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Passado, presente e futuro de uma praia

01:30 | 20/03/2017

Quando menino, a Praia do Futuro, para mim, era um grande estirão de areia branca, desabitado, pontuado aqui e ali por piscininhas boas para o banho de mar infantil. Visitá-la aos domingos era uma viagem arriscada, pois o acesso não era fácil. Lembro-me de uma solitária casa de madeira, pintada de vermelho, azul e branco, mais parecendo um barco abandonado, que me remetia à morada dos Peggotty, amigos e protetores do David Copperfield de Charles Dickens. Já havia ruínas lá àquela altura, residências, armazéns e bares, tudo calcinado pela forte abrasão marinha. Recordo-me de que, quando voltávamos, a pele e os cabelos tinham que ser bem esfregados para que o sal grosso fosse retirado. Ainda guardo nas narinas a salsugem daqueles dias. Nada como o aroma para puxar a memória, não é, Monsieur Proust?

Com a metropolização e a consequente expansão da Loura nos anos de 1970, a vocação turística insinuou-se como o nicho possível para sua inserção no mercado mundial de oportunidades de desenvolvimento. Estendeu-se a Santos Dumont até o seu encontro com a Dioguinho, criando-se a Praça 31 de Março (hoje melhor denominada de Praça da Paz D. Helder Câmara). Surgiram botequins e boates praianos famosos como o Carnaubinha, o Kabuletê, o Playboy e a Tatarana. Clubes de segmentos profissionais também, como o do Médico. As barracas pioneiras, frágeis e de singelo desenho, começaram a dar o ar da graça na parte velha do bairro. O ir e vir de norte a sul ainda era complicado, pois não havia urbanização. As praias do Meireles passaram a ser trocadas paulatinamente pela PF, como passou a ser chamada.

A turistificação galopante, implementada na Cidade nas décadas de 1980 e 1990, transformou a Praia do Futuro em um dos grandes cartões postais turísticos de Fortaleza e do Ceará. Fracassado o plano de ocupá-la com a verticalização residencial, em razão dos rigores climáticos, era agora pensá-la como produto a ser vendido nas gôndolas do turismo nacional e internacional. Iniciando-se tímidas e com poucos serviços, as barracas agigantaram-se, tomando de conta as áreas de uso comum do povo, várias delas transmutando-se em verdadeiros clubes à beira-mar, tendo o Beach Park como modelo arquitetônico e programático. As caranguejadas noturnas das quintas viraram moda enquanto eram enxotados os vendedores de piaba frita. O espaço público foi privatizado, gerando-se o preocupante quadro atual.

O certo é que se construiu uma cultura de lazer e turismo que caracteriza a Cidade. Não sabemos viver, tampouco os turistas, sem as barracas da PF. Não somos cariocas para alugar cadeirinha e aguardar o garoto do mate e do biscoito Globo ou recifenses para ficar tomando água de coco sob os coqueiros e as sombrinhas. Entretanto, como se pretendeu para a Beira-Mar, faz-se necessário urbanizar a PF, disciplinando-se a localização, o tamanho e o funcionamento dos seus equipamentos. Falo de design urbano, paisagismo e arquitetura de qualidade para combater a perigosa desurbanização lá reinante, algo que poderia ser perfeitamente viabilizado mediante a realização de um concurso público de projetos. Se procurada, minha categoria profissional em muito poderá ajudar. Com a palavra, o prefeito Roberto Cláudio.