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VERSÃO IMPRESSA

Os mortos-vivos e os mortos de vivos

01:30 | 03/07/2017

A Sérgio Verçosa

Homens e mulheres miseráveis, com roupas gastas e imundas. Perambulam a esmo, aqui e ali entrando em becos escuros e fétidos. Barracas de camping armadas, mochilas com bens pessoais, carrinhos de supermercado atulhados com tralhas. Restos de comida jogados no chão, quentinhas amassadas, o cheiro de azedo no mundo. Cães, fiéis parceiros, amarrados nas árvores da praça. Latas de refrigerante e cerveja que logo mais serão transformadas em cachimbos. Muitos, muitos isqueiros. Gente acocorada, gente encostada na parede, gente em pé, gente deitada ao sol de inverno curtindo a lombra, gente em overdose, gente com síndrome de abstinência. Gente cuja vida passou a ser vivida em função da pedra de cada dia. E há gente, feito o prefeito daquela metrópole do sudeste, que vê em cada um desses aí apenas um bandido.

O quadro não é diferente nesta Loura Crackeada do Sol. Temos também a nossa cota de zumbis, ou, como diz a academia, de invisíveis. Se tiver coragem, caro(a) leitor(a), dê uma rolê na Praça do Ferreira aos domingos de manhã, na Beira-Mar à noite, na Praça José de Alencar a qualquer hora. O idioma inglês a serviço do vício: drug delivery, crazy, stoned, walking dead. Uma questão de saúde pública tratada como caso de polícia. Claro, quem não sabe que o narcotráfico está por trás disso tudo? Falo das pontas do sistema, dos que fazem o possível e o impossível para garantir a prise diária, dos que sustentam, com a sua própria tragédia, a gargalhada de muitos. ”Ei, cara, me dá um real aí, vá lá, é para eu comer, juro”, diz o sujeito desdentado e sujo na porta do bar. Vai, Baudelaire, vai gozar do teu mortífero paraíso artificial...

Contudo, a zumbilândia não é feita só de mortos-vivos. Há uma outra tribo, igualmente noiada, que vive batendo perna por aí atrás da real thing. Refiro-me a boa parte dos políticos brasileiros, os mortos de vivos. De nada adianta haver investigação policial, processo no stf (depois daquelas do aécio e do loures, revisor, usemos as minúsculas de novo), denúncia na pgr (aproveita o embalo, revisor!), delações premiadas colhidas pelo moro (queima, revisor!), prisões, o escambau: os caras estão sempre em busca de propina, gingando no cabaré (grato, Assis Valente) da corrupção. De dentro da cadeia, com tornozeleiras eletrônicas no recesso do lar, nos palácios, nas casas do povo, nos jatinhos, os safados, sem qualquer cerimônia, operam esquemas bilionários. Um caso típico de falta de saúde moral. Ah, se não fôssemos assim tão apáticos...

Neste triste momento de Pindorama, em que não se vislumbra qualquer salvação, há pessoas que, decepcionadas, cansadas e sem rumo, se entregam aos desígnios da perigosa e falsa felicidade química comprada nas farmácias. E como há drugstores em Fortaleza... Misturar a depressão quanto à política nacional com o desejo de ser feliz a qualquer custo é o mesmo que juntar a fome com a vontade de comer. Parafraseando o Stanislaw Ponte Preta, o Brasil, hoje, à mercê dessa novela hedionda e interminável, cujos capítulos são dignos do mais esverdeado vômito, é uma verdadeira máquina de fazer doido. O que vejo de gente falando só, na rua, no ônibus, no carro é de dar medo. “Ah, só faltava essa, o cara virou um Simão Bacamarte”, dirão alguns. Não, não me tornei um alienista. Sou apenas alguém que tem olhos e espia a vida.