deixados por ele, ensina padre Rafhael. Pelas ações transmitidas na tradição católica, José foi justo e sereno. Deixou as marcas do acolhimento, do cuidado com o outro e do silêncio que edifica, sem julgamentos ou ações precipitadas.

 

A ESPERANÇA DE UM BOM INVERNO


Chuva no dia 19 de março é sinal de bom inverno para o Ceará, reza a crença popular. A festa de São José é a terceira data em que o sertanejo faz as previsões para o período de chuvas. A primeira vem em 13 de dezembro, Dia de Santa Luzia. Depois vem São Sebastião, em 20 de janeiro. “É a última esperança do povo que espera pelas chuvas do ano”, ressalta padre Rafhael. Ele observa que as orações dos devotos continuam mesmo se a fé e os fatores meteorológicos não coincidem: a prece do sertanejo ajuda a manter a esperança e encarar as dificuldades.


Para a ciência, não há relação entre as chuvas no dia 19 de março com a qualidade da quadra chuvosa, explica David Ferran, meteorologista da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). Nem mesmo os volumes da pré-estação de dezembro e janeiro, alcançando os dias de Santa Luzia e São Sebastião, garantem bom período da estação oficial — que vai de fevereiro a maio.


PROTEÇÃO PARA O TRABALHADOR


Além do 19 de março, outra data é dedicada a José no calendário litúrgico. É o dia 1º de maio, quando a Igreja faz memória a São José Operário. A festa foi instituída pelo papa Pio XII, em 1956. A data tem inspiração no Dia Universal do Trabalho, já que a tradição católica atribui ao santo o ofício de carpinteiro. Foi assim que ele sustentou a casa e passou os ensinamentos da profissão a Jesus. “Ele é também patrono dos operários, e os trabalhadores mais simples se identificam com ele”, conta padre Rafhael.

É costume entre os fiéis pedir a intercessão de José para pedir emprego. Além das preces para arranjar uma ocupação, o santo é lembrado também nos pedidos por fartura. Principalmente nas colheitas e nos trabalhos do campo.


Patrono para a Igreja Católica


Depois de Maria, José é considerado o maior entre todos os santos. Desde 1870, ele é o patrono universal da Igreja Católica, um título dado pelo papa Pio XI no dia 8 de dezembro. Como variação da palavra “pai”, o patrono acolhe e intercede pelo sustento dos filhos dispersos pelo mundo. Ao assumir a paternidade de Jesus, ele garantiu a sobrevivência do Deus que assumiu a carne humana. Para os católicos, ele é exemplo de obediência a Deus e de responsabilidade como chefe da família.


No Ceará, mais de 398 mil homens foram registrados com o nome de José, apontam registros do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Muitos deles em homenagem ao santo padroeiro do estado. A inspiração veio também para o nome de Maria José Lourenço, que comemora 60 anos hoje. “Minha mãe era devota e me levava para as festas, sempre falava dele”, recorda. O carinho pelo santo permaneceu na família, com a oração do tríduo em homenagem a São José antecipando a celebração por três noites. “Ele é o intercessor para quem a gente pede proteção e chuva”, conta.


POUCAS PALAVRAS E GRANDES AÇÕES


Com ações, José marca presença nos relatos bíblicos até a infância de Jesus. Avisado por um anjo em sonho, ele aceita Maria como esposa e o filho concebido pelo Espírito Santo. Foge para o Egito para evitar que o menino seja morto por ordem do rei Herodes. Quando Jesus tem 12 anos, volta com Maria ao templo de Jerusalém ao perceber que o menino havia se perdido na visita. Ao ser encontrado e questionado pela mãe, Jesus afirma que estava na casa do Pai. Um pai que não era José. E José, outra vez, silencia diante de um mistério maior.

É a última aparição de José nos evangelhos. Com um salto no tempo, os relatos retomam a vida de Jesus no início da missão pública, por volta dos 30 anos. José teria falecido em algum momento deste período não narrado. Os sinais estão no contexto histórico dos relatos posteriores e na tradição do catolicismo. Como quando Maria comparece à festa de casamento em Caná da Galileia acompanhada apenas do filho e seus discípulos. O pai adotivo também está ausente de momentos importantes, como a morte de Jesus na cruz.


Casamenteiro dos bons


As preces para encontrar um bom marido não se dirigem somente a Santo Antônio. São José, como exemplo de esposo responsável e justo, é intercessor também na causa das solteiras. “É bonito como elas rezam: que apareça o meu José”, compartilha padre Rafhael. Com a missão de cuidar da Sagrada Família, o santo figura como um modelo do homem de virtudes e de compromisso com o matrimônio. Assim, a graça pedida é de um esposo honesto, trabalhador e bondoso como José.


O RESPEITO PELO PRÓXIMO

 

Antes de casar, José descobre que a menina prometida a ele está grávida. Ele não sabia de quem seria a criança. Nem o que teria acontecido a Maria. A concepção de Jesus havia sido milagrosa, envolta em mistério ainda não comunicado a José. Sem querer difamar a noiva, ele resolveu que ia deixá-la em segredo, conforme a narração do evangelista Mateus. Se houvesse denúncia pública, Maria teria sido considerada adúltera e levada ao apedrejamento, conforme a prática judaica da época.


No lugar disso, José decidiu devolver Maria aos pais sem apresentar motivos. “Diante da dúvida, ele não julgou. E demonstrou um profundo respeito pela noiva sem querer que ela fosse prejudicada”, destaca padre Rafhael. Dos exemplos de vida de José, este episódio aponta para um temperamento de quem evita decisões precipitadas e se preocupa com o próximo. Mais uma vez, o silêncio e a meditação do santo aparecem como o melhor caminho.

 

THAíS BRITO