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Inimigos ainda desconhecidos

Setores de inteligência da segurança pública estão cruzando informações sobre a GDE, uma das facções por trás dos ataques a ônibus em Fortaleza

01:30 | 21/04/2017

Jovem da GDE, flagrada ontem em tentativa de incendiar ônibus no Mucuripe, exibia a marca da facção  na mão esquerda  FOTO VIA WHATSAPP
Jovem da GDE, flagrada ontem em tentativa de incendiar ônibus no Mucuripe, exibia a marca da facção na mão esquerda FOTO VIA WHATSAPP

A Coordenadoria de Inteligência da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (Coin) não teria em seu banco de dados um mapeamento detalhado sobre a atuação da facção criminosa Guardiões do Estado (GDE). Ao grupo está sendo atríbuída, desde a última quarta-feira, a maioria dos ataques a ônibus ocorridos em bairros de Fortaleza e em cidades da Região Metropolitana.

 

O POVO apurou que a Coin e o Serviço de Inteligência da Secretaria da Justiça (Sejus), mais o Departamento de Inteligência da Polícia Civil (DIP) e o Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas do Ministério Público do Ceará (Gaeco) irão tentar cruzar o que cada um tem de informações para saber mais sobre a facção.

Mesmo recém-surgida no mapa do crime local - teria menos de cinco anos de existência -, a GDE já se apresenta como terceira força nas unidades prisionais cearenses. Por contagens não oficiais, fontes da segurança pública estimam que o bando teria pelo menos 600 homens no contingente das cadeias locais. Ainda longe do que agrupam as duas principais: Primeiro Comando da Capital (PCC), cerca de 1.300; e Comando Vermelho (CV), perto de 1.100 presos.

Em Fortaleza, a GDE se espalha por vários bairros, mas seu domínio é considerado maior na região da Sapiranga (seria a base principal), Sabiaguaba, Lagamar, Aerolândia, Serviluz, Vicente Pinzón, Castelo Encantado, Edson Queiroz, Mucuripe e, no lado oposto da cidade, também com base na Vila Velha e Parque Leblon, bairro de Caucaia. Praia do Futuro, Caça e Pesca seriam áreas recém-conquistadas na guerra com outras facções.

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No convívio dentro e fora das penitenciárias, a GDE é aliada do PCC, enquanto o CV faz parcerias do crime com a Família do Norte. A FDN é outra das facções existentes no Ceará, aqui não tão poderosa como é no Rio Grande do Norte. Os alinhamentos facilitam o caminho de drogas e armas entre elas.

Há tréguas eventuais, mas a guerra nunca cessa. Ontem pela manhã, inclusive, um dos principais gerentes da facção FDN no Amazonas, Vainer de Matos Magalhães, o “Pepê”, de 34 anos, foi assassinado em Fortaleza. Ele dirigia uma picape Hilux pela avenida Santos Dumont, no bairro Papicu, quando foi morto a tiros. Era considerado poderoso na hierarquia de sua facção. A Polícia Civil atribui a morte a membros do PCC.

GDE = 745

Como marca, a GDE adota o algarismo “745”. Os números são a posição das letras no alfabeto: G=7, D=4, E=5. O PCC, por exemplo, adota o numeral 1533. Com o 745, muito comum em pichações de muros e fachadas, a GDE se autopromove entre os criminosos e demarca suas zonas de atuação.

A GDE estaria recrutando mais gente que as outras facções porque não cobra a mensalidade do crime. Como fazem PCC e CV. Não obrigatoriamente, mas para impor respeito no seu espaço, um membro da GDE gosta de exibir o “745” em alguma tatuagem pelo corpo.

Ontem, num flagrante feito à tarde no Mucuripe, três jovens se preparavam para incendiar um ônibus próximo da avenida Abolição. Eram duas moças e um rapaz. Uma delas tinha o número 745 tatuado na mão esquerda. O grupo estava com cinco litros de gasolina num galão. Por sorte, o veículo não foi atingido e não entrou na contagem de ocorrências desses dias de terror em Fortaleza.

Falta diagnóstico nos bairros na Capital e RMF

A falta de um mapeamento sistematizado da área de influência das facções em Fortaleza e na Região Metropolitana é apontada como erro estratégico para a formulação de ações policiais permanentes e para intervenções sociais duradouras nos bairros. A crítica vem das universidades e de integrantes dos serviços de informação da estrutura da segurança pública do Estado.

 

Numa divisão por bairros em Fortaleza, os Guardiões do Estado (GDE) dominariam territórios da periferia. Pelo menos 11 bairros na Capital e dois em Caucaia (veja matéria ao lado). A informação é de policiais que estão no dia a dia das ruas.

 

O Comando Vermelho controlaria a Rosalina, Riacho Doce, Serrinha, Mondubim, Barroso, Babilônia, Bela Vista, Gueto, Pirambu e Padre Andrade..

 

O Primeiro Comando da Capital (PCC) teria “soldados” na Favela da Mana, Maraponga, uma parte da Serrinha, Barracal do Itapery, Dias Macêdo e Bom Sucesso.

os presídios da Região Metropolitana (RMF) servem de “quartel general” de onde também partem ordens para os “negócios do crime”, ligados, principalmente, ao tráfico de drogas/armas, assaltos a banco e acertos de conta.

 

As unidades prisionais seriam dominadas por pelo menos seis facções. PCC, CV, GDE, Família do Norte (FDN), Amigos dos Amigos (ADA) e Equipe Mentes Criminosas (EMC).

 

Nenhuma delegacia ou unidade militar emite relatórios frequentes (mensais) para os serviços de informação ou área de dados sobre movimentos das facções nos bairros. Nem com o surgimento da “pacificação” dos grupos criminosos . Notadamente anunciada a partir do ano passado.

 

Em setembro de 2016, um relatório Gaeco/MPCE apontou que o PCC, CV e GDE comandaram as rebeliões de maio no sistema penitenciário do Ceará.O levante terminou com 14 mortes de detentos.

CLÁUDIO RIBEIRO | DEMITRI TÚLIO