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O escândalo além da carne

01:30 | 21/03/2017

Todas as atenções sobre a operação Carne Fraca se voltaram para o consumo do produto. Compreensível, uma vez que é a forma como o caso atinge diretamente as pessoas. Porém, não considero que essa seja a ponta mais grave do que foi descoberto. O coração do esquema está em algo comum na maior parte dos escândalos. A corrupção dos fiscais.


O problema central revelado na Carne Fraca é o envolvimento da Vigilância Sanitária, dos fiscais que deveriam garantir a qualidade dos alimentos. Sem esse controle externo, há sempre o risco de empresários venais fazerem tudo quanto possível para reduzir custos, mesmo que o preço seja comprometer a saúde dos desavisados que cometem o equívoco de consumir seus produtos.


Se a Vigilância Sanitária está corrompida, nada garante que o problema ocorre apenas com as carnes. Pode estar em todos os ramos. Esse é o ponto central a ser atacado. Quando se corrompe os fiscais, qualquer coisa se torna possível.


O problema vai além, pois o esquema passava por articulações políticas. Desaguava no financiamento eleitoral a partidos políticos. A rede é intrincada e mexe com muitos interesses.

 

REAÇÕES POLÍTICAS

Desde a operação, houve gente imaginando que as gigantes do agronegócio podem ser vítimas. Mais que isso, que as megaempresas do ramo de carne simbolizam o interesse nacional. Seriam alvo de conspiração do capital internacional contra os interesses das potências brasileiras que se insinuam no mercado externo.

Duvidar eu não duvido de nada, mas não tenho elementos para afirmar nada disso, nem para afirmar que a investigação se equivocou. Pelo que me chegou, não encontrei nada que indique que as empresas envolvidas sejam vítimas, muito longe disso. Por outro lado, houve problemas claros na divulgação. Faltou ser mais específico sobre os mercados abastecidos e o real alcance dos esquemas, por exemplo. Ficou parecendo que a mesa de todo brasileiro era abastecida com carne comprometida.


Sobre a suposta conspiração, parece improvável. Ainda que de forma atrapalhada, o governo Michel Temer (PMDB) deu sinais de que ficou profundamente incomodado com a operação da Polícia Federal.


O Planalto considerou que não havia necessidade de ação de tamanha envergadura e que a forma de ação prejudicou segmento da economia. A generalização é sempre um risco - na economia e na política também. Não tem sido incomum. Todavia, há de se ter cuidado para não ficar parecendo que o desejo geral é abafar o caso.


Ainda mais com as ramificações políticas já descobertas.


BARAFUNDA

Promover jantar para defender a indústria da carne em restaurante que só serve variedade importada do produto é, convenhamos, coisa de um governo muito trapalhão.

 

SEGURANÇA NA REDE

Desde domingo, o Ceará assiste a situação bizarra. O secretário da Segurança Pública foi ao Facebook dar recado aos criminosos. Pois sim.


“Não adianta espernear, criar vídeos ameaçadores e postagens no Facebook, pois atrás de uma câmera todo homem é macho”, disse André Costa..


Ontem, também no Facebook, perfil que se identificava como integrante do Comando Vermelho fez ameaças a ele.


Uma das situações mais bizarras que se viu da política cearense no meio virtual nos últimos tempos.

 

REAÇÃO

A mensagem do suposto integrante do Comando Vermelho demonstra irritação com a ocupação do Gueto, na Barra do Ceará (leia a respeito acessando este link: http://bit.ly/ocupacoessspds). “Quero ver você tirar as barricadas de novo seu verme. Aqui é CV, porra! (...) Vamos acabar com vocês. (...) Bota a cara aqui no Gueto, nós fechamos foi tudo de novo, quem manda é nós. Você manda tirar e nós botamos de novo. Vamos ver quem vence essa guerra seu verme, André Costa. CV é quem manda no Estado e no Gueto”, escreveu.

Nesse aspecto, ponto para o secretário. A iniciativa foi capaz de incomodar o crime. Na postagem de domingo, ele disse que já esperava resposta, que veio na forma de incêndios de ônibus e posto policial. “Quanto às reações dos criminosos, já esperávamos e contávamos com elas. Algo que viria naturalmente”.


Era de se esperar mesmo. Mas, assim sendo, era o caso de algo ter sido feito
para tentar prevenir.

 

ÉRICO FIRMO