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Acontecimento

01:30 | 08/07/2017

A tarde passava lerda, sufocando quem se arriscava a sair de casa. O mormaço do asfalto invadia os carros, e os que vinham de ônibus arranjavam um jeito de pôr a cabeça na janela, como se lhes faltasse o ar. Na ânsia de desamarrar a gravata – que me sufocava – levantei o queixo e, sem nenhuma intenção além do gesto involuntário, olhei para cima. Naturalmente, após afrouxar o laço, abaixei a cabeça... e só aí me dei conta do que “tinha” visto. Mirei de novo, incrédulo, o sol forte quase me ofuscando a visão. Um nó na garganta me impediu de gritar; reparei em volta: o mais absoluto descaso, ninguém notara o mesmo que eu – ou fingiam de maneira perfeita.

Tentei me comunicar com o vizinho de poltrona: ele me encarou displicente – um ligeiro sorriso no canto do lábio –, voltando o rosto para o outro lado; à minha frente todos se abanavam, alguns limpando o suor com as mãos, respirando fundo. Virei para a cadeira de trás, uma senhora rezava em meio a balbucios, de olhos fechados e os dedos tateando as contas do rosário – a seu lado um homem gordo dormia com a cabeça escorada na vidraça.

Não tive outra alternativa senão observar de novo. E aquilo continuava lá como se houvesse estado ali sempre, e ninguém notava, nem percebia meu gesto atônito. Nas calçadas todos caminhavam como se nada estivesse prestes a acontecer. Nenhum dava o mínimo sinal de haver percebido... e agora eu duvidava de tudo: do ônibus que parecia irreal, das pessoas que deviam ter saído de um sonho, desse calor infernal e daquele prenúncio de tudo o que estava para acontecer.

Afrouxei de vez o colarinho, larguei no chão a pasta, afastei o mais que pude os joelhos... respirei bem fundo por alguns minutos. Quando despertei, na esperança de que tudo fosse apenas um pesadelo, vi que nada tinha mudado, a senhora gorda agora se desmanchava devagarinho, os outros tornavam-se avermelhados, uma fumaça negra subia-me dos ombros, e eu não tive mais coragem de olhar para cima, então baixei resignadamente a cabeça e esperei.