O fã andando na praça perto do cinema, vestindo camiseta estampada com o Coringa no pôster "Why so serious?" e uma capa do Batman amarrada no pescoço
21/07/2008 14:31

Quem já assistiu a algum trabalho do britânico Christopher Nolan pode antever que o diretor não vai se contentar em apenas contar a história óbvia que todo mundo espera. À medida que o filme avança, tramas paralelas vão surgindo e viabilizando diferentes leituras sobre uma mesma narrativa. Ver um mesmo filme dele três, quatro vezes ou mais, não chega a ser cansativo. Isso porque não dá para pescar tudo que ele quer dizer logo de cara. E isso é bom! É assim, por exemplo, com Amnésia (2000), Insônia (2002), O Grande Truque (2006), Batman Begins (2005) e, novamente agora, com Batman - O Cavaleiro das Trevas. Nolan faz do Homem-Morcego algo que extrapola uma simples mitologia de quadrinhos, tornando o personagem tão humano quanto eu ou você.
E o efeito disso se faz sentir na empolgação do público que vai ao cinema. A fila da sessão de 9h da manhã de sábado, no centro de West Palm Beach (Flórida), normalmente deserto a essa hora, ao contrário do centro de Fortaleza ou do Rio de Janeiro. O fã andando na praça perto do cinema, vestindo camiseta estampada com o Coringa no pôster "Why so serious?" e uma capa do Batman amarrada no pescoço com a logomarca tradicional do personagem colada nela. "Estou pagando uma aposta que fiz com amigos", explica o estudante de engenharia Brian Conley, sem medo de pagar mico.
Toda empolgação, toda expectativa se justifica na sala cheia quando o filme começa. Bandidos com máscara de palhaço estão prestes a assaltar um banco em plena luz do dia. Eles falam entre si sobre o Coringa (Heath Ledger). De repente um deles começa a matar os companheiros de roubo, sem piedade. Até o palhaço do crime revelar sua verdadeira face, encerrando seu ato com uma granada na boca do gerente e fugindo em um singelo ônibus escolar amarelo típico dos Estados Unidos.
Do outro outro lado da cidade, à noite, o Espantalho (Cillian Murphy) está prestes a fazer uma execução e o Homem-Morcego surge empunhando um revólver para detê-lo. Um revólver? Surge um segundo, também atirando. Até que o tumbler aparece e o verdadeiro Batman (Christian Bale) mostra sua face. Ao final, um dos cidadãos comuns vestidos de morcego - referência clara a O Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller - grita para o original: "qual a diferença entre eu e você?"
Duas faces de uma mesma moeda. A luz. As trevas. O vilão que se vale do dia para cometer crimes. O herói que usa a noite para combatê-los. A condição do duplo, da dualidade, é um aspecto que Nolan explora ao longo de todo o filme. Indo muito além da obviedade do conflito Batman-Coringa ou da própria obsessão de Duas-Caras representada por uma moeda.
Nesse contexto, Gotham City voltou a ter esperança em dias melhores. Não apenas porque o Homem-Morcego está limpando as ruas, trabalhando não-oficialmente em conjunto com James Gordon (Gary Oldman). Existe aí também a corajosa figura do promotor público Harvey Dent (Aaron Eckhart). Uma coragem que vem da vaidade, tornada clara pela eloqüência do discurso político e o desejo de estar na mídia.
Bruce Wayne surge com seu habitual disfarce de playboy, criando uma oportunidade para conhecer Dent mais de perto. Ali, o bilionário percebe que o promotor está tendo um relacionamento além do profissional com sua amiga de infância e interesse romântico, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal). Wayne se sente ameaçado no campo amoroso, ao mesmo tempo que enxerga em Dent algo que Batman não pode oferecer.
Como vigilante, Batman está longe de qualquer unanimidade junto à população de Gotham City. De um lado, necessário por sua eficácia no combate direto ao crime. De outro, inspiração para outros partilharem sua representação teatral simbólica. Sejam bandidos, sejam cidadãos comuns. É aí que Wayne se dá conta que Gotham precisa de um herói capaz de tornar sua face visível por todos. E este herói é Dent.
Batman está mais maduro. Continua tendo como fiéis escudeiros Alfred (Michael Cane) e Lucius Fox (Morgan Freeman), que, desta vez, dividem as frases cômicas do filme. O Morcego demonstra ter o domínio da situação e do seu próprio papel como vigilante, ao ponto de vislumbrar um cenário em que o Homem-Morcego não seria mais necessário, e sua luta passaria a ser pelo coração de Rachel. Então o palhaço entra em cena pra valer.
Ver o circo pegar fogo
Heath Ledger interpreta um Coringa que se afasta da origem contada por de Alan Moore e Brian Bolland em A Piada Mortal, que completa 20 anos em 2008. Aproxima-se da versão mais doentia do personagem, estabelecida na década de 70, após passado os efeitos do livro Sedução do Inocente, de Fredric Wertham, na indústria de quadrinhos (leia mais em http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/803936.html). Preste atenção na história contada pelo personagem antes de matar o mafioso que antes o ameaçara, desembocando no bordão "Why so serious?".
O Coringa não é exatamente um anarquista. Um anarquista, por definição histórica, é alguém que nega a autoridade do governo estabelecido e se dispõe a promover a ordem a partir do caos. Como o Codinome V, em V de Vingança, de Alan Moore e David Lloyd. Como Alfred muito bem define, o Coringa é alguém (um palhaço) que quer apenas ver o circo pegar fogo.
Especialistas em quadrinhos como a Doutora em Psicologia, Robin Rosenberg, autora do livro A Psicologia dos Superheróis, afirmam que se Batman tem algum super-poder é a sua imensa capacidade de auto-controle, desenvolvida ao longo dos anos de treinamento pelo mundo. O Coringa se encaixa na narrativa de Nolan como a "kriptonita" do Morcego, instigando-o a perder o controle da situação (ainda que pela via do excesso de controle) e sua identidade própria - mas qual delas?
Veja Wayne sendo obrigado a sacrificar a própria identidade secreta, em diferentes momentos, para cumprir sua missão de combate ao crime. Até que ponto essa situação poderá se sustentar? O bilionário diz a Alfred que Batman não tem limites. Estaria ele certo?
As respostas vêm com a insana tese defendida pelo Coringa ao longo do filme. Ele não quer poder, dinheiro ou simplesmente causar desordem. Isso fica bem claro. Ele quer provar que todo mundo tem seu preço para enlouquecer. Mesmo o Batman. Idéia que volta a aproximar o vilão de A Piada Mortal ("o limite entre a sanidade e a loucura é apenas um dia ruim").
Dias ruins. E o Coringa proporciona a todos de Gotham muitos dias ruins. A certa altura, quando o espectador se imagina no clímax da tensão, vem outro momento de mais tensão, seguido de outro... O diretor prende a platéia no cinto de segurança de um carro a 200 km/h em uma reta interminável. Quem não tiver com os nervos em dia vai ter vontade de desatar o cinto e se jogar do carro, como muitas pessoas vistas saindo para comprar pipoca ou ir ao banheiro. É algo sufocante.
Nesse momento surge outra característica presente na filmografia de Nolan: a questão da perda. Em Amnésia, foi a memória; em Insônia, o sono; em O Grande Truque, a carreira; e em Batman Begins, os pais. Em O Cavaleiro das Trevas, as referências, o sentido. Só que mais do que abordar perdas, o diretor mostra como os personagens lidam com elas. As escolhas e os sacrifícios no jogo de xadrez do combate ao crime em Gotham, que levam Batman e Harvey Dent a trilharem caminhos diferentes em nome de um "objetivo comum". Do que abrir mão por um bem maior?
A nova aventura do Morcego faz Batman Begins parecer um filme de conto de fadas. Mas daí a dizer que está isento de falhas é olhar o filme apenas com olhos de fã. A tensão continuada, sem qualquer chance de se tomar um fôlego, cansa um pouco o espectador. Esse excesso prejudica um pouco a narrativa nesse momento. Da mesma forma, Christian Bale poderia ter mostrado uma reação mais convincente em dado momento da trama, quando lida com uma de suas perdas. Só que tudo isso parece grão de areia, frente a todo o resto diante da tela.
De Oscar e de simbolismo político
Ao final de 2h32min de projeção, falar de um Oscar póstumo para a atuação de Heath Ledge, como representante da primeira premiação de um filme baseado em personagens de quadrinhos, não parece lá muito justo. Soa mais como se a Academia de Hollywood estivesse cedendo a uma pressão popular e emocional por conta do falecimento do ator. E o filme não merece um prêmio de consolação. Merece, sim, mais que uma única estatueta.
Acima de tudo, Christopher Nolan usa a mitologia do Homem-Morcego para fazer um filme de diretor, do nível de mestres como Alfred Hitchcock, Brian De Palma ou Martin Scorsese. Não é apenas um blockbuster, espetáculo descartável para encher os olhos dos fãs de quadrinhos ou do público que busca entretenimento de qualidade. Nolan merece a estatueta. O filme merece a estatueta.
Estamos num tempo em que muita gente usa a computação gráfica como muleta para "contar" uma história. Nolan utiliza o recurso só quando não encontra outra forma para criar efeitos especiais realistas, com elementos reais, com pessoas reais e idéias calcadas na realidade. Quer um exemplo?
Em Batman Begins, a destruição da mansão Wayne e a disposição de Bruce em reconstruir é uma metáfora à destruição do World Trade Center em 11 de setembro de 2001, e ao sentimento do povo norte-americano de se reerguer. Em O Cavaleiro das Trevas, a metáfora é repetida com significado ainda mais amplo.
Trata-se da seqüência em que as duas barcas estão no mar, cada uma com um detonador e cheia de explosivos. A essa altura estabelecido como um terrorista tipo Osama Bin Laden, o Coringa coloca nas mãos dos passageiros a decisão de explodir a outra embarcação, para assim salvarem a si mesmos. Novamente a questão do duplo, na qual as Torres Gêmeas se incluem, representadas pelas barcas e a escolha da própria população de querer continuar vivendo sob o julgo da ameaça terrorista ou seguir adiante.
Mas existe mais. Perceba as características dos cidadãos que se dispõe a apertar o botão do detonador em cada uma das barcas após uma votação. Numa, o sujeito é branco e mostra uma acertividade com caráter revanchista. Noutra, ele é negro e chega com a decisão de quem sabe o que precisa ser feito.
Olhando para o presente contexto político norte-americano, é possível enxergar claramente nos personagens representações simbólicas dos senadores John McCain (republicano) e Barack Obama (democrata), candidatos à sucessão de George W. Bush na Presidência dos Estados Unidos.
O Cavaleiro das Trevas é a perfeita representação do que um filme de quadrinhos pode e deve ser. Não tenha dúvidas. Mas, acima de tudo, é muito, muito mais que isso. Prova disso está na saída da sala de projeção, em West Palm Beach, na qual outra imensa fila já aguardava para entrar na sessão seguinte de meio-dia.
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Quer saber o que acontece entre Batman Begins e O Cavaleiro das Trevas? Leia na Seqüencial Especial: Animatrix do Batman, clicando no link a seguir: http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/804952.html
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Quer saber porque o Coringa é a grande estrela dos quadrinhos de Batman? Leia na Seqüencial Especial: Coringa, clicando no link a seguir: http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/803936.html