PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Meu povo, melhore!

17:00 | 08/07/2017

 

Por Rossman Cavalcante

 

Apesar de sempre me incomodar, tento não permitir que as informações distorcidas relacionadas ao exercício físico afetem meu humor, mas devo confessar que está cada vez mais difícil... Falsas promessas, programas de treinamento milagrosos e profissionais com currículo duvidoso sempre existiram, mas parece que de uns tempos para cá eles “deram cria”. Analisando com mais calma, concluo que não e penso que a principal mudança se refere à visibilidade que os novos “gurus” do exercício físico adquiriram com as redes sociais e a facilidade com que se divulgam lives, vídeos, ebooks (em alguns casos, nada mais do que uma sequência trôpega de slides mal elaborados) e depoimentos hiperbólicos exaltando feitos impressionantes até para os marqueteiros mais entusiasmados.

Não vejo nenhum problema divulgar, em todos os tipos de mídia, incluindo as sociais, produtos e serviços relacionados à prática de exercícios físicos (eu mesmo faço isso), desde que princípios básicos de respeito ao consumidor sejam considerados. Chega a dar vergonha alheia o que assistimos e ouvimos hoje em dia; uma legião de “autoridades” em fitness que à custa de mais clientes, mais likes ou novas inscrições nos canais próprios, abrem mão deliberadamente das evidências científicas, da ética profissional e até do bom senso.

- “Pois é, com apenas 15 minutos por dia, com as aulas do curso ________ , a pessoa pode trabalhar o corpo todo e dependendo do tipo de exercício perder toda a gordura que perderia em um ano em apenas dois meses”.

- “Com apenas 4 minutos, você terá os benefícios de aumentar a sua capacidade aeróbia, capacidade anaeróbia, perder mais peso do que num tradicional treino aeróbico de 60 minutos, conseguindo atingir resultados de até 200 por cento de queima de gordura”.

 

- “Basta apenas 1 minuto e 40 segundos para chapar a barriga”.

Nada do que está escrito acima é inventado, são trechos extraídos de publicações na internet ou do discurso de coachs do YouTube que encontrei em pouco mais de 5 minutos de pesquisa no Google.

Mais preocupante ainda é que alguns desses profissionais, para dar uma aura de cientificidade, até citam algumas pesquisas que supostamente fundamentam suas propostas mirabolantes, mas basta uma consulta rápida nas referências citadas para perceber que se trata de mais uma tentativa de disfarçar com tecnicismo a fragilidade dos seus argumentos. Nesse contexto vale tudo: manipulação de dados, uso de pesquisas com péssima qualidade metodológica, falácias lógicas, analogias fáceis de entender e que não têm nenhuma relação com o assunto em pauta, citações fora do contexto, enfim, qualquer coisa que possa trazer um mínimo de credibilidade para sua ideia. Quanta desonestidade intelectual...

 

Você deve estar pensando: “Eu não caio nessa. Consigo facilmente saber quando a propaganda é enganosa”. Meu caro leitor, não é tão simples assim, excetuando aqueles que são realmente caricaturais e que pecam pelo exagero, os “falsos profetas” da saúde e do bem-estar são inteligentes, bem relacionados, articulados e agradabilíssimos. Tanto, que é muito provável que alguns deles estejam presentes na sua biblioteca pessoal ou salvos na lista de favoritos do seu navegador na Web.

Antes de sair consumindo qualquer informação relacionada ao exercício físico, gostaria de propor algumas perguntas que, se respondidas, poderiam evitar problemas e garantir boas decisões:

1. As fontes da informação têm credibilidade?

2. Há conflito de interesses envolvidos?

3. Quem gerou a informação tem habilitação acadêmica, técnica, prática e legal para isso?

4. As ideias apresentadas encontram suporte nas evidências científicas e na vivência prática de outras pessoas?

Não deixa de ser um filtro para bloquear fontes não confiáveis, interesses escusos, pessoas não qualificadas e “achismo” barato. Pouco antes de escrever este último parágrafo, fui alertado pelo celular que havia chegado mais uma mensagem em um dos grupos de Whatsapp, bastou ler o título da mensagem para ficar desanimado: ”A fruta que cura 12 tipos de câncer e é 10 mil vezes mais eficaz que a quimioterapia”. Meu Deus, me dê paciência, por favor.