Claude Bornél
Um outro tipo de ato heróico está se tornando recorrente. Alguns heróis estão encaixando uma veia de paternidade em suas já atribuladas vidas duplas...
23/11/2006 21:56

Um outro tipo de ato heróico está se tornando recorrente entre alguns dos principais heróis dos quadrinhos. Eles estão se tornando pais ou, pelo menos, encaixando uma veia de paternidade em suas já atribuladas vidas duplas. Sinal de que os quase setenta anos estão pesando nas costas de heróis como Batman e Superman, obrigando as editoras a buscarem estratégias para evitar que futuras aventuras tenham asilos como cenários.
Em um diálogo de "Batman Begins", Bruce Wayne ainda no processo de se tornar o Homem-Morcego diz a Alfred que quer encontrar um símbolo, algo que pudesse ser perpetuado na luta contra o crime. De certa forma, a DC Comics reforça tal idéia ao introduzir Damian nas atuais aventuras do vigilante de Gotham City.
Damian vem a ser o filho de Batman com Tália, filha de Ra’s Al Ghul. A bat-criança veio a ser concebida na hoje clássica história “O filho do Demônio”, que por questões mercadológicas não era considerada parte da cronologia oficial do personagem. Questões estas que fizeram com o garoto entrar em cena para valer nos tempos atuais, surgindo como o novo desafio na carreira do Morcegão.
A atual situação de paternidade vivida pelo Superman nos quadrinhos pode ser considerada mais branda, levando-se em conta que na série “Last Son” (veja Seqüencial da semana passada: http://www.opovo.com.br/colunas/sequencial/647781.html) o herói se propõe a adotar um garoto que supostamente vem do seu planeta natal. Mas longe de ser menos interessante, por todos os questionamentos que Kal-El passou a fazer sobre si mesmo e os desdobramentos da continuação da trama.
É bom lembrar, no entanto, que esta não é a primeira que o kryptoniano aparece como pai. Em 1985, Alan Moore escreveu a bela “Para o homem que tem tudo”, que chegou a ser adaptada em um dos episódios do desenho animado da Liga da Justiça. A história aborda o que teria acontecido com o Homem de Aço se Krypton não tivesse explodido. Na visão de Moore, Kal-El seria apenas um homem comum, sem super-poderes, bem casado e com dois filhos (no desenho da Liga tem apenas um).
A proposta de tornar Superman pai soa atraente do ponto de vista de mercado. Tanto que a idéia foi usada no filme de Brian Singer, abrindo possibilidades criativas interessantes tanto para a continuação no cinema, quanto para os quadrinhos.
Mas talvez o mais bem sucedido entre os heróis de quadrinhos a lançar sua prole no mundo do combate ao crime seja mesmo o amigo da vizinhança, o Homem-Aranha. Em um futuro alternativo, Peter Parker teve uma filha com Mary Jane: May Parker. A garota cresceu e descobriu que herdou os poderes do pai. Virou a Garota Aranha.
Embora à primeira vista a personagem soe como um mero revival do próprio aracnídeo, só que agora em versão feminina, na prática a realidade (ou a fantasia) se apresenta mais interessante. Existem os conflitos entre May e o pai, que se aposentou e não quer ver a filha repetindo sua vida de combate ao crime e sem tempo para fazer nada direito. Não é por acaso que a heroína chegou a ter sua publicação mensal cancelada, mas voltou a pedidos dos fãs tamanho o sucesso da menina cabeça-de-teia.
Garota Aranha é mesmo uma exceção
A bem sucedida incursão da Garota Aranha no mundo dos quadrinhos lhe rendeu um espaço maior que o título próprio. Ela integra também a versão futurista dos Vingadores, chamada de Avengers Next. Um grupo de heróis que reforça a tese da necessidade das editoras de quadrinhos de perpetuarem símbolos. Seja através dos filhos ou de novas apresentações de personagens já conhecidos. Ou seja, de novo mesmo só o nome.
A equipe conta, por exemplo, com a superforça de J2. Ele vem a ser o filho do Juggernaut, irmão do professor Xavier e velho inimigo dos X-Men. Embora o rebento tenha se bandeado para o lado do bem, parece ter pouco a acrescentar ao universo dos gibis.
Caminho semelhante o de Sabreclaw, rebento do vilão Dentes de Sabre que começa seguindo os caminhos do pai, mas depois se arrepende e resolve pedir um lugar entre os Avengers Next.
Pior que J2 e Sabreclaw só mesmo a líder do grupo, American Dream. Trata-se de uma cópia completa do Capitão América, com a única diferença de ser uma mulher. Isso porque seus criadores nem se deram ao trabalho de fazer qualquer alteração no uniforme da personagem. É rigorosamente o mesmo. Sem tirar nem por. Como parecem ser esses Novos Vingadores em relação aos originais, mas sem o mesmo brilho.
Autor defende a veia paternal de Batman
No limite entre a apelação comercial e a sacada inteligente para revitalizar os personagens, pelo menos um herói tem um defensor fiel. O jornalista Silvio Ribas é o autor do “Dicionário do Morcego”, um divertido livro lançado em 2005 que procura desvendar os mistérios de Batman através de 1,5 mil verbetes, coletados ao longo de 17 anos. Alguns bem curiosos, que incluem nomes de pessoas e lugares inspirados no personagem.
Para o estudioso do fenômeno que envolve o defensor de Gotham, o lado paternal do herói já vem sendo demonstrado desde 1940, quando adotou Dick Grayson, o primeiro Robin. “Com os outros Robins não foi diferente. Acolheu, treinou e confiou, de certa forma, o legado do Homem-Morcego”, diz.
Leia a seguir um animado bate-papo de Silvio Ribas com a SEQÜENCIAL. Ele fala como surgiu a fascinação pelo personagem, sua expectativa para a continuação de “Batman Begins” e uma visão sobre o momento atual do personagem nos quadrinhos com a existência do filho, Damian.
SEQÜENCIAL - Como e quando começou sua paixão pelo Homem-Morcego? O que o fascina tanto no Batman?
SILVIO RIBAS - Da mesma forma que muitos garotos de minha geração, atualmente entre 30 e 40 anos, me diverti muito com os desenhos animados de Batman e a série de TV com Adam West e Burt Ward. Embarquei naquelas aventuras do herói preferido e continuei acompanhando o sucesso do personagem nos quadrinhos e, depois, na telona. Em 1989, o Homem-Morcego completou 50 anos e uma série de lançamentos de gibis especiais nos anos anteriores e posteriores, além da Batmania encabeçada pela super-produção de Tim Burton nos cinemas, me trouxeram de volta à admiração do ídolo. A diferença é que, adulto, também quis pesquisar mais e saber tudo sobre o fenômeno Batman. O que mais me interessa em Batman é a sua espetacular força de vontade. Mesmo sem ter superpoderes, ele consegue ir longe e mudar a realidade de todos em volta. É um exemplo de perseverança e dedicação.
S - Como surgiu a idéia de fazer o Dicionário do Morcego?
SR - O Dicionário do Morcego ou Bat-Dicionário (nome original) é um projeto antigo meu. Veio dos tempos em que eu e o carioca Guilherme Santos promovíamos o Correio Gotham, um clube de intercâmbio postal, envolvendo membros do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo e Paraná. Propus que fizéssemos coletivamente uma enciclopédia batmaníaca, a partir da troca de informações via cartas. Era o início dos anos 90 e não tínhamos a comodidade da Internet. O resultado foi que não conseguimos levar a minha idéia adiante. Só anos depois consegui viabilizar meu sonho graças à proximidade do lançamento de Batman Begins, que marcava a volta do Morcegão à telona oito anos depois.
S - Qual é a melhor história do Batman? Por quê?
SR - Sem dúvida, a melhor história de Batman é a minissérie O Cavaleiro das Trevas, de 1986, que foi publicada no Brasil um ano depois. Ela não foi importante apenas para restaurar as características originais do personagem, com seu perfil violento e sua inconformidade com a realidade. Trata-se da mais importante obra em quadrinhos já publicada, porque também deu novo curso à indústria dos gibis, uma ruptura que o tirou de vez da pecha de arte menor e infantilizada.
S - Você acha que seria possível existir um Batman na vida real, levando em conta que nos quadrinhos ele é um homem com habilidades bem acima da média e parafernália tecnológica?
SR - Possível, sim, mas pouquíssimo provável. Em tese, trata-se do mais
verossímil dos super-heróis. O filme Batman Begins se esforçou muito para tentar provar isso. Tem lá explicação para tudo. Até para os detalhes na luta do mascarado. O fato é que a ficção conseguiu reunir em um só homem três fatores favoráveis que dificilmente ocorreriam novamente na vida real: o patrimônio de bilhões de dólares, uma mente perturbada e a cooperação de um círculo muito próximo. Talvez devido à essa proximidade de Batman das pessoas comuns o faça tão popular.
S - Você já teve vontade de ser o Batman alguma vez? Não seria um grande fardo?
SR - Talvez nas minhas fantasias de criança, sim. Mas acho que foi só isso. Encaro Batman como um entretenimento, um hobby e um tema de estudos. Gosto de identificar no universo batmaníaco várias interpretações sobre a luta do ser humano contra seus próprios medos interiores e a realidade contraditória em volta. Os milhares de escritores e desenhistas que criaram suas histórias em quadrinhos, além de diversos outros criadores que trabalharam nas demais mídias, testaram Batman de todas as formas possíveis. Não quero ser Batman, mas quero estudá-lo ao máximo. Confesso ter inveja da sua brutal força de vontade.
S - Em sua fase atual, Batman descobre que tem um filho, Damian. O que acha desse tipo de estratégia da DC Comics, também usada por outros personagens (Homem-Aranha e Superman, por exemplo) de dar ao herói uma veia de paternidade? É válido ou uma apelação? É uma forma de "revitalizar" heróis mais que sessentões?
SR - A veia paterna de Batman já vem sendo mostrada desde 1940 quando adotou Dick Grayson, o primeiro Robin. Recentemente, uma história mostra até ele oficializando a condição de pai de Dick, tornando-o único herdeiro, como filho adotivo. Com os outros Robins não foi diferente. Acolheu, treinou e confiou, de certa forma, o legado do Homem-Morcego. Há 20 anos se espera pelo aparecimento de Damian, seu filho com Tália. O bebê aparece na história O Filho do Demônio, uma edição especial dos tempos do cinqüentenário de Batman, relacionada entre as melhores do herói. Mas a DC sempre evitou confirmar uma continuação dessa história, preferindo informar que não se tratava de algo oficial, conectado à cronologia de Batman. A editora estava, na verdade, guardando a carta na manga, para uma oportunidade melhor. Acho que é um história válida e que explora novos conflitos para Bruce Wayne/Batman. Ao levar o pequeno Damian para a Bat-Caverna, abre-se uma série de novos questionamentos e embates com outros personagens do universo do Morcegão. Acho também que o filho pródigo do mascarado (pelo visto, uma criança problemática e birrenta) coloca mais um item em um tema que deverá ser colocado na mesa da DC um dia: quem será o sucessor definitivo do manto de Batman. Tim Drake, o Robin atual, é o mais cotado hoje.
S - O que podemos esperar do próximo filme do Batman, agora com o Coringa?
SR - A julgar pelo excelente resultado de Batman Begins, a expectativa é muito positiva. O elenco básico mantido e a direção de Chris Nolan já garantem uma boa parte do otimismo. A fixação pelo realismo e o primor de interpretações sérias devem fazer de O Cavaleiro das Trevas (título já anunciado da seqüência, prevista para estrear no dia 18 de julho de 2008) também animam. O Coringa será interpretado por um jovem e bom ator, Heath Ledger, de "O Segredo de Brokeback Mountain", e promete ser o mais sádico e ensandecido vilão do cinema, parecido com o protagonista de A Laranja Mecânica. A expectativa é muito grande.
Verbetes curiosos do “Dicionário do Morcego”
Posto do Batman - É assim também conhecido, na praia de Camburi, em Vitória (ES), o quiosque Batman, devidamente identificado com o logotipo do herói. O local é ponto de agitação cultural e turística da capital capixaba.
Bat-Analisador de Sopa de Letrinhas - Equipamento que o Homem-Morcego usou durante episódio que combatia o Cabeça de Ovo (Vincent Price) no seriado da TV Batman (1966-1968). É mais uma prova do espírito non sense do programa.
Kevlar - Material resistente a balas e a objetos cortantes, que é usado para revestir uniformes e máscaras de Batman e de seus parceiros. A fibra para-aramida Kevlar foi desenvolvida pelos laboratórios da DuPont, tem resistência a altas temperaturas, com proteção mecânica contra cortes. Segundo o catálogo do fabricante, pode ser usada para a confecção de mangotes e luvas de segurança, coletes à prova de bala, blindagem, entre outras aplicações.
Batmar - Pernambucano, formado em direito, dono de padaria e morador do Recife, Edmar de Oliveira, se vestiu de Batman para pedir votos. Então com 35 anos, ele foi candidato a deputado federal pelo PL nas eleições de 1994. Fez campanha usando roupas do Homem-Morcego e transformou seu Dodge Magnun 79 em batmóvel. Nas suas caravanas estava acompanhado de Robin, “batgirls” e do Coringa. Ele dizia que esse último representava os vilões da política brasileira. Na roupa do palhaço do crime ele via Fernando Collor, PC Farias e o deputado João Alves. Fã de Batman desde criança, Edmar registrou o nome Batmar no Tribunal Regional Eleitoral de Pernambuco.
Burt Reynolds - Ator cogitado no final da década de 70 para interpretar Batman no cinema. Embalada pelo sucesso do filme do Super-Homem, estrelado por Christopher Reeve, a Warner fez esboços do projeto com o Homem-Morcego. O mordomo Alfred Pennyworth seria interpretado pelo inglês David Niven. Só no final da década de 80 é que o filme virou realidade, com Michael Keaton no papel-título.
Hubie Kerns - O dublê de Adam West, que nunca apareceu nos créditos da série de TV Batman (1966-1968). Sua participação foi fundamental, tomando lugar de West em todas as cenas de risco. Ele foi também o coordenador dos outros dublês e trabalhou com todo o elenco e equipe técnica do programa. Kerns nasceu em Los Angeles em 10 de agosto de 1920. Em seus tempos de escola, se destacou por romper vários recordes mundiais em diferente disciplinas esportivas. Sua participação no Exército o impediu de competir nas Olimpíadas e tentou jogar no time de rúgbi do Chicago Bears. Sua carreira cinematográfica e televisiva começou em 1949, com pequenos papéis, mas foram suas habilidades atléticas que o levaram a ser um dos melhores dublês da história, trabalhando em mais de 35 programas de TV, como A Feiticeira e Jornada nas Estrelas. Depois do fim da série Batman se manteve ativo e também produziu programas de TV e filmes. Kerns morreu na Califórnia, em 7 de fevereiro de 1999, aos 79 anos, depois de três anos de luta contra o câncer.