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Corrupção é detalhe

01:30 | 15/07/2017

Na cada vez mais inflamável atmosfera política brasileira, a corrupção virou detalhe. Certo, ela é o motor de todo o noticiário, movimenta os debates. Mas, na realidade, a discussão ética é a superfície e pouca gente de fato se importa com ela. Por exemplo, o caso de Lula: muito se debate se há provas ou não. Minha impressão, todavia, é de que tanto para defensores quanto críticos, a culpa ou inocência do ex-presidente não é o crucial.

Minha impressão é de que, mesmo que se comprove que ele foi favorecido por empreiteiras que prestaram serviços ao seu governo, os que simpatizam com ele não deixarão de apoiá-lo. Não necessariamente por acreditar que ele é inocente. Isso está em segundo plano. A questão central é a crença de que as políticas públicas implantadas por ele são corretas e justas. E isso, o eventual proveito de que tenha usufruído não apaga. Não creio que qualquer prova que apareça de que Lula cometeu crime irá convencer essas pessoas.

Por outro lado, para os que são contra Lula, não me parece que nenhuma evidência de que ele seja inocente convencerá de que ele não é corrupto. Há, para essas pessoas, a certeza firmada de que Lula é corrupto e pronto. Isso ocorre, na minha percepção, porque a raiva que têm dele e do PT não é necessariamente questão ética. Há, da mesma forma, rejeição absoluta ao modelo de políticas públicas e gestão econômica empreendido nos governos petistas.

Não vou aqui discutir se a aprovação ou desaprovação às políticas lulistas é pertinente ou não. A rigor, não acho que tenham sido nem uma maravilha nem a desgraça completa que apregoam. Vou me ater, porém, à impressão de que discutir corrupção, no fundo, é a máscara para esse julgamento de mérito sobre o governo Lula. Por essa razão as pessoas amam ou odeiam o ex-presidente.

A relativização da corrupção é fácil de ser percebida por comparações simples. Contra Aécio Neves (PSDB), por exemplo, apareceram denúncias muito mais embasadas e consistentes do que as existentes contra Lula. E nenhum, nenhum mesmo dos críticos do PT dedica ao tucano ira similar à observada contra o petista. Porém, também é verdade que muitas das menções a Aécio em delações - sobretudo as primeiras - foram as mais mal embasadas que já se viu. Algumas eram de alguém que ouviu de alguém que ouviu de um terceiro. Mesmo assim, com toda essa falta de fundamento, defensores de Lula tomavam esses elementos e os alardeavam como se fossem provas cabais de culpa contra o mineiro. E, quando a Justiça corretamente arquivou essas denúncias fajutas, houve indignação. Mas estava certo.

No fundo, a ideia subjacente a esses sentimentos tão extremados é de que a corrupção é parte do jogo. Está presente na cultura política. Em algum nível, é espécie de lubrificante que faz a engrenagem funcionar, como já definiu o professor Valmir Lopes, integrante do Conselho de Leitores do O POVO. Tal pensamento é velho: o “rouba, mas faz”. Se todos roubam mesmo, acredita-se, então que se escolha ao menos o ladrão que faz com que as coisas melhorem. Corrupção não é motivo para escolher ou deixar de escolher um candidato.

Porém, é bem mais simples e rápido resumir o debate a quem roubou ou deixou de roubar do que entrar nos meandros das visões de Estado e divergências sobre políticas públicas e ideologias. O resultado é que o debate político nacional acaba monopolizado pelo tema corrupção. Silenciam-se ou se ofuscam outros temas. Quando, na verdade, as paixões extremadas têm no fundamento questões mais profundas e pouco debatidas.

O VERGONHOSO DEBATE DO TCM

Do fim do ano passado para cá, nenhum debate mexeu tanto com a Assembleia Legislativa do Ceará quanto a extensão do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). Uma vergonha.

Nenhum dos lados está minimamente preocupado com a melhor forma de fiscalizar as contas municipais. É tudo uma grande briga sobre poder. O TCM sempre esteve ao lado dos governadores de plantão. Mas, hoje, o presidente é Domingos Filho, opositor do governo Camilo Santana (PT). Como quase todos os integrantes da Corte, Domingos tem origem, família e ambições políticas. Como reação às iniciativas do ex-aliado e hoje adversário, a base governista quer tirar dele o tribunal.

A tentativa de extinguir o TCM foi precedida de disputa pela presidência da Corte. Como os governistas perderam, partiram para a retaliação. Está tudo errado. A inclinação política do tribunal e a tentativa de responder a ela.

A fiscalização pode funcionar com dois tribunais, como é hoje, ou com só um. Pode ser mais cara ou mais barata de um jeito ou de outro. Isso não é o crucial. Ruim é que, em momento tão delicado em relação à corrupção, a estrutura de fiscalização do Estado seja redefinida com base em interesses políticos de ocasião.

 

ÉRICO FIRMO