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VERSÃO IMPRESSA

Romance em língua do Brasil

01:30 | 11/07/2017

A leitura do romance O Coronel e o Lobisomem leva-nos a vários caminhos de compreensão desse primoroso texto de José Cândido de Carvalho. Começando pelos parentescos, o autor faz parte do grupo de romancistas brasileiros atuante na década de 1960 que usufruíram, com gosto, da herança literária e estética resumida em uma sentença determinante: todas as liberdades estariam concedidas.

Foi entre 1960 e 1970 que nasceram, por exemplo, A morte e a morte de Quincas Berro D’água (1961), O compadre de Ogum (1964), Dona Flor e seus dois maridos (1966), de Jorge Amado; A paixão segundo G.H. (1964), de Clarice Lispector; A estranha máquina extraviada (1967), de José J. Veiga; A Crônica da Casa Assassinada (1969), de Lúcio Cardoso. Fora do cânone, mas não menos experimentais, estão Deus da chuva e da morte (1964), de Jorge Mautner; O criador de demônios (1964), de José Alcides Pinto; e, um pouco antes, Doramundo (1957), de Geraldo Ferraz. Incidente em Antares, de Érico Veríssimo, um pouco depois, em 1971.

Os vizinhos da América hispânica também viviam um momento marcante em sua literatura nesse mesmo intervalo dos anos 60 e 70. Gabriel García Márquez publicou Cem anos de solidão (1967); Julio Cortázar lançou Carta a uma senhorita em Paris e Jogo da Amarelinha, ambos em 1962; Carlos Fuentes, também em 1962, publicou Aura, apenas para citar exemplos da Colômbia, Argentina e México de uma nova literatura que surgia e ecoava no Brasil.

O protagonista de O Coronel e o Lobisomem, Ponciano de Azeredo Furtado, é coronel por valentia, herdeiro das terras de muitas medidas de seu avô Simeão. É esse narrador personagem que nos conta a história de sua vida, alternando entre primeira e terceira pessoa, falando de si como se fosse um outro, de vez em quando. Ele avisa, desde a primeira página, que gosta de falar alto sem freio nos dentes.

Seguimos com ele do começo ao fim de suas aventuras, desde a infância no Sobradinho, casa de seu avô, até suas lutas contra onça, lobisomem, soldados do exército e outras mil situações nas quais se metia e sempre saía vitorioso. Sendo conduzidos pelo coronel e somente por ele no curso dos fatos, até que ponto podemos confiar e acreditar em Ponciano?

A tônica, dessas narrativas costuradas em uma auto-biografia, portanto, é o humor que José Cândido de Carvalho explora usando os recursos da metáfora ( Dona Isabel Pimenta, ardida de sentimento por mim), da metonímia (um sujeito do meu feitio não era mesmo para amarrar suas liberdades em rabos-de-saia) e abusando da crendice popular nos casos da sereia, do lobisomem e do ururau, na voz da gente simples que lida com ele e com sua suposta valentia. O leitor é cativado por essa ironia, mas também pela cumplicidade com o Coronel, sempre correndo o risco de ser enganado por outros personagens do livro.

A oralidade e o humor que temperam esse relato biográfico e ficcional marcam o Sobradinho como um lugar literário que constaria, com mérito, em um possível Dicionário de Lugares Imaginários Brasileiros. O Coronel e o Lobisomem é, acima de tudo, um romance narrado em língua do Brasil.