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A volta do poeta (à memória de Belchior)

01:30 | 08/05/2017

De repente, como uma sombra monstruosa e aterradora, a notícia desabou sobre o bar cheio de gente feliz. O domingo acabou ali mesmo, naquele momento. Até o sanfoneiro privado da visão, que havia feito todo mundo gargalhar com a sua cantiga de que todo cego é corno e todo corno é cego, sentiu o baque e emudeceu. Os garçons, feito baratas tontas, os panos de limpar as mesas sobre os ombros, o olhar absorto e triste. Os clientes assíduos das domingueiras, antes ocupados com os assuntos amenos de sempre, engoliram em seco, os drinques suspensos no ar. Nem a verve do vendedor de camarão foi suficiente para retirá-los do abatimento. Em vez das chacotas, piadas e chistes, só se ouvia “arre égua”, “porra, essa não”, “não posso acreditar” e outras expressões nas quais a incredulidade se misturava à profunda melancolia. Travessa Crato, Centro de Fortaleza, 10 horas da manhã do dia 30 de abril de 2017. Sol a pino, mas negra noite escura.

 

Ainda em transe, liguei do bar para o meu irmão, no dia do seu aniversário, para lhe dar os parabéns e, de presente, infelizmente, a infausta novidade. Nosso poeta sumido falecera numa cidade situada no centro do Rio Grande do Sul, de causa ainda desconhecida. Na outra ponta da linha, ele me disse que já sabia: “É um tsunami de desalento que toma conta da cidade, nunca vi isso antes”. Ele desligou, certamente consternado, antes de eu lhe desejar saúde, paz e felicidades. Não o censurei por isso. “Ser alegre ou estar de bem consigo hoje é algo como uma descortesia, coisa de alguém mal educado”, pensei. Súbito, comecei a receber ligações de várias pessoas. Todas lamentando o ocorrido, algumas chorando, muitos nós nas gargantas. “Será que os imbecis que diziam que o seu desaparecimento era um golpe publicitário, vão dizer agora que sua morte é outro também?”, falou-me um amigo, o amargo do ódio na boca.

E uma semana tristonha passou-se lentamente, dura tortura chinesa. O corpo do artista levado a Sobral, sua terra natal, para ser velado no palco do Teatro São João, o seu derradeiro show. De lá, para o Dragão do Mar da Loura, onde recebeu o abraço póstumo de uma procissão de fãs. O enterro no Parque da Paz, onde seus parentes compartilharam o último adeus com uma multidão doída que sabia suas canções de cor. Desenhos, pinturas, fotografias, lembranças, citações de seus versos, rodas de violão, músicos em emocionado mutirão numa lacrimosa maloca, bigodes postiços, imitações da famosa voz anasalada, de um tudo se fez para homenagear o ídolo e a sua obra. “Ah, como tem gente que gostaria de ser querida assim...”, disse a mulher no ônibus, a lágrima rolando na face, motorista e trocador postos em silêncio. “Eu queria que ele voltasse, mas não daquele jeito, em cima do carro do Corpo de Bombeiros”, resumiu, desolada.

 

Perdemos, mais que um cantor e compositor, um norte, apesar de mutante e imprevisível e, talvez, por isso mesmo. O menino que dizia repentes na feira. O jovem tomado por uma avassaladora fé católica. O noviço franciscano rebelde que largou o hábito pela Medicina. O rapaz que descobriu a noite, a poesia, o vinho e o corpo da mulher amada nas infinitas madrugadas do Anísio e do Estoril. A nova sensação da MPB que ganhou festivais e estourou na voz de Elis. O cara que, como disse Caetano, nos anos 70, voltou aos 50 para negar os 60 e inventar os 80. Um sujeito que amava Drummond, Bandeira e Luiz Gonzaga, assim como Dylan, Lennon e os beats. Um outsider sempre às voltas com a vontade de dar o fora. Um herói que teve a coragem de dar uma guinada na existência, já que ela era sua e de mais ninguém. O desaparecido que nos fez ansiar pelo seu retorno, mesmo defendendo seu direito de desaparecer: “Vida, vento, vela, leva-me daqui...”.

 

Por Romeu Duarte