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A maior crise de Camilo

01:30 | 20/04/2017

Camilo Santana (PT) teve na segurança pública seus melhores resultados até aqui. Mesmo com a violência em patamares ainda chocantes, houve redução significativa do número de homicídios. Desde o começo do ano, passou a ter a carismática personalidade de André Costa no comando da área. Tem apelo popular e junto aos policiais, o que antes faltava. Nos primeiros três meses, todavia, passa longe dos resultados dos primeiros dois anos. Ontem, porém, essa nova condução da segurança pública foi exposta à maior crise em dois anos, três meses e 20 dias de governo. Desafio não apenas para o secretário, mas para o próprio governador.

O dia de ontem foi de convulsão na cidade. A ação do crime conseguiu produzir enorme transtorno para a população inteira. Os mais afetados foram os mais vulneráveis, e numerosos, que usam ônibus. Com os congestionamentos, quem anda de carro também sofreu. Quando a violência alcança a população de forma tão generalizada, o problema se torna ainda mais grave do ponto de vista social. O ônus político também se torna maior

Sem transporte público, comércio e empresas liberaram funcionários mais cedo. Faculdades cancelaram aulas noturnas. A rotina da cidade mudou. Não teve a mesma dimensão, mas foi a situação que mais se aproximou do 3 de janeiro de 2012, quando a greve da Polícia Militar parou Fortaleza.

Naquele dia, um dos traços mais marcantes foi o silêncio e a falta de presença visível do governador Cid Gomes. Aliás, o governo como todo se mostrou na época bestificado em relação ao que ocorria. Na maior parte da crise, não houve um porta-voz firme, um negociador claro e com força para encaminhar a solução. A posição de Camilo agora poderá ser emblemática do futuro de seu mandato.

O secretário André Costa concedeu entrevista coletiva na noite de ontem, mais de seis horas após o início dos ataques. Depois de uma tarde inteira de medo e transtornos. As informações oficiais partiam dos sindicatos das empresas e de trabalhadores. Até os bandidos deixaram recados sem que, por horas, houvesse uma voz do poder público. Lembrou muito 2012, quando os policiais em greve estavam dia e noite nos meios de comunicação, falando para a população, enquanto o Palácio estava em silêncio.

FCO FONTENELE
FCO FONTENELE

Ao falar, o secretário foi sóbrio, procurou transmitir tranquilidade, mas foi vago. Os dois primeiros pontos foram acertos. O último, um erro. Tudo bem que as investigações são incipientes, mas é óbvia a conclusão de que 16 ataques num curto espaço de tempo e em pontos opostos da Cidade tiveram coordenação. Não foi coincidência ou resultado de circunstâncias anárquicas. Não convém fechar hipóteses ainda, mas ser vago demais a essa altura e não se posicionar nem mesmo sobre obviedades sinaliza falta de rumo, demonstra que o comando pode estar meio perdido. Quanto mais assertivo em momentos como esse melhor.

Na manifestação, o secretário trouxe de resultado concreto as prisões. Rápidas, é fato, mas poucas para ação criminosa tão abrangente. Foi compreensível que o governo quisesse esperar para se posicionar quando houvesse resultados concretos. Faz sentido, mas é um erro. Vácuo de informação no meio de uma crise nunca é opção adequada. Contribui, inclusive, para proliferação de boataria tão recorrente nas mídias sociais.

IMPACTOS POLÍTICOS

A greve de 2012 desestabilizou o governo Cid Gomes. Demorou a se reaprumar e nunca mais teve o mesmo patamar de confiança e popularidade, sobretudo na Capital. A segurança começou a melhorar quando Camilo assumiu. Na eleição seguinte, os governistas enfrentaram disputa parelha como não haviam conhecido desde a ascensão do grupo como força hegemônica na política estadual. Episódios, conjunturas e estilos não são iguais dessa vez. Mas, há muito em comum. A crise de ontem ainda está em curso. A história está sendo escrita. Os desdobramentos podem ser duradouros na segurança, na sociedade e na política.

 

A CIDADE SEM ÔNIBUS

A retirada da frota de ônibus das ruas foi contundente atestado do fracasso do poder público entre o começo da tarde e o início da noite de ontem. Verdade que a frota não poderia seguir circulando diante do risco representado a passageiros e trabalhadores. Mas, suspender serviço público tão essencial tampouco é solução . Não é alternativa aceitável. Faltou ação mais rápida para garantir segurança ao serviço de transporte público. Era prioridade absoluta.

Na paralisação dos policiais em 2012, Fortaleza parou muito em função do medo disseminado pela boataria. Ontem, o comércio fechou mais cedo e muita gente ficou sem se deslocar porque não havia transporte. Dessa vez, a situação teve bases absolutamente concretas e diretas na vida das pessoas.

ÉRICO FIRMO