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Arquitetura e sociedade

01:30 | 12/06/2017

Passeando dia desses pela cidade, dando um rolê no Centro e em alguns bairros periféricos desta Loura Ressaqueada do Sol, surpreendemo-nos com algumas transformações que nos fazem refletir. Aliás, toda e qualquer cidade é um livro, não escrito com palavras, mas, sim, com a matéria da sua construção física e social. Há, portanto, que lê-las, compreendê-las e interpretá-las. Das muitas surpresas e novidades registradas nesses despretensiosos bordejos, talvez a mais interessante de todas foi a constatação da popularização de algumas profissões, antes com seus préstimos postos somente à disposição de quem podia (muito) pagar. Clínicas médicas na Rua João Moreira, ao lado da Santa Casa de Misericórdia, dentistas no Joaquim Távora e no Montese, psicólogos na Parangaba e na Vila Pery, tudo com cara de sucesso.

Ao deparar com esse instigante quadro, pensei com meus carcomidos botões de madrepérola mentais: “e nós, arquitetos e urbanistas, quando seremos tão necessários assim?”. Formados em escolas voltadas a uma educação elitista, comprometidas com a projetação de monumentos e obras raras, não fomos ensinados a ver as múltiplas oportunidades que se insinuam ante nossos olhos. No caso local, uma vez graduados, ansiamos por chances profissionais no Quadrado de Ouro (Oceano Atlântico ao norte, Av. Virgílio Távora a leste, Av. Antônio Sales ao sul e Av. Barão de Studart a oeste). Quantos de nós atuam no interior? Quantos de nós constroem? Quantos de nós se interessam em tocar um pequeno escritório na periferia? Os dados da recente pesquisa do CAU são certeiros: apenas 7% dos que vão construir nos procuram...

 

Nosso segmento hoje se caracteriza por pouquíssimos escritórios grandes às voltas com trabalhos idem, uma miríade de pequenas empresas se virando como podem, no mais das vezes com arquitetura de interiores (o que raramente é ensinado na academia, que, por sinal, detesta tal matéria), o bravo setor barnabé (este cada vez menor) e a docência pública e privada, a primeira envolvida num pesquisismo articulista sem inserção social e a segunda com uma multidão de alunos e baixos salários. Na mídia, continuamos sendo tratados como os profissionais que podem oferecer ao di público o refinado, o inusitado e o exótico, a torre mais alta, o loft luxuoso, a beach house paradisíaca. Lembro-me de Roberto Segre e da sua visão do arquiteto como um dentista de bairro. Quantos terão a coragem de proceder assim?

No meu campo, o que atualmente me diz respeito e impulsiona é tornar popular o nosso ofício (não, leitor(a), isso não significa vender projeto a R$ 1,99), é ter acesso ao trabalho de forma indistinta, é fazer da arquitetura um mister do cotidiano plenamente acessível a todas as classes sociais. Isso pressupõe uma revolução de métodos no ensino e no batente diário. Do contrário, seguiremos lotando os bares com as nossas reclamações e angústias, além dos pedidos de pendura de contas. Em tom de desabafo, peço desculpas aos que me frequentam neste hebdomadário espaço, pois talvez não seja esse um assunto do interesse geral, tal como me aconselhou um colega: “escreva sobre a votação do TSE, sobre o gilmar mendes” (tem tipo menor, revisor?). Respondi-lhe: “não, grato, meu caro, quanto a estes temas só o nosso escárnio”.