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Curiosidades

01:30 | 17/06/2017

Durante alguns anos morei no 23.º andar de um apartamento na Rua João Cordeiro quase esquina com a Costa Barros; lá de cima eu avistava boa parte da Praia de Iracema (não crescera ainda a imensa muralha de arranha-céus que hoje sufoca a Cidade) e dormia vigiado pelo eterno girar do Farol do Mucuripe; porém os acontecimentos que mais me marcaram naquele tempo foram, por incrível que pareça, as batidas de carro que escutava durante todo o dia, noite e madrugada no cruzamento da João Cordeiro com Costa Barros (só depois de muitas tragédias instalaram por lá um bendito sinal).

Estivesse ocioso ou ocupado, ao escutar o baque característico da freada, seguida do estrondo, me levantava mecanicamente e corria para janela ou varanda pra vislumbrar de “camarote” o acidente – e muito mais “interessante” que aquela tragédia anunciada era perceber que ao redor dos dois carros ou motos já se encontrava uma multidão de espectadores, que (pasmem!) parecia ter brotado do chão.

Dessa época me ficou a memória dos sons e burburinho dos curiosos, além desse continho torto:

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NENHUM DE NÓS

Quantos carros neste momento atropelam, arrastam, esfolam alguém que está vivo? E em quais lugares do mundo acontece tal fato neste exato instante? Todos tão iguais, tão diferentes — a velhinha morta ao atravessar a rua para comprar fósforos, uma criança que parou sua alegre corrida atrás da bola fujona, um homem forte colhido na linha-férrea depois de ter recebido todo seu salário, a família que foi perder dois de seus membros na saída triunfal de um feriado na praia, os dois jovens esmagados em plena parada de ônibus enquanto namoravam — todos no mesmo instante e em todas as partes do mundo: tão diferentes e tão iguais.

O que nos une em todos estes acontecimentos? O que pulsa junto ao coração suspirante das vítimas? Essa nossa multidão de anônimos que largam tudo o que estejam fazendo. Batem no automóvel parado em frente. Soltam a mão do filho pequeno. Se arriscam a perder emprego e prestígio — para ir lá ver de perto. De mais pertinho que nos deixem... E arregalar olhos, e chorar lágrimas, e rezar terços: mas ter o que contar em casa, no trabalho, na escola — e ficar extremamente chateado se não acontecer nada, e sair inconsolavelmente desapontado se tudo acabar bem.