PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

A lista e o porvir

01:30 | 17/04/2017
À memória de Tomé de Sousa

 

Veio finalmente a lume a lista de Fachin. Ou de Janot, como querem alguns. O certo é que a palavra “faxina”, doravante, será escrita com “ch”, assim como em “chega!” e “chibata”. Os números falam por si: 116 procuradores ouviram 950 depoimentos de 78 executivos e ex-executivos da Odebrecht, operação esta que redundou na abertura de 108 inquéritos contra praticamente todos os figurões da República que detêm foro privilegiado. A mania brasileira de ser maior em tudo está lá em cima: foi a mais avassaladora delação premiada do mundo. Tem bicho de unha para todos os gostos. O interino, apesar de multicitado, não pegou nada (ainda). Entreouvido na parada de ônibus: “Todo mundo lascado de chikungunya e tu aí rindo, né?”: “Tô igual ao temer (assim mesmo, revisor, em minúsculas), tenho imunidade temporária...”.

A mim, entretanto, isso não admira, apenas me enoja e entristece. É preciso ser muito alienado, conhecer muito pouco as coisas deste Brasil, para quedar-se estupefato, atônito, com tais notícias. A mal-cheirosa sopa de letrinhas partidárias servida pelo ministro apenas evidenciou o que o mais besta dos bestas sabe: que, sob a égide da “governabilidade” e do “governo de coalizão”, só há um jeito de se fazer política neste País. E isso não é de agora, nem de 30, 40, 50 anos atrás. É só recordar como partiram Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek. É algo entranhado não só na cultura política, mas na alma mesma de Pindorama. O processo em curso, aliás, apenas se inicia: as denúncias terão agora que ser investigadas com a coleta de provas. Tudo indica que o Bananão vai estagnar. Com essa imagem, quem irá investir aqui?

 

O mais absurdo e ridículo é o governo golpista, com nove ministros pegos com as mãos sujas, se achar com o direito de realizar as reformas que pretende efetuar. As mudanças que intenta promover nas relações trabalhistas, na política e na Previdência são espúrias e representam um tremendo retrocesso nas conquistas sociais tão duramente obtidas. Impressiona-me, isso sim, um bando de sujeitos envolvidos com o que há de mais retrógrado no âmbito político, e por isso amplamente rejeitado, querer, cinicamente, empurrar esse veneno goela abaixo do povo. Cadê moral, respeito para isso? Ah, como os coxinhas me divertem: antes, era “Fora Lula e leve o PT junto!”; agora é “Fora com todos!”. Como seu líder antagonista, diogo mainardi (minúsculas de novo, revisor), querem apenas o fim da política e a volta da ditadura. Só.

Como dizia Nelson Rodrigues, a situação é de fazer a gente sentar na sarjeta e chorar lágrimas de esguicho

 

Sendo assim, tendo 2018 no horizonte, o que temos no cardápio? Nosso ex-governador falastrão? A omissa Rainha do Papo Furado? O riquinho dublê de prefeito e gari? O deputado carioca misógino e homofóbico? Como dizia Nelson Rodrigues, a situação é de fazer a gente sentar na sarjeta e chorar lágrimas de esguicho. Interessante ninguém do Judiciário e da grande imprensa ter sido alcançado pelo longo braço da sanha persecutória da Lava-Jato. Com a divulgação do rol da bandidagem, são as farmácias que estão lucrando: o kit Imosec/Valium/Isordil tem saído às pampas. Em seu túmulo, em Castanheira do Ribatejo, o personagem homenageado por esta crônica, nosso primeiro Governador-Geral e quem deve ter dado a largada nesse tipo de prática, dá sonoras gargalhadas da nossa perplexidade. Ah, Brasil...