PUBLICIDADE
VERSÃO IMPRESSA

Adeus às ilusões

17:00 | 13/05/2017

Em resumo, os depoimentos de João Santana e Mônica Moura revelam o que Deus, o diabo e todos os moradores da terra do sol já sabiam ou desconfiavam: Lula e Dilma sabiam de tudo. Mais que isso, foram parceiros em tudo. Portanto, não há mais ilusões a vender. Ou, ilude-se quem quiser, mas sugere-se cuidado para não fazer papel de bobo.

João foi o mestre da comunicação e do marketing político que, em 2005, pegou um deprimido Lula quase nocauteado pelo Mensalão para reconstruir a imagem do presidente. Fez isso até levá-lo à vitória nas presidenciais de 2006 contra Geraldo Alckmin, o tucano que conseguiu o feito de ter mais votos no primeiro que no segundo turno.

Dali por diante, João conquistou a condição de influente parceiro do lulo-petismo. O homem que dava as cartas na comunicação do mais rico País da América Latina. Portas abertas no Planalto. Virou marqueteiro “for export”. Lula o levou para as campanhas de todos os parceiros do populismo barato que ronda a África, a América do Sul e a América Central.

João fez as campanhas de Dilma 1 e Dilma 2. Porém, para a “presidenta”, o baiano foi muito mais que um marqueteiro ou um conselheiro. Dilma não pronunciava um só texto que não passasse pelo seu crivo. As decisões do Governo também lhe eram submetidas.

João, Mônica e Dilma tornaram-se muito amigos. Os três tratavam das coisas abertamente. Agora, o casal relatou tudo com impressionante riqueza de detalhes. Pagamento por fora e depósitos no exterior. Dilma tratava dessas coisas no Palácio e na residência oficial. Repassava informações para investigados.

Enfim, foi-se definitivamente a aura da mulher honesta cuja lenda dizia que fora apeada do poder justamente por ser honesta.

DESMORONAMENTO

Na hora em que escrevo essas linhas, início da noite de sexta-feira, veio a público a informação de que Antônio Palocci decidiu fazer delação premiada. Não sobrará pedra sobre pedra no lulo-petismo. Palocci, o “Italiano” na planilha da Odebrecht, funcionava como uma mistura de guarda livros (termo que designava os antigos contadores) com articulador político.

 

É um petista de primeira hora. Foi prefeito de Ribeirão Preto e ascendeu na burocracia do partido com o assassinato do prefeito de São Bernardo do Campo, Celso Daniel. Palocci o substituiu na coordenação da campanha que levou Lula à presidência em 2002.

 

Dali por diante, se tornou uma espécie de eminência parda do lulismo. Tanto formal (quando ministro da Fazenda) quanto nos bastidores (quando coordenou campanhas, conduziu articulações políticas e gerenciou o propinoduto). Não é provável que Lula ou o PT sejam capazes de sobreviverem politicamente com alguma força a uma detalhada delação de Antônio Palocci.

 

SEM COMENTÁRIOS

Entre todas as frases de Lula no depoimento ao juiz federal Sérgio Moro, a mais instigante é a seguinte: “Essa influência dentro do PT é porque o Ministério Público não conhece o PT. Se eles conhecessem o PT, não falariam isso. o PT é um partido que eu não participo de nenhuma reunião do PT desde que virei presidente. Isso foi em 2002. Até 2014. Eu não tenho influência no PT, eu tenho influência na sociedade”.

Trocando em miúdos, Lula disse que não tem influência no PT. Creiam. É o tipo da coisa que não precisa de comentários.

TEMER, O IMPOPULAR

Michel Temer completa um ano à frente do Palácio do Planalto. É quase um milagre político. Em 12 meses, o descendente de libaneses entrou em searas as quais nenhum dos últimos presidentes eleitos havia entrado. A reforma do velho trabalhismo varguista, por exemplo. Até aqui, coleciona mais vitórias do que derrotas.

É Fernando Henrique Cardoso quem oferece o depoimento: “A mudança da legislação trabalhista (ainda em discussão no Congresso) é um exemplo. Eu sempre achei que seria impossível acabar com o imposto sindical obrigatório. Era algo que parecia inabalável”.

Pois é. FHC achava que a mamata do imposto sindical era “inabalável”. O imposto que alimenta o peleguismo era algo impossível de ser enfrentado. Tanto que em seus oito anos no Palácio do Planalto, jamais tentou emplacar mudanças nessa área. Mais que isso: o tema nem sequer entrou na pauta política de suas gestões. Foi ignorado por completo.

 

A meu ver, FHC resume corretamente o papel do atual presidente: “Temer entendeu que o papel dele ou é histórico ou é nenhum. Sua força está no Congresso, que está numa circunstância muito difícil devido à questão da Lava Jato. Todos, a oposição, o PT, o meu partido, foram atingidos. Mas o balanço é positivo. Veja, o governo vive uma crise herdada, assumindo uma massa falida. Às vezes, ele não tem tempo de se beneficiar dos avanços. Às vezes, tem. Vamos ver”.

Sim, vamos ver.

A CONTRADIÇÃO

No dinâmico Brasil, não devemos fazer apostas acerca do que vai acontecer daqui a uma semana. Porém, se a política não desorganizar a economia e as finanças públicas, é muito provável que as eleições de 2018 ocorram em meio aos seguintes índices: inflação abaixo da meta e controlada, juros em queda, desemprego em baixa e, o suprassumo, o PIB em alta.

Muito provavelmente, até lá, Michel Temer manterá intacta a sua impopularidade. Daí, muito provavelmente não haverá candidato a presidente disposto a colar a sua trajetória na dele.

Economia indo bem com presidente impopular. Parece contraditório. E é. Só o Brasil, por força de suas impressionantes circunstâncias, seria capaz de produzir tal coisa.