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A menina e o bebê do Juremal

17:00 | 13/05/2017

Começo a crônica com um “foi quase desse jeito”... 

Para contar uma história baseada em porandubas possíveis de qualquer um, vinda de uma cidade do sertão grande do Ceará. Não vou dizer o lugar porque, sendo miúdo, posso identificar a adolescente e constrangê-la na rua, na escola e na própria família.  

Dedico este conto-verdade aos dias de qualquer mãe (a minha se chama Maria Edmar) e as dúvidas delas na hora do acaso (ou não) da concepção, da rebentação e da criatura.

Ofereço à menina, embaraçada aos 16. A angústia e alegria arrependida misturadas. Mas direi dela à Santa Rita de Cássia, encruzilhadora de meu caminho e que não dorme.

Pois bem... Está escrito no perfil do whatsapp da senhora que fui atrás de saber sobre o acontecido. “Deus transforma choro em sorriso, dor em força, fraqueza em fé e sonho em realidade”. Pode ser.

E, talvez, no episódio ela tenha tido a prova disso. Pois há uns dias, em uma semana de mais notícias perturbadoras do que alentadoras, um amigo me liga e diz que tem uma história pra me alimentar.

De uma menina, de 16 anos de mundo, sem posses e a chegada dela, sem eira nem beira, num hospital particular do Interior do Semiárido cearense.

Pedia, pelo amor de quem tivesse dó, para ser acudida de uma hemorragia que lhe descia aos pés. Estava pálida, pressão caída e agonia.

Muito sangue e as pernas lenhadas de arranhões. Socorrida por uma senhora boa de perguntas e com mais tempo de mundo, terminou contando que havia descansado alguém.

Parido um filho no mato. Num juremal de espinhos onde as avoantes costumam fazer os ninhais para dificultar os carcarás, os gaviões, os predadores.

Correram para onde a menina indicou e a Polícia Militar socorreu feito uns anjos.

Já desidratado, coraçãozinho valente e insistente. Quis ficar... 

Pois era um menino e estava em um “ninho” feito pela moça nova, engravidada ao 15 e que escondeu o embaraço numa cinta acochada. De vergonha, talvez de abuso e uma rede de proteção de araque.

Pariu o rapazinho, deixou no juremal, mas o instinto agiu. Antes que os cachorros farejassem a placenta ou uma raposa aparecesse, fossem acudir o inocente. Não cabe julgamento.

Mãe e filha foram trazidas para o Albert Sabin, na Capital. Ficou numa neonatal, respirando pelas máquinas até que respirou sozinho. Tinha de respirar...

Contaram-me, voltaram para o Sertão. Mamando e tudo. E a avó, não se fala de pai e mãe, foi presa por abandono de incapaz. Não sei como são as coisas na vida delas. Nem sei o resto da história nem como será pra frente. Não quis ser repórter desta vez.

Queria até dizer o nome da mãe do juremal, é bonito. E a graça do pequeno “coração de galinha”, valente. Mas não devo. Desejo que o destino dos dois e da avó encontrem o feliz. Quem sabe, a mulher generosa do hospital dê um rumo diferente ao miúdo e a menina amadurecida à força.

DEMITRI TÚLIO é repórter especial e cronista do O POVO demitri@opovo.com.br