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Microchacinas cotidianas

01:30 | 29/05/2017
Toda vida humana é um bem de valor inestimável. Não há vidas que importam mais ou menos que outras. No entanto, o nosso grau de sensibilidade social a essa perda é variável. Mortes de pessoas próximas nos afetam mais que a de pessoas com as quais temos pouca ligação. Massacres que envolvam uma grande quantidade de vítimas possuem mais impacto que ocorrências individuais. Vivemos em meio a uma cultura tão violenta que um fim de semana com mais de 40 mortos não rende mais manchete.

 

Por causa disso, duplos e triplos homicídios são cometidos quase que semanalmente sem que seja dada a devida atenção tanto pela sociedade quanto pelos meios de comunicação. O mais grave é que tais casos estão acontecendo de forma epidêmica por quase toda Fortaleza e até no Interior. Uma rápida pesquisa nos mecanismos de busca na internet revela a existência de mais de 30 episódios de homicídios múltiplos no Ceará nos cinco primeiros meses deste ano. Embora tragam diversas consequências negativas para as famílias das vítimas e para as comunidades em que ocorrem, tais crimes não conseguem gerar uma repercussão de maior alcance, que possa ir além do território em que o fato ocorreu.

A fim de tentar compreender esse fenômeno proponho o conceito de “microchacina” para tipificar uma ocorrência criminal em que pelo menos duas pessoas tenham sido vítimas de homicídio sem que isso tenha resultado em ampla mobilização social ou midiática. Vale ressaltar que há casos em que duplos homicídios também podem ser considerados como chacina, desde que haja também vítimas feridas. O que pretendo evidenciar com esse termo é a intencionalidade da ação e o modo como reagimos aos assassinatos múltiplos e não meramente a quantidade.

Um dos casos mais recentes de microchacina em Fortaleza ocorreu no bairro Dias Macedo. Três pessoas foram assassinadas e outras três feridas na noite do último dia 25. Conforme o relato de testemunhas, os assassinos chegaram em um veículo preto, já desceram do veículo de armas em punho e começaram a efetuar disparos contra um grupo de jovens que estava na rua Amsterdã. Há uma linha de investigação da Polícia Civil que aponta para a possibilidade de que o crime tenha sido motivado por disputas entre facções criminosas.

Um triplo homicídio também foi registrado no bairro Padre Andrade, em março. O crime ocorreu no fim da tarde quando oito homens em motocicletas se dirigiram à praça atirando contra jovens reunidos naquele local. Três pessoas também ficaram feridas. A polícia prendeu quatro acusados, dois adultos e dois adolescentes. O ataque também é atribuído a um conflito entre grupos rivais, desta vez às gangues do Padre Andrade e do Álvaro Weyne. Conforme reportagem do O POVO publicada em abril, a primeira chacina teria ocorrido em um território sob o domínio do Primeiro Comando da Capital (PCC), enquanto a segunda teria como pano de fundo o poder paralelo do Comando Vermelho.

Triplos homicídios também foram cometidos nos municípios de Coreaú (Norte do Estado) e de Quixeré (Sertão Central). Se as microchacinas que acontecem em Fortaleza despertam pouca atenção, os assassinatos múltiplos no Interior são quase sempre ignorados pelos meios de comunicação, dificultando o surgimento de uma pressão popular para que os casos possam ser solucionados. É preciso, no entanto, que episódios como esses não caiam no esquecimento e sejam objetos de investigação por parte da Polícia Civil. Embora haja poucas informações sobre as motivações da chacina de Coreaú, há indícios de que a morte dos três membros de uma mesma família na periferia de Quixeré esteja relacionada ao tráfico.

Desvelar as tramas criminosas que resultam em duplos e triplos homicídios é uma forma de prevenir futuras ocorrências e de rastrear a atuação de grupos criminosos no Estado, haja vista ser necessário um mínimo de organização e poderio de fogo para que uma microchacina aconteça. Com isso, não só a polícia, mas a própria sociedade passa a deter um maior conhecimento sobre a dinâmica dos assassinatos relacionados a acertos de conta e conflitos entre gangues rivais.

O prefixo “micro” empregado para descrever esse tipo de ocorrência tem o objetivo justamente de jogar luz sobre casos que merecem maior atenção das autoridades e que não deveriam ficar ocultos sob os grandes números da violência no Ceará. Um levantamento sistemático sobre as microchacinas registradas a cada ano seria capaz de fornecer um perfil bem mais detalhado da nossa violência cotidiana. Identificar de maneira plena nossos males é o primeiro passo para que possamos chegar a uma solução.

RICARDO MOURA