PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

O segredo do cidadão comum

17:00 | 10/06/2017

 

É possível extrair alguma virtude dos acontecimentos políticos-policiais do Brasil? Aposto numa possibilidade: os setores da população que não pertencem a grupos de pressão, que não militam em sindicatos, que possuem baixa escolaridade, que se esfolam de trabalhar todos os dias e mal acompanham o noticiário talvez tenham compreendido de maneira muito clara e concreta os motivos pelos quais os serviços públicos são de qualidade tão ruim.

Talvez, o cidadão mais comum tenha enfim compreendido que o Estado brasileiro não foi criado para lhe servir aos membros da faixa que pertence à grande maioria, mas sim para atender a privilégios de grupos organizados, geralmente os mais ricos. Uma minoria. Aqui, o termo “mais ricos” não deve ser entendido somente como empresários ou detentores do capital, mas também as faixas médias com bons salários, principalmente nos serviços públicos, os operadores dos mais variados onguismos geralmente agarrados nas tetas estatais, além de outros.

Certamente, há uma boa dose de otimismo na hipótese por mim levantada. Afinal, em algum momento de nossa História, a sociedade brasileira adotou uma concepção de Estado que é única no mundo. Por esse vício cultural, o Estado, sempre através de seu operador de plantão no Governo, é o senhor de todas as benesses, mas também de todos os males. É como se o mundo e a própria existência das pessoas girasse em torno do Estado.

 

É claro que grupos políticos, geralmente por esperteza, sabem muito bem usar a seu favor o modo como o brasileiro se relaciona com o Estado. Como ironicamente apontou o economista Pedro Cavalcanti Pereira em recente artigo no jornal Valor Econômico, “o Estado-mãe só não conseguiria resolver os problemas recorrentemente enfrentados pela população devido à sua captura por ‘elementos do mal’. Entre estes, elencam-se os políticos corruptos, o mercado financeiro, a mídia golpista, ou algum outro bode expiatório da vez que impediria o Estado de prover o paraíso na Terra”.

Do mesmo Pedro Cavalcanti: “O Estado brasileiro sempre foi arcaico, patrimonialista e concentrador. Suas políticas foram capturadas por elites rurais, industriais, mercantis, entre outros grupos dominantes, e excluíram a grande maioria da população. A educação foi sempre virtualmente ignorada”.

“O país cresceu no século XX, apesar do Estado, e não devido a ele. Ainda assim o brasileiro continua a esperar que esse mesmo Estado, que fracassou no passado, possa resolver todos os seus problemas no futuro, eliminando a pobreza, dando-lhe universidade gratuita, aposentadoria confortável para a qual não contribuiu suficientemente, e outras benesses. O brasileiro ainda se opõe à privatização de empresas estatais ineficientes, aparelhadas, que lhe custam caro e oferecem pouco”.

Ao fim de seu artigo, que recebeu o polêmico título “O Brasil não deu certo”, o economista afirma que “a melhoria do bem-estar do brasileiro exigirá uma reforma radical do Estado. Mas o brasileiro, em grande medida, ainda não se deu conta disso e continua preso ao passado”.

Pois é. Acredito que o brasileiro começa a se dar conta disso e tende a se libertar do passado. Veremos nos próximos capítulos que estreiam nas eleições de 2018.

O ANTI-HERÓI DO REAL E O “IMPREVISTO”

Fui ver o filme Real, a história por trás do plano. A película, que mistura alguma ficção com a realidade, se propôs a ser uma espécie de crônica do Plano Real, certamente o mais engenhoso projeto de País já posto em prática nos trópicos. Há boas passagens na obra, que tem Gustavo Franco como o herói (ou anti-herói), mas o filme se perde em caricaturas dos personagens.

Depois do filme, tratei de assistir à última entrevista de Gustavo Franco no Roda Vida da TV Cultura. O programa é de novembro de 2015. Portanto, antes do impeachment, mas com o País já mergulhado na fossa do petrolão, da crise política e da recessão. O Gustavo da entrevista é muito melhor que o do filme.

A certa altura, ao ser provocado sobre o futuro, exalou otimismo citando uma frase do clássico Esaú e Jacó, de Machado de Assis. Ao falar para os filhos, a mãe diz o seguinte: “O imprevisto é um Deus avulso a quem nós devemos homenagear porque terá influência decisiva na assembleia dos acontecimentos”. Para Franco, o imprevisto seria uma guinada na política que permitiria ao Brasil fazer reformas no Estado a favor das maiorias e não dos grupos organizados ávidos por manter privilégios.

Pois é. Meses depois, o imprevisto Michel Temer se fez valer. De tão impopular, foi capaz de colocar em pauta reformas pra lá de impopulares. É bom lembrar uma recente sentença de Fernando Henrique Cardoso: “Eu sempre achei que seria impossível acabar com o imposto sindical obrigatório. Era algo que parecia inabalável”. O “imprevisto” fez com que a proposta fosse aprovada na Câmara dos Deputados e tem tudo para ser aprovada também no Senado.

COMO COLOCAR A MAIORIA NO JOGO

Na mesma entrevista, Gustavo Franco remete uma de suas respostas a um ponto que se relaciona com o primeiro parágrafo que abre esse espaço. Ele diz: “Precisamos, como coletividade, fazer coisas que tenham benefícios dispersos e custos concentrados. Você vai tirar uma boquinha de alguém, que ficará irritado e fará tudo o possível para que aquela medida não aconteça. No entanto, o beneficiário da abolição desse privilégio é uma maioria imensa.”.

“A maioria é muda e inerte. O contribuinte, o consumidor não tem representante no parlamento. Dois tipos de personagem não existem no Congresso: a coletividade e o trouxa. A coletividade nunca conseguiu participar do jogo político na sua real presença numérica. Há sempre uma minoria mobilizada que vai lá sabotar a reforma e a maioria não se mexe”.

No fim da resposta, um ponto crucial para traduzir o que o economista considera a motivação ideal para costurar uma reforma política: “Como conseguir elevar a presença (no jogo político) das maiorias inertes que mal compreendem o que é uma reforma econômica que gera benefícios para essa maioria?”.

CAMILO EM MOVIMENTO

Camilo Santana tem se movimentado com afinco em busca de soluções para o Acquario e o Centro de Formação Olímpica. O governador não quer chegar ao ano da eleição com essa pendência sendo explorada pelos adversários. A solução também interessa a Cid Gomes, candidato a senador e responsável pelas duas obras que estão virando um mico.

 

PERNAS PARA O AR

Aos leitores: para cumprir período de férias, ficarei ausente das páginas do O POVO e do blog nos próximos 30 dias. Até a volta.

 

FáBIO CAMPOS