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Confissão tardia

17:00 | 22/04/2017

Um ano depois do golpe promovido pela aliança entre o capital financeiro (interessado na mudança do modelo sociodesenvolvimentista e nacional) e segmentos políticos golpistas, interessados em barrar a Operação Lava Jato para se livrarem da cadeia, o País assiste à confissão pública do principal beneficiário da armação: Michel Temer. Ele confirmou o que já se sabia: o impeachment foi pura obra de vingança do ex-presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, irritado com o fracasso da chantagem sobre Dilma para que ela obtivesse do PT os três votos necessários para livrá-lo da condenação no Conselho de Ética. A entrevista de Temer foi dada ao SBT, no último dia 15, e pode ser vista no endereço: http://bit.do/dnV4a. Ou seja: toda aquela conversa fiada de “pedaladas fiscais” foi um engodo para justificar o assalto ao poder, de forma fraudulenta (ver no endereço http://bit.do/dnZVE). A defesa de Dilma já entrou com recurso no STF para anular o impeachment farsesco. O senso de justiça exige não só que o impeachment seja desfeito, mas, os autores da fraude processados.

TRAMA As principais forças interessadas na derrubada do governo brasileiro - Departamento de Estado americano; capital financeiro e rentistas brasileiros - agiam há muito tempo. Os EUA, movidos por razões geopolíticas, estavam interessados em fragilizar o Brics (do qual fazem parte Brasil, Rússia, China, Índia e África do Sul) para isolar a Rússia. Ora, desestabilizar o Brasil - aliado russo nesse projeto - era essencial. O País, por seu grande potencial econômico e sua política externa independente (desenvolvida por Lula e fortalecida pelo pré-sal) contrariava os americanos, em termos de mercado e de protagonismo diplomático (remember acordo atômico com a Turquia). Sobretudo, na América Latina, África e países árabes (indústria de armas). Urgia aos americanos, também, desbancar os governos progressistas (e insubmissos) do continente. CUCARACHAS Nessa brecha entrou o capital financeiro, articulado mundialmente, para impor o modelo neoliberal, favorecer o rentismo e a especulação, em detrimento da produção. Sempre em aliança com segmentos rentistas brasileiros, que nunca se interessaram por um projeto de nação para o Brasil. Querem apenas ganhar dinheiro: essa questão de “pátria”, “nação” é considerada por eles “atraso”. Pouco se lixam para isso. Os grandes financistas nativos sempre foram contra a Petrobras, a formação de empresas estratégicas nacionais e o fortalecimento do mercado interno – elementos essenciais para garantir a soberania nacional e espaço próprio no cenário internacional. Querem um País “cucaracha”, como o desenhado pelas elites do México (não por seu bravo povo). Isto é: submisso a Washington. 

NÃO DO PAPA O golpe está tão desmoralizado que o papa Francisco recusou o convite de Michel Temer para vir ao Brasil celebrar os 300 anos da descoberta da imagem de Aparecida, Padroeira do Brasil. Quem conhece o papa sabe que ele jamais perderia essa oportunidade de falar para a América Latina. Claro, alegou agenda cheia. Mas, em carta a Temer deu seu recado: “... não posso deixar de pensar em tantas pessoas, sobretudo nos mais pobres, que muitas vezes se veem completamente abandonados e costumam ser aqueles que pagam o preço mais amargo e dilacerante de algumas soluções fáceis e superficiais para crises que vão muito além da esfera meramente financeira” – referência inequívoca às “reformas” propostas por Temer. Para os que apostaram no golpe, em nome dos “mercados”, citou sua exortação apostólica A Alegria do Evangelho, na qual está dito que não se deve “confiar nas forças cegas e na mão invisível do mercado”. CORTINA DE FUMAÇA O problema fundamental do Brasil não é a corrupção, mas, sim, o sistema econômico e social voltado para beneficiar a minoria privilegiada e os interesses antinacionais. A corrupção pode ser combatida pelos instrumentos de que dispõe o Estado. É possível debelá-la, mas, é ilusão imaginar que se possa erradicá-la totalmente. A corrupção está presente em qualquer tipo de sociedade. O capitalismo não sobrevive sem ela. A democracia é o instrumento mais plausível para controlar a corrupção: quanto mais o poder estiver descentralizado e controlado diretamente pelo povo, menor é o espaço para a corrupção. Por isso, os donatários do Brasil têm pavor à democracia direta ou participativa. O discurso anticorrupção sempre foi usado como cortina de fumaça para esconder o verdadeiro assalto contra os interesses do povo e da Nação: corte nos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários e entrega do patrimônio nacional ao capital financeiro. É o que está acontecendo no Brasil depois do golpe, acompanhado da investida do sistema contra as forças populares e suas lideranças (tanto mais irracional quanto mais cresce o nome de Lula nas pesquisas de opinião). A última, do Vox Populi/CUT, aponta que se as eleições fossem hoje Lula ganharia no 1º turno. Isso enlouquece as forças golpistas.

VALDEMAR MENEZES