30/08/2008 00:30
O POVO - Como você recebeu a notícia da presença de Inimigos como um dos finalistas do Jabuti?
Pedro Salgueiro - Recebi com muita alegria; a indicação como finalista do Prêmio Jabuti para mim já é uma premiação. Já que todos os que escrevem têm mil motivos para desistir (tamanhas são as dificuldades), vez por outra aparece um estímulo, uma força pra seguir em frente, com bastante trabalho, humildade e dedicação; seguir fazendo a única coisa que sei (ou penso que sei) fazer: contar as histórias da gente minúscula da minha cidadezinha triste (Tamboril), da gente esquecida dos subúrbios de nossa capitalzinha metida a besta. Recebi também como uma grande responsabilidade, por estar representando uma quantidade grande de escritores daqui, que poucas ou nenhumas chances têm de concorrer, de ser visto lá fora.
OP - Para você, estar ao lado de Rubem Fonseca, também finalista, e de outros grandes escritores, é sinal de que a literatura cearense tem ótimos contistas e romancistas, mas acaba sendo vítima da precarização do mercado de livros local?
Pedro - Não tenho dúvida nenhuma de que temos uma literatura muito boa sendo produzida aqui, em todas as gerações, desde os mais experimentados aos mais moços, em todas elas temos escritores extraordinários escrevendo atualmente; o que falta é o invólucro e a distribuição das editoras comerciais, que infelizmente estão todas no Sudeste e Sul do país. Se toda essa quantidade de escritores que produzem sério por aqui tivesse oportunidade de ser bem editado e distribuído com competência todo ano teríamos indicados aos principais prêmios literários do Brasil.
OP - Primeiro, Inimigos apresenta um Pedro Salgueiro com total domínio da forma narrativa. Seus temas estão nele, mas trabalhados de um modo que considero mais habilidoso. Do ponto de vista da forma, como você percebe esse livro? Claro, se comparado a obras como O espantalho e Dos valores dos inimigos.
Pedro - Olha, levei dez anos mexendo, rabiscando este meu livreto. Borges, mal comparando, dizia que publicava para não ter que passar a vida revisando. Claro que com a maturidade (eufemismo para velhice) você vai adquirindo uma técnica mais apurada, vai tendo menos pressa no escrever; mas desde o primeiro livro que prezo muito pelo trabalho paciente, tanto que publiquei O Peso do Morto (1995) já com 30 anos e em 20 anos publiquei apenas 4 livros, todos curtinhos; além da coletânea de crônicas Fortaleza Voadora. Agora "pleno domínio da forma narrativa" é o trabalho de uma vida toda, e é sempre bom que estejamos insatisfeitos, desconfiando sempre que se pode melhorar; o filósofo romeno Cioran dizia que corrigia até soluço. Então temos sempre que melhorar, e muito! Temos que lapidar nossas preces em silêncio, no mais absoluto silêncio.
OP - Você está preparando algum outro livro no momento?
Pedro - Há quatro anos trabalho num livro de minicontos que se chama Movimento Esperado, ele também incluirá dois contos mais longos que foram premiados em concursos literários (Domingos Olímpio, de Sobral, e Luiz Vilela, de Minas Gerais), e publicados em antologias; ano que vem vou de novo batalhar por editora (trabalho mais árduo do que propriamente escrever o livro). Além desse livro, edito (junto com Jorge Pieiro, Raymundo Netto e Geraldo Jesuíno) a revista Caos Portátil: Um Almanaque de Contos, destinada principalmente a jovens escritores do nosso Estado. Também realizo (junto com Sânzio de Azevedo e Nilto Maciel) uma longa pesquisa sobre o conto fantástico no Ceará, que espero saia também ano que vem.