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Prepare-se para engolir uma pílula de cocô

17:00 | 25/02/2017

Nós, humanos, convivemos com nossas irmãs, as bactérias, desde que fomos criados pela evolução. Elas são indispensáveis à nossa sobrevivência, participando de nossas atividades vitais, principalmente das funções digestivas. E nos nossos corpos elas são dez vezes mais numerosas que nossas próprias células.

Mas, nem toda irmã é boa bisca. Cordélia que o diga. Algumas bactérias são bem nocivas e uma das mais malvadas é a Chlostridium difficile (C. diff.). O nome já entrega. Ela é resistente a quase todos antibióticos conhecidos e, caso se prolifere dentro de suas tripas e não for contida, vai causar problemas graves ao seu sistema digestivo. Uma proteção contra essa inimiga vem providencialmente da presença em massa de outras bactérias que ocupam os espaços, consomem os nutrientes e impedem que a C. diff. se alastre e tome conta de nossas barrigas.

Mas, vai que um dia você come um caranguejo estragado, pega uma infecção intestinal e o médico prescreve um antibiótico de largo espectro. Por azar seu, o remédio elimina a maioria das bactérias boazinhas e acaba deixando a resistente C. diff. livre e solta para estabelecer um monopólio em seu interior. Quando isso acontece ela começa a liberar toxinas e você vai ficar debilitado por diarreias e cólicas horríveis. É claro que mais antibióticos só vão agravar sua condição.

Pois surgiu recentemente um procedimento que pode resolver esse quadro desagradável: o “transplante fecal”. Em vez de tratar com um antibiótico, usa-se um “probiótico”. O procedimento, como o nome indica, consiste em utilizar as fezes de um doador sadio, supostamente repletas de boas bactérias, e implantá-las no intestino do doente, através de algo parecido com uma colonoscopia. A ideia é reconstituir a colônia de bactérias desestabilizada pelos antibióticos. A pesquisa mostrou que essa técnica não ortodoxa funciona muito bem, não causa sequelas e cura o paciente em mais de 95% dos casos.

Por razões fáceis de entender, o doador, que pode ser qualquer pessoa sadia, pois não há problemas de rejeição, costuma ser alguém da família. Se for uma paciente casada, vai sobrar para o pobre marido, que terá de passar uma noite tomando laxantes.

Acontece que nem todo mundo gosta de se submeter a uma colonoscopia, imagine. Para satisfazer esse pessoal mais arisco os médicos, sempre solícitos, inventaram outra maneira de introduzir as bactérias no sistema digestivo: criaram a pílula de cocô. O material do doador é encapsulado em uma capa que resiste à passagem pelo estômago e alcança o intestino do paciente. Basta engolir a pílula que o material chega lá.

Pois acredite que ainda tem gente que faz objeção a essa alternativa oferecida pelos médicos. Para esses exigentes, os pesquisadores incansáveis criaram outra solução, uma pílula que contém bactérias selecionadas advindas de culturas artificiais. Isso é: cocô sintético. Infelizmente, pelo menos por enquanto, esse processo é caro e demorado. Como diz um especialista da área: “é duro competir com a disponibilidade e o baixo custo do cocô humano”.

Um obstáculo inesperado ao uso generalizado dessa técnica surgiu quando os médicos solicitaram a devida permissão aos órgãos reguladores, como a Anvisa.

A análise está demorando, pois os técnicos desses departamentos, acostumados a testar drogas e vacinas, não sabem direito como avaliar cocô.

Para terminar, tem até quem implique com o nome “transplante fecal”, que costuma despertar nojo aos ouvidos mais sensíveis. Tentando dourar a pílula, recentemente foi proposto mudar o nome da técnica para “transplante de microbioma”. Como diria o Zé Simão: tucanaram a pílula de cocô.

Resta apenas desejar a todos vocês um gostoso domingo de Carnaval. E cuidado com aquele caranguejo.

Buena cera, doutor

Um homem estava sentindo dores em um dos ouvidos e procurou um otorrino. Depois de examinar o paciente, o médico receitou pingar gotas de um antibiótico.

Passados alguns dias, o paciente voltou ainda se queixando de dores no mesmo ouvido e o médico trocou o remédio por outro mais forte.

Uma semana depois, o paciente voltou e disse que estava curado. Mas, não tinha usado o remédio.

“O que eu fiz foi só tirar um pouco de cera do ouvido bom e enfiar no ouvido ruim”.