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Uma estratégia tabajara na AL

01:30 | 16/06/2017

Talvez ainda demore, mas vai chegar a hora em que a base de Camilo Santana (PT) na Assembleia Legislativa (AL-CE) vai entender que o plano de desbaratar a oposição por meio da extinção do Tribunal de Contas dos Municípios (TCM) não está dando muito certo e que, se a intenção é “encher o saco” do PMDB, talvez seja melhor procurar outra maneira.

Primeiro porque, passados quase seis meses da votação da PEC original de Heitor Férrer (PSB) que punha um fim à corte de contas, o tribunal continua funcionando. Precariamente, mas está lá, e redobrando esforços públicos para demonstrar que tem utilidade, com rodadas de fiscalização no Interior. Segundo porque, como se não bastasse, uma segunda PEC, do mesmo Heitor, voltou a ser questionada na Justiça, que fez com que a tramitação recuasse algumas casas. É provável que a proposta tenha o mesmo destino da primeira.

Ao fim e ao cabo, se houve algum proveito para os aliados do Executivo estadual em toda essa barafunda em que se transformou o debate sobre o TCM, não foram as idas e vindas judiciais, das quais saem derrotados momentaneamente. Afinal, as investidas só fizeram acelerar o andamento de medidas no Congresso para resguardar a existência do tribunal.

Parte da jogada palaciana, a entrada em cena de Osmar Baquit, de saída do PSD, causou alguma bagunça no coreto da oposição, e nisso está a vitória do governo. Foco de preocupações para Camilo, os adversários bateram cabeça de vez, com direito a troca de amabilidades. Os correligionários Leonardo Araújo e Silvana Oliveira, do PMDB, acusaram-se de fazer “pacto com o diabo” (de Araújo para Silvana) e de “injúria” (de Silvana para Araújo). Tudo para, dois dias depois, selarem as pazes no plenário com um abraço e juras de perdão recíproco. Mas tudo indica que os grupos de WhatsApp dos deputados tendem a continuar movimentados nos próximos dias. Por uma razão: até segunda ordem, Silvana continua liderando o bloco PMDB-PSD-PMB, função antes ocupada por Araújo.

E Baquit? Exonerado da Secretaria da Agricultura, nem se manteve relator da PEC, agora sustada, tampouco apresentou relatório sobre a medida. Daqui a pouco precisará voltar à pasta que comanda, que, em tempos de estiagem, deve ter problemas mais urgentes do que o fim do TCM a reclamar a atenção do deputado.

LAVA JATO NO CEARÁ

Fazendo os cálculos, até que o Ceará não está tão mal assim no quadro de pontuação da Operação Lava Jato nos estados. Até agora, são dois ex-governadores citados (Cid Gomes pela JBS e Lúcio Alcântara pela Odebrecht). O Rio de Janeiro, por exemplo, tem Luiz Fernando Pezão enrolado e Sergio Cabral passando os dias e as noites no presídio. Em São Paulo, despontam o atual governador Geraldo Alckmin e o ex José Serra, hoje senador e ex-ministro de Michel Temer.
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De Minas Gerais nem se pode falar. Aécio Neves (PSDB), ex-chefe do Executivo, foi afastado do mandato depois de ter sido grampeado em conversas indecorosas com o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, braço direito do presidente e indicado para tratar dos interesses da JBS. Antonio Anastasia, também ex-governador de Minas, é citado na Lava Jato como beneficiário de propinas.

Maior operação de enfrentamento à corrupção no País, a força-tarefa comandada a partir de Curitiba e de Brasília, com núcleos fortes também no Rio e em São Paulo, normalmente representados por figuras de juízes que se inspiram em Sergio Moro, aos poucos vai ajudando a consolidar um modus operandi de combate ao banditismo partidário e estatal. Talvez seja prematuro falar de uma cultura jurídica que nasce na esteira da Lava Jato, mas o fato é que, chegando aos estados e se ramificando, a investigação oxigena estruturas degeneradas.

 

Henrique Araújo

Jornalista, editor-adjunto de Conjuntura do O POVO

Escreve esta coluna interinamente de terça a sábado