A edição desta semana está super especial. Trata-se de uma entrevista com o primeiro brasileiro a participar do Zuda Comics, projeto alternativo da DC Comics
24/03/2008 14:53
Suponha alguém que se interesse por um gibi fora do circuitão comercial. Lê a história e fica com aquele gostinho de "quero mais". No entanto, algo curioso acontece, e com mais freqüência do que esse alguém se dá conta: o nome do autor passou despercebido. E sabe por quê isso acontece? Porque existe uma grande chance de que nunca mais se ouça falar dele. Afinal de contas, não é fácil para um autor independente seguir produzindo por conta própria, apenas pelo amor à nona arte.
No Ceará existem inúmeros autores de quadrinhos que se encaixam nesse perfil. Alguns chegam a ser bastante conhecidos, mas somente em um círculo fechado de conhecimentos e amizades. Outros até conseguem extrapolar essa barreira, mas permanecem anônimos junto a um público maior de leitores por falta de incentivo, de recursos ou de oportunidade para continuar a desenvolver seu potencial.
Seqüencial teve a honra de conhecer e entrevistar um desses autores: Alexandre Vidal. Um nome que não deve ser esquecido por todo aquele que ama histórias em quadrinhos.
Nascido em Fortaleza (CE), em 1976, e com 10 anos de experiência na área de design gráfico, Alexandre Vidal é, simplesmente, o primeiro artista brasileiro a concorrer no Zuda Comics - o projeto alternativo da DC Comics em que 10 quadrinistas disputam, mensalmente, a chance de um contrato de um ano com a editora norte-americana(http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/765010.html)
Também conhecido pelo codinome Falex, Alexandre Vidal entrou na disputa com a webcomic The Passenger (O Passageiro) , que conta a história de Alberto, um carinha que entrou em um processo auto-destrutivo após receber um fora da namorada. Em uma noite de embriaguez, acaba pegando o táxi errado e é abandonado numa encruzilhada interdimensional. Completamente perdido, precisa encontrar o caminho de volta.
The Passenger não deixa de ser uma metáfora para o próprio autor. O gibi foi o caminho por ele escolhido para voltar a produzir, após um hiato iniciado em 2004. "Parei toda a minha produção de quadrinhos, meio desiludido com a situação do mercado e a falta de divulgação e apoio. Me concentrei só na minha carreira mesmo, até que, em 2007, arrisquei um retorno por conseqüência do site Zuda Comics. Desde então, tenho me concentrado esforços no site da minha HQ, The Passenger", explica.
Um hobby levado a sério
O próprio autor faz questão de dizer que produz quadrinhos "desde que se entende por gente", mas somente na "Oficina de Quadrinhos da Universidade Federal do Ceará (UFC) que comecei a levar a sério esse 'hobby'". "Em 1995, ingressei na Oficina a convite de alguns amigos quadrinistas e, lá, publiquei não só na PIUM como também, junto com esses amigos, fundei o fanzine Demolição", afirma.
Durante um período Alexandre Vidal editou a PIUM, responsável pela seleção e montagem do boneco para impressão na Imprensa Universitária. Depois disso, passou a direcionar o foco mais para fanzines e para a web. Entre os fanzines que o autor destaca como os mais relevantes em sua carreira estão o "Demolição" e o "Fútil", editado com o autor Jefferson Portela.
Falex também publicou no premiado "Manicomics" (editado pelo Estúdio Daniel Brandão), em 2003. Dali foi convidado para publicar na coletânea "Consecuencias - Historieta Brasileña", do Instituto da Juventude na Espanha.
Participou ainda do coletivo "Front", publicando material na "Front 14", cujo tema era "Histórias da Infância", e foi convidado para publicar na "Manticore #3", numa história com roteiro de Antonio Eder.
Paralelo a isso, manteve na web o site oficial do personagem Rato do Prédio (Central do Rato), apresentando histórias em Flash do personagem. "Foram cinco anos publicando as aventuras do Rato, tendo descontinuado o site em 2004. Algumas HQs minhas se encontram no site Nona Arte", completa.
Conheça um pouco mais do material produzido por Alexandre Vidal acessando os seguintes links:
- http://iam-thepassenger.com/
- http://www.nonaarte.com.br/autor.asp?aut=39 - Tem desde PDFs até animações em Flash.
Um certeza fica após conhecer o material de Alexandre Vidal. Nenhum artista deve se esconder atrás da desculpa de falta de incentivo e de recursos para produzir. Em vez de ficar nessa posição "confortável", ele vem cavando oportunidades com coragem, conquistando espaços com seu talento e, por isso mesmo, brilhando com sua arte.
A seguir, leia a entrevista que a Seqüencial fez com Alexandre Vidal sobre a experiência de participar do Zuda Comics, seu ponto de vista sobre a produção cearense de quadrinhos e os planos para o futuro. Deleite-se:
Sequencial - Você é o primeiro artista brasileiro de quadrinhos a concorrer no Zuda Comics. O que te motivou a entrar na disputa?
Alexandre Vidal - Desde o princípio, meu principal motivo foi impôr a mim mesmo um desafio, o de voltar a fazer quadrinhos. Já fazia algum tempo que eu trabalhava fazendo concepts para outros projetos utilizando uma mesa digital, então resolvi unir o útil ao agradável e tirar da gaveta uma das minhas antigas idéias. O primeiro obstáculo foi justamente reencontrar meu ritmo de produção, mas depois disso ficou tudo mais fácil. Meu segundo objetivo em participar da competição foi o de testar meu trabalho frente a outros públicos e frente a um mercado profissionalizado, cujos leitores consumem regularmente quadrinhos e possuem uma visão mais tradicional em relação à área.
S - Valeu a pena participar do projeto? Pretende tentar de novo?
AV - Valeu a pena mais pelos motivos que citei acima: voltar a fazer quadrinhos e avaliar a percepção do público. Talvez no futuro eu tente novamente, se tiver uma idéia que ache que vale a pena submeter.
S - A partir dessa participação no Zuda Comics você pretende investir mais em uma carreira internacional? Quais são seus planos nesse sentido?
AV - Bom, é natural que todos pensemos em termos de projeção internacional, mas ainda não tenho nada planejado. Acho que a única coisa que deve mudar no meu trabalho a partir de agora é que ele deverá estar disponível em duas línguas, para que o público de fora também possa acompanhar o que venho fazendo. O currículo que ganhei no Zuda Comics deverá ser útil no futuro, quando eu puder me arriscar em vôos mais altos. um de meus grandes sonhos é publicar uma graphic novel. Quem sabe, quando eu puder juntar um bom material, esse sonho possa ser concretizado. Agora me sinto mais confiante.
S - Qual a sua percepção sobre a produção de quadrinhos no Ceará, atualmente? Cite dois pontos positivos e dois pontos negativos?
AV - Como andei desligado do mercado nesses últimos anos, não sei dizer como anda a produção por aqui. Mas nesse meio tempo, travei contato com o pessoal do novo PIUM e soube que vários artistas (de outros estúdios) estão produzindo material pra fora. Isso é positivo. Pelo que vejo, a produção continua de vento em popa. Tem muita gente produzindo com qualidade aqui, com material batante competitivo. O problema que parece persistir é o da divulgação, que é muito irregular. Mas dá pra notar que tem gente se mexendo. O maior problema que enfrentávamos na época em que eu estava na ativa era o da dispersão do pessoal. Não sei se isso ainda continua, mas é um dos fatores que sempre minou as iniciativas locais por parte dos coletivos de produção.
S - Em sua opinião, de que forma a criação de Gibitecas de Quadrinhos contribui para a formação de novos produtores de quadrinhos, e não apenas de novos leitores?
AV - As gibitecas, pra mim, são pontos especializados em publicações da área. Nelas, podemos encontrar diversos títulos fora de catálogo e que nunca veriam segundas tiragens. Acredito que, quanto mais fontes de referência, melhor para o crescimento individual de um artista. Mas continuo insistindo que não vale apenas a visita a uma gibiteca, acho que o profissional de quadrinhos precisa buscar suas influências fora dos quadrinhos. Uma galeria de arte, um filme ou um livro são sempre boas fontes de pesquisa. Um hobby como a fotografia pode se converter, por exemplo, numa carreira de quadrinhos (a referência visual está aí, à mão de quem educa seu olhar além da mesmice). Acho que as influências não vêm só da gibiteca, da livraria especializada ou da banca de revistas. Elas vêm de toda parte.
S - Que dicas você daria aos produtores de quadrinhos brasileiros (especialmente os cearenses) interessados em participar do Zuda Comics?
AV - Bom, a competição está aberta para todos. Não percam tempo. Levem seus projetos adiante. Todo mundo vai competir nos próximos meses, acredito que alguém vai ter que sair vencedor. Torço muito pra que os talentos daqui sejam reconhecidos mundo afora. Vamos esperar pra ver, mas enquanto isso vamos torcendo por quem estiver lá também.
S - Recentemente, a Seqüencial gerou um debate no site Multiverso Bate-Boc@ sobre gibis para meninas. Como você avalia a iniciativa da DC Comics de criar a linha de gibis Minx, voltado exclusivamente para leitoras?
AV - É bastante válida. Precisamos da maior diversidade possível de comics, em gêneros que não sejam somente super-heróis. Curto muito super-heróis, mas acredito que dá pra contar histórias em outros gêneros, quem sabe investir em temas mais pé-no-chão. O exemplo da DC em criar a linha Minx reflete uma necessidade do mercado, de atender aos nichos que até um tempo atrás vinham sendo ignorados. Uma coisa que me vem à cabeça nessa história é que, se queremos crescer, devemos apostar na diversificação do público-alvo. Não devemos ignorar o nosso público tradicional, mas com certeza podemos expandir nossa oferta para outras áreas.
S - Como e quando você começou a ler quadrinhos? Qual foi o primeiro gibi que você leu? Consegue lembrar a reação que teve na época?
AV - Como todo mundo da minha idade, acredito que minhas experiências de leitura com quadrinhos foram lendo os gibis da Mônica. Mas minha vida mudou no dia em que comprei Heróis da TV 59, que tinha uma história do Quarteto Fantástico de Stan Lee e Jack Kirby (é aquela em que Galactus vem ameaçar a Terra pela primeira vez, junto com o Surfista Prateado). Aqueles desenhos eram tão expressivos que praticamente mudaram minha visão de mundo.
S - Quais são seus próximos projetos no campo dos quadrinhos?
AV - Por enquanto, vou me dedicar a prosseguir com The Passenger. Ao todo, devem ser 3 anos de histórias, que no momento estão em produção acelerada. Mas tenho outros projetos que pretendo iniciar após esse período. Um envolve o gênero Guerra e o outro, Ficção Científica (meio no estilo Isaac Asimov). Espero conseguir publicá-las no futuro.