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A graça da inteligência

Daniel Herculano escreve sobre os ótimos Queime Depois de Ler e Eu, Meu Irmão & Nossa Namorada

Daniel Herculano
03 Dez 2008 - 10h39min

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<i>Queime Depois de Ler</i>
  • <i>Queime Depois de Ler</i>
  • <i>Eu, Meu Irmão & Nossa Namorada</i>
SENSO DE HUMOR (NEGRO)

Quem seria capaz de juntar numa história um ex- agente da CIA, sua esposa infiel, um policial da receita americana que adora marcar encontros via web, um personal trainner bobão, uma atendente de academia fixada em operação plástica, amantes, paixões reprimidas, chantagem e assassinato (acidental ou não) e ainda ser divertido? A experiência se chama Queime Depois de Ler (Burn After Reading, 2008) e os responsáveis são os recém oscarizados diretores e roteiristas Joel e Ethan Coen.

Tudo parece um efeito dominó ou a teoria do caos, no qual o que acontece aqui tem efeito, ou muda algo logo adiante... Vamos a elas: ex-agente da CIA Osbourne Cox (John Malkovich) está escrevendo suas memórias, em que conta missões e operações passadas. Sua infiel esposa (Tilda Swinton) grava as informações em um CD e repassa para seu advogado. O CD cai nas mãos dos abobalhados atendentes de uma academia, Chad (Brad Pitt) e Linda (Frances McDormand). Linda sonha em fazer cirurgias plásticas para reconstruir seu corpo, e, por isso, passa a chantagear Cox, que é expulso de casa. Enquanto isso, o amante de sua esposa (George Clooney), conhece Linda e inicia um novo relacionamento, enquanto a sua própria esposa está viajando.

Tudo culpa dos Coen e suas mentes fervilhantes! Rsrs. Parece complicado? Mas não é tanto assim... Relaxe e goze com o afiadíssimo senso de humor (negro) dos Coen, algo entre a sátira e uma comédia nervosa, uma sucessão de travessuras delirantes. Aqui o efeito especial tem nome: roteiro.

E o grande elenco? Bom demais. George Clooney mais uma vez de fanfarrão sedutor, John Malkovich o estranho com ataques de nervos, Tilda Swinton a ‘vaca fria e egoísta’ que tenta demonstrar sentimentos, Frances McDormand com sua crítica do culto ao corpo (dita na frase “desse jeito Hollywood não vai mais me querer”) e Brad Pitt, o mais engraçado, como um bobão careteiro (repare como ele diz “Osbourne Cox”).

Queime Depois de Ler pode soar até estranho para alguns, mas é diversão e meia garantida para quem curte o lado inteligente do ser diferente. Ou seria o para quem curte o lado diferente do ser inteligente? Escolha você.

NOTA: 8,0

INFORMAÇÕES ESPECIAIS
Os Irmãos Coen já foram premiados com a Palma de Ouro em Cannes e direção por Barton Fink (1991), e direção por O Homem que Não Estava Lá (2001) e Fargo (1996). Venceram o Oscar de direção e roteiro original (Globo de Ouro também nessa categoria) por Onde os Fracos Não Têm Vez (2007) e de roteiro original por Fargo (1996). Dirigindo, escrevendo, produzindo e até editando, já acumulam quatro indicações ao Globo de Ouro, seis a Palma de Ouro em Cannes e mais outras quatro ao Oscar;

Se você gostou de Queime Depois de Ler, assista também:
Dos Irmãos Coen: E, Meu Irmão, Cadê Você? (2000) e Arizona Nunca Mais (1997); com George Clooney: Cofissões de uma Mente Perigosa (2002); Brad Pitt em Sr. & Sra. Smith (2005); John Malkovich em Quero Ser John Malkovich (1999); Frances McDormand em Garotos Incríveis (2000); Tilda Swinton em Adaptação (2002);

Trilha nas Caixetas: Corpitcho, Maria Rita.

TÍTULO RUIM, FILME ÓTIMO

Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada (Dan in Real Life, 2007) é ótimo. É bom dizer isso logo de cara, porque se fosse pelo título nacional boboca, eu jamais me arriscaria.

Dan (Steve Carell) é um viúvo boa praça, pai de três filhas e que escreve uma coluna sobre o cotidiano para o jornal local. Durante um feriado com toda a família em uma bela casa de campo, conhece Marie (a excelente Juliette Binoche) e se interessa por ela, mas sem saber que é a namorada de seu irmão.

O elenco todo é maravilhoso, mas o grande destaque é o carismático Steve Carell, comandando o show, conseguindo fazer rir, emocionar e até se envolver com seu dilema: dar ou não em cima da tão interessante quase cunhada?

Sua família também dá espetáculo. Primeiro temos o relacionamento doce, delicado e por vezes complicado com suas filhas (lindas e talentosas) e com seus pais, os ótimos John Mahoney e a diva Dianne Wiest. Quem também dá o ar da graça é a bela Emilyn Blunt, como um possível interesse romântico que tem o apelido de ‘focinho de porco’, e seu irmão, Dane Cook, que parece pouco a vontade, sempre tentando chamar a atenção.

Portanto, se esbalde nesse combinado de comédia, romance e pitadinhas de drama, dotado ainda de um elenco acima da média e um clima ameno de diversão, porque o pior do filme é apenas a infeliz escolha do título nacional.

NOTA: 8,1

INFORMAÇÕES ESPECIAIS

O diretor e roteirista Peter Hodges, indicado ao Oscar de roteiro adaptado por Um Grande Garoto (2002), e ao grande prêmio do júri do Festival de Sundance por Do Jeito que Ela É (2003), sua estréia na direção;

Se você gostou de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada assista também:
Steve Carell em Pequena Miss Sunshine (2006); Juliette Binoche em Chocolate (2000); Diane Wiest em Parenthood (1989); John Mahoney em Nosso Tipo de Mulher (1996); Dane Cook em Amigos, Amigos, Mulheres à Parte (2008); Amy Ryan em Conte Comigo (2000); Emily Blunt em O Diabo Veste Prada (2006);

Trilha nas Caixetas: Tá Perdoado, Maria Rita.

*DANIEL HERCULANO é crítico de cinema, publicitário, produtor musical e assessor de comunicação. As quintas assina a coluna Script – Nas Prateleiras, no programa Viva Fortaleza na TV O POVO (canal 48/NET 23/TV Show 11)

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