Claude Bornél
Exatamente como a Marvel Comics faz nos quadrinhos, a Marvel Entertainment repete de forma competente no longa do Verdão
16/06/2008 10:58

Os fãs de quadrinhos mais ardorosos que me desculpem, mas a grande atração de O Incrível Hulk não é exatamente o Gigante Esmeralda. É o que acontece ao seu redor, passando a idéia de um universo de super-heróis pulsando vivo e em expansão. Exatamente como a Marvel Comics faz nos quadrinhos, a Marvel Entertainment repete de forma competente no longa do Verdão. Um trunfo que ajuda a compensar os problemas do filme. Uma boa história, mas mal contada em termos narrativos.
Quer um exemplo? Imagine o Dr. Bruce Banner (Edward Norton) escondido na Favela da Rocinha. Um acidente na fábrica de sucos onde ele trabalha revela seu paradeiro ao General Ross (William Hurt), porque uma garrafa contaminada com o sangue do cientista foi exportada para os Estados Unidos e o militar ficou sabendo.
Como se fosse no dia seguinte, uma equipe especial comandada pelo próprio General Ross já está cercando a casa onde vive Banner e dá início a uma eletrizante perseguição que vai durar o filme todo. Como a tal equipe entrou no Brasil e como ela desfilou armada pelo morro sem chamar a atenção dos traficantes da Rocinha, isso é mesmo coisa de filme para norte-americano ver.
Mas espere, o melhor ainda está por vir. Esse mesmo Banner, sem dinheiro, sem documentos e, pior, sem virar o Hulk, consegue sair da Guatemala para o México e dali para os Estados Unidos. Mais especificamente no estado da Virgínia, que fica exatamente do outro lado do mapa. Tudo isso em apenas 17 dias.
A pergunta é: se o General Ross localizou Banner em outro país, a partir de uma simples garrafa de suco, como o mesmo sujeito conseguiu entrar nos EUA sem ter sido notado pelo militar, se existem tantas restrições e medidas de segurança para se ingressar no país?
Incoerências como essa, entre outras pérolas que subestimam o espectador, aparecem ao longo de todo o filme. E todas elas têm uma mesma fonte, as diferentes visões de Norton e do diretor, Louis Leterrier, a respeito do filme, como comentamos aqui na Seqüencial (http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/790029.html).
Fã incontestável do personagem, mais especificamente do seriado dos anos 70, Norton queria reproduzir aquele clima melodramático do herói fugitivo criado pela dupla Bill Bixby e Lou Ferrigno. A interpretação do ator, fabulosa por sinal, segue nessa direção o tempo todo. O francês Leterrier, que de quadrinhos só havia lido Tintin até trabalhar neste filme, procurava seguir as orientações da Marvel, na direção do longa dos Vingadores a ser lançado daqui há três anos. O que ele faz com competência, considerando a visão do Universo Ultimate (leia mais abaixo).
Mas na hora de juntar as duas propostas em um só filme de 1h54min, o resultado ficou capenga. Uma montagem cheia de furos, da qual sobraram 70 minutos de cenas prontas, como o próprio Leterrier saiu alardeando em entrevistas na semana de estréia. Puxa, estamos falando então de um outro filme.
Por exemplo, onde está a cena em que o General Ross descobre que Banner foi passar a noite na casa de sua filha, Betty Ross (Liv Tyler)? Do jeito que aparece no filme, mais parece que o militar resolveu tomar o café da manhã com a filha e convidou sua tropa para ir junto. Chegando lá, quem eles encontraram? Aquele tal Banner que tanto estavam procurando. Puxa, nos quadrinhos a Marvel não desrespeita o leitor desse jeito.
Apesar de toda a equipe não ter tido uma visão coesa a respeito do filme, um dos segredos do sucesso de Homem de Ferro, O Incrível Hulk ainda consegue ser um bom filme por conta dos efeitos especiais e do elenco bem escolhido.
E ainda consegue superar a bomba de raios gama lançada em 2003. A razão é simples: as atenções do cineasta Ang Lee estavam mais focadas em aspectos psicológicos que nas seqüências ação, principal interesse de quem lê quadrinhos. O filme de Leterrier, com todos os problemas, oferece ao espectador a porradaria ele quer ver como rola nos gibis, garantida pela presença do Abominável (Tim Roth), inimigo tradicional e capaz de vencer o Hulk.
O curioso é que mesmo bastante criticado na época, e até hoje, o Hulk de Ang Lee mantém o status de história de origem do personagem aos olhos da Marvel. Isso porque, no novo filme, a única referência aos acontecimentos que levaram ao nascimento do Gigante Esmeralda aparecem nos créditos iniciais. O longa, inclusive, começa a partir da idéia deixada no final da outra produção. Não resta dúvidas, O Incrível Hulk é uma continuação, não um recomeço.
Um universo ao redor do Verdão
Sim, existe um universo pulsando em torno de O Incrível Hulk: Nick Fury e as Indústrias Stark são citadas logo nos créditos iniciais; o soro do supersoldado mostra a que veio nas veias de Emil Blonsky (Tim Roth) - que depois se transforma no Abominável, devido a overdose do soro combinada com exposição aos raios gama; nasce por acidente um dos grandes inimigos de Hulk, o Líder; o Dr. Bruce Banner procura controlar sua transformação; Tony Stark conversa com o General Ross sobre o projeto do supersoldado e propõe a formação de uma supertime.
Estamos falando aqui de uma série de pontas soltas deixadas no filme que podem (ou não) vir a ser amarradas somente no longa dos Vingadores, agendado para julho 2011. Só não nos esqueçamos, porém, que a Marvel Entertainment tem outros lançamentos de peso para acontecer antes e podem trazer ainda mais pontas soltas (ou não)... Homem de Ferro 2, marcado para 30 de abril de 2010; Thor, para 4 de junho de 2010; e Capitão América, em 6 de maio de 2011, coisa de um mês antes do longa dos Vingadores.
O Incrível Hulk aponta de forma clara que este universo em formação nos cinemas seguirá as diretrizes da linha Marvel Ultimate. O escritor Brian Michael Bendis, responsável pelo texto da minissérie Ultimate Origins, a ser lançada este ano nos Estados Unidos, explica de forma bem clara o que isso significa.
"O Universo Marvel nasceu da paranóia nuclear. Se você olhar as origens dos personagens, tem aquelas coisas de radiação e do medo das mutações. Não é o mundo em que vivemos agora. Não vivemos na Guerra Fria, mas há certas coisas na nossa sociedade que indicam uma paranóia genética. As pessoas têm medo de clonagem e de químicos", afirma.
Lembram no filme do Homem de Ferro, quando Tony Stark (Robert Downey Jr.) conversa com Obadiah Stane (Jeff Bridges), após ter fugido do seqüestro, que não quer mais investir em armas e sim na área genética?
Pois bem, o Universo Ultimate parte exatamente de uma base genética para contar a origem de seus personagens. E qual é o ponto em comum? O soro do supersoldado. Aquele mesmo que criou o Capitão América, mas neste universo tem sua história interligada a outros heróis como Nick Fury, Wolverine, Homem-Aranha, Nick Fury e, como já se pode ver hoje nos cinemas, Hulk.
Mas antes que o leitor pense que o Universo Ultimate é uma coisa nova, procure nas locadoras o DVD Os Supremos - O Filme, tradução infeliz para Ultimate Avengers - The Movie. Trata-se da animação que a Marvel produziu em 2006 com os Vingadores segundos os parâmetros Ultimate.
A história mostra a formação dos Vingadores sob o comando de Nick Fury, o descongelamento do Capitão América, o Dr. Bruce Banner trabalhando na reprodução do soro do supersoldado para tentar controlar o Hulk e o Homem de Ferro integrando o grupo de uma forma um tanto rebelde. Alguns desses elementos já estamos vendo surgir no cinema. Ou seja, Os Supremos - O Filme é uma boa pista do que a deveremos nos próximos anos.
Motivo de orgulho para o Ceará
Começou a ser vendida nesta sexta-feira (13 de junho) a graphic novel Chibata! - João Cândido e a revolta que abalou o Brasil, desenhada e escrita pelos artistas cearenses Hemetério e Olinto Gadelha, editada pela Editora Conrad.
Quem acompanha a Seqüencial sabe que eles já estavam dedicados a este projeto desde 2006 (Leia mais em http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/657547.html) e, sabe como é,coisa boa demora para acontecer. Mas também quando acontece...
Trata-se de um trabalho de um altíssima qualidade gráfica e narrativa, digno de exportação. O que mais uma vez prova a capacidade dos artistas de quadrinhos do Ceará.
O levante conhecido como a Revolta da Chibata se deu em 22 de novembro de 1910, no Rio de Janeiro, quando cerca de 2 mil marinheiros se levantaram contra a aplicação de chibatadas como punição. Mais que uma graphic novel, Chibata! - João Cândido e a revolta que abalou o Brasil é um registro de um importante fato da História do Brasil que pouco aparece nos livros escolares.
Haverá um lançamento oficial da obra na Livraria Siciliano, do Shopping Iguatemi, em data a ser definida. Para adquirir um exemplar pela Internet, bsta acessar um dos seguintes sites:
Livraria cultura:
http://www.livrariacultura.com.br/scripts/cultura/resenha/resenha.asp?nitem=5072665
Saraiva:
http://www.livrariasaraiva.com.br/produto/produto.dll/detalhe?pro_id=2576081
Loja Conrad:
http://www.lojaconrad.com.br/produto.asp?id=1239