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Belchior e sua última volta ao Sertão

Multidão para dar adeus a Belchior na terra natal reuniu antigos conhecidos, novos fãs e também muitos curiosos que tiravam selfies ao lado do caixão

01:30 | 02/05/2017
Edna Prometheu, viúva de Belchior, ao lado do corpo velado na terra natal dele 
FOTOS TATIANA FORTES
Edna Prometheu, viúva de Belchior, ao lado do corpo velado na terra natal dele FOTOS TATIANA FORTES

 

Quando o corpo de Antonio Carlos Belchior foi retirado da viatura do Corpo de Bombeiros, a multidão aglomerada defronte ao Theatro São João, no Centro de Sobral, não sabia como reagir. Gritos, aplausos, cantoria e lágrimas deram o tom de toda a cerimônia. O cantor e compositor cearense voltou ao próprio Sertão, por algumas horas, para que os conterrâneos pudessem se despedir.

Às 7 horas, horário marcado para a chegada do cortejo, a entrada do Theatro já estava lotada. “Escuto desde criança. Com minha família, com minha irmã. E agora ensino meu filho a ouvir”, lamenta a estudante Ana Paula Rodrigues, 32.

A multidão era dividida em três grupos: moradores de Sobral como Ana Paula, que não tiveram a chance de assistir Belchior circulando na Cidade, mas que nutrem profunda admiração; pessoas que conheceram o cantor nos redutos boêmios de Sobral e guardam recordações do rapaz “simples e alegre”; e curiosos que faziam selfies com o caixão.

Até 10h50min, horário no qual o corpo deixou o Theatro em cortejo pela cidade, o entorno permanecia apinhado. Afastados da Praça São João, três grupos de “jovens senhores” destoavam da conjuntura. Jogavam cartas, parecendo alheios ao velório e à comoção sobralense. “Ele é o contrário do Renato Aragão. Belchior que é o filho da nossa terra”, opina Marcos Ribeiro, enquanto garante a vitória no baralho. “Ninguém sabe o que achar da morte, menina. Ela apenas vem”, sintetiza Júlio Bomfim, 69 anos.

Dentro do Theatro, a movimentação foi intensa durante as quatro horas de permanência do corpo em solo sobralense. O prefeito Ivo Gomes (PDT), o secretário estadual da Cultura, Fabiano Piúba, e autoridades locais compareceram. Reservados, os parentes permaneceram afastados do público. “Hoje o sobrenome Belchior tem um peso maior. Já teve uma época na qual foi comum. Eu até tentei não usar, mas a orelha, o nariz, denunciam. Não tem como fugir disso. É um orgulho”, explica Sílvia Belchior, sobrinha do artista.

Na última década, ela conta, os contatos de Belchior com a família foram mínimos. “A gente teve duas ou três ligações da esposa nos momentos festivos de aniversário da minha avó. Mas contato, mesmo, não tivemos”. Sílvia foi uma das companhias de Edna Prometheu, esposa de Belchior, durante a manhã em Sobral. Ajudou nos percursos e saiu no mesmo veículo, após o velório no Theatro ser encerrado.

Visivelmente fragilizada, Edna não deu entrevistas. Ao deixar o Theatro, puxou uma cadeira de plástico e conversou por dez minutos com músicos, fãs e amigos de Belchior. Falou sobre os discos, as músicas, as traduções, os planos, os trabalhos. Falou da vida em comum regada a leituras e paixões.

ISABEL COSTA