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VERSÃO IMPRESSA

Lembra daquela foto?

01:30 | 15/06/2017

Olha, na verdade eu tava me preparando pra falar de uma foto que eu vi de um cara segurando uma rosa vermelha, dessas de sinal, uma rosa bem barata que não deve ter custado cinco reais. Mas uma rosa tão bonita do modo como ele segurava, entre displicente e quase agarrado, como se sua vida dependesse dela, como se precisasse chegar em casa antes que ela murchasse, como se a rosa fosse mesmo esse amor, simbolizasse tudo isso e nela estivesse toda a possibilidade de ser feliz.

E ele sentado na cadeira do ônibus, sozinho, um cara voltando pra casa com uma rosa na mão. Seria dele mesmo?, pensei. Claro que era. Um homem em viagem com uma flor, a roupa suja, não tivera tempo sequer de trocá-la tamanha era a pressa de chegar e entregar a rosa que tinha encontrado na rua. Ou comprado de última hora, como são os presentes dados assim em aniversários e no Natal por gente demasiadamente ocupada. Ou ele teria recebido a rosa de uma mulher enquanto estava distraído na parada do ônibus? Agora não sei, não tenho certeza, mas era uma rosa, disso não tenho dúvida.

Era Dias dos Namorados também, data em que os casais transformam o amor em esporte de alto rendimento e concorrem nas redes sociais, demonstrando reciprocidade em juras que se correspondem em paixão e fogo, num esforço público de renovação dos votos. Dia também em que, vacinados contra o brega de tudo isso, os desenamorados riem de toda a pieguice desbragada, das fotos divididas no perfil do Facebook, das cartas como postagens, mas também se emocionam verdadeiramente quando uma palavra ou um gesto ou uma imagem pegam a gente pelo calcanhar e dizem assim: calma aí, valentão ou valentona, que o amor é uma coisa boa. E a gente cai nessa esparrela e, quando viu, já era, está no ônibus carregando uma rosa pra casa com a mansidão de quem volta do front de batalha.

Bom, era nisso que estava pensando quando finalmente terminei de ler os jornais que leio todos os dias antes de começar qualquer coisa. Um amontoado de notícias cruas, algumas estragadas, chacinas, mortes, conchavos, alianças, traições e arremedos de uma democracia que vai sendo posta a toda prova. E, no meio disso, a rosa, ainda a rosa.

E, além da rosa, o porte do homem que a mantinha à frente do nariz. Não sei por que, mas lembrei da pira olímpica, a chama da verdade que os atletas conduzem e que ilumina o espírito dos jogos. Aquele homem, sem saber, transportava uma verdade. Dentro do ônibus, as pernas desalinhadas, o corpo todo um desimportar-se, talvez pelo cansaço, talvez pela insuficiência que todo gesto de amor transmite, esse sentimento de que nunca amamos o bastante, nunca dizemos o amor. Mas ele estava lá, firme e forte, esparramado no assento do ônibus meio vazio. Um exemplo de atleta do amor. Um medalhista.

E mais: quem fez a foto? Nisso eu também pensava agora. Quem, no meio daquela viagem, parou e sentiu que aquele homem tinha algo especial, que não era apenas alguém levando uma rosa pra casa no Dia dos Namorados, quando centenas de milhares de pessoas no país inteiro oferecem não apenas uma, mas dúzias de rosas a quem amam, e mais pessoas ainda o fazem com sorriso largo que veste sua melhor roupa.

Eu passei a amar o amor daquele homem, desejar que o amor fosse gratuito, encontrado nas esquinas, nos balcões de farmácias e nas janelas de bate-papo. Quis o amor como uma vulgaridade, uma rosa barata, mas transportada como a coisa mais delicada e frágil do mundo. Quis um amor-molambo, um amor-ordinário desses que têm o cheiro da gente, que reconhecemos de longe e, quando ausente, fazem tanta falta.

 

Aquilo era o amor, eu chutei, cedendo à tentação de adivinhar a natureza última das coisas. Aquilo era um sentimento vadio no meio de um coletivo. Um amor de segunda-feira, gasto, que faz a gente parecer cansado e embotado mas, no fundo, certo de que o caminho é esse mesmo e que, ainda que demore, essa viagem tem um destino. Eu estava me preparando pra falar de outra coisa, mas essa rosa me atravessou.