24/01/2007 16:09
Enquanto a mudança climática está no centro dos debates do Fórum Econômico Mundial de Davos, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, insiste em manter inalterada sua posição sobre como lutar contra o aquecimento do planeta.
Em seu discurso sobre o Estado da União na noite de terça-feira, o presidente norte-americano fez apenas uma breve menção à mudança climática.
"Os Estados Unidos estão às vésperas de descobrimentos tecnológicos que nos permitirão depender menos do petróleo. Essas tecnologias nos ajudarão a ter mais cuidado com o meio ambiente e a enfrentar os sérios desafios da mudança climática", afirmou.
Embora Bush tenha apresentado em seu discurso o objetivo de reduzir em 20% o consumo de gasolina nos próximos dez anos, ele o justificou pela necessidade de reduzir a dependência energética do país e não por questões ambientais. Para os defensores do meio ambiente, a decepção foi enorme.
"A comunidade internacional deverá abandonar de uma vez por todas qualquer esperança de que o presidente Bush modifique sua política sobre a mudança climática", lamentou John Passacantando, diretor do Greenpeace Estados Unidos.
Por uma coincidência de calendário, o discurso presidencial estava programado para a véspera da abertura do Fórum Econômico Mundial em Davos (leste da Suíça), que, entre outras coisas, abordará os problemas vinculados ao aquecimento climático.
"É um passo na boa direção", declarou Nicholas Stern, autor de um recente informe sobre os riscos associados ao aquecimento global, ao comentar as palavras de Bush.
Na realidade, o presidente americano modificou pouco sua postura em relação ao tema. Em 2005 ele havia reconhecido que a mudança climática era um "problema grave", que "é preciso abordar", mas não chegou a propor mudanças concretas, ignorando os pedidos de utilização de fontes alternativas de energia, como o etanol.
As reticências de Bush em relação à mudança climática são de longa data. Seu governo, preocupado em manter o nível de emprego, sempre rejeitou o Protocolo de Kioto. No entanto, várias cidades e Estados do país adotaram por conta própria as normas do Protocolo, que busca reduzir as emissões de gases de efeito estufa.
Para Bush, os fundamentos do Protocolo de Kioto são discutíveis. Em junho de 2001 ele disse que o Protocolo era "pouco realista em numerosos aspectos" e que seus objetivos não estavam "baseados em dados científicos".
Com essa conduta, o presidente americano se soma ao ceticismo da maioria dos empresários sobre as evidências do aquecimento global.
"A única coisa que nos salvará é a (muito alta) probabilidade de que as previsões mais sombrias sobre a mudança climática sejam falsas, a (nada improvável) possibilidade de que a biosfera evolua para utilizar uma atmosfera um pouco mais rica em carbono e a (quase segura) perspectiva de que a humanidade tentará se adaptar", escreveu nesta quarta-feira o colunista Holman Jenkins no The Wall Street Journal.
Mas o vento poderia estar mudando.
Nove grandes grupos econômicos americanos, entre eles o Alcoa, a General Electric e a DuPont, reclamaram nesta segunda-feira das metas de redução de gases de efeito estufa.
O documentário "Uma verdade incômoda" (An inconvenient truth), realizado por Al Gore (o derrotado adversário do presidente Bush nas eleições de 2000), foi um enorme sucesso nos Estados Unidos.
Agora majoritários no Congresso, os democratas poderão pressionar por mudanças nesse âmbito da política americana.
"Estou decepcionado pelo fato de o presidente ter falado tão pouco sobre a forma de lutar contra o aquecimento global", disse nesta terça-feira o senador democrata Jeff Bingaman, presidente da comissão de Energia da Câmara alta.
Segundo ele, Bush "desperdiçou uma verdadeira oportunidade".
AFP