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Rainha moderninha

A época remete a meados de 1780... Mas as músicas que escutamos é rock´n roll... E as atitudes parecem vir de uma jovem distraída pela juventude, desgovernada...

Daniel Herculano
18 Abr 2007 - 09h59min

Maria Antonieta; A dança Real; Os prazeres de Antonieta; Na cama: Será que ele quer hoje? Dedinho na boca...; Sofia Coppola dirige sua Rainha.
A época remete a meados de 1780... Mas as músicas que escutamos é rock´n roll... E as atitudes parecem vir de uma jovem distraída pela juventude, desgovernada pela própria mente, perdida num mundo que não lhe pertence (mas que ela usa à vontade).

Essas são minhas impressões gerais de Maria Antonieta (Marie-Antoniette, 2006), terceiro longa de Sopia Coppola, baseado na biografia Maria Antonieta: Uma Jornada, de Antonia Fraser.

O filme busca mostrar um lado mais humano da princesa austríaca Maria Antonieta (Kirsten Dunst, atuando com gosto), que ainda menina é enviada para se casar com o príncipe francês Luis XVI (Jason Schwartzman) num acordo entre os dois países. Reprimida pelo ambiente da corte, ela tem de conviver com os desmandos do Rei Luis XV (Rip Torn), sua amante Madame Du Barry (Asia Argento), a Condessa Noalles (Judy Davis) e o Embaixador Mercy (Steve Coogan). A única saída para não enlouquecer é cria seu próprio universo, regada a muitas festas e excessos.

Ela é refém das circustâncias, ok. A corte não é assim tão favorável a ela, seu casamento é um acordo e sua não consumação parece interminável. Mas não faz (realmente) nada para mudar isso, deita na cama, literalmente. E haja festa, putaria (mais insinuada do que vista), diversão, e mesmo assim ela não consegue se desvencilhar de seu destino. E ainda que pensássemos como ela, nós como espectadores nem podemos formar uma opinião do porquê de tudo isso, pois toda a politicagem não nos é apresentada, apenas acompanhamos o desenrolar dos fatos por pinturas pichadas com escritas que descrevem o que o povo pensa de sua Rainha. O sentimento de mudança (e porquê ela muda) dos personagens fica sempre subentendido e não tão explicitado. O único momento em que percebemos toda a angústia e o quão Maria Antonieta é incompleta se dá logo depois dela ser apresentada ao seu sobrinho. Uma grande seqüência, cortesia de Sopia Copola que acompanha com sensibilidade a atuação de Kirsten Dunst.

“Todos os olhares estarão em você” diz sua mãe ao mandá-la para seu casamento arranjado na França, logo no começa da jornada. Sim, isso acontece, mais pela fome com que Kirsten Dunst tem pelo papel e menos pela história em si, que passa longe de fatos históricos tão importantes numa biografia. É como se a história política da França fizesse apenas figuração para as brincadeirinhas de vossa alteza. Um pano de fundo de luxo para a rainha moderninha praticar suas preferências, como flertar, jogar, beber, dar festas e gastar quase toda a fortuna da França em bobagens, como redecorar o castelo, importar árvores, comprar roupas e acessórios (como perucas, maquiagens, penduricalhos) para tentar fazer com seu dia-a-dia seja mais agradável. Ou seja, um capricho.

Sua trilha sonora é um caso à parte. Cheio de referências pop/rock, Copolla insere no longa músicas dos anos 70, 80 e 90 (sim rock´n roll), embalando o filme satisfatoriamente com ritmo, mas tem um resultado inversamente proporcional quando povoa sua tela com músicas tradicionais (e que remetem a época do filme) pendendo para uma chatice quase bocejante.

De reconstituição perfeita, com cenário admirável (o filme ainda teve a honra e a sorte de filmar no próprio Palácio de Versailles) e figurinos majestosos (vencedor do Oscar), Maria Antonieta tem um certo charme e alguns momentos, mas não impressiona tanto quanto deveria e enquanto passamos o filme inteiro à procura de mais consistência e fatos interessantes quem se diverte é ela, Maria Antonieta.

Atenção: Tente achar entre os sapatos de luxo de Maria Antonieta um tênnis Converse All-Star... Sim é rápido, mas aparece, como uma citação pop, ou até mesmo uma identificação com sua protagonista, meio rebelde, meio fashion.


INFORMAÇÕES ESPECIAIS

Que conversa é essa? Que estória é essa? Numa hora d´essa?



Sofia Coppola: Foi um desastre como atriz em O Poderoso Chefão 3 (1990) e partiu pra outra direção. Ou melhor, pra direção de longas. Estreou bem com As Virgens Suicidas (1999) e depois foi indicada ao Oscar de Filme e Direção pelo maravilhoso Encontros e Desencontros (2003). Teve indicação também ao Globo de Ouro de Direção e venceu Oscar e Globo de Ouro de Roteiro Original pela mesma obra;

Kirsten Dunst: Foi indicada ao Globo de Ouro de Atriz Coadjuvante por Entevista com o Vampiro (1994) e atuou na Trilogia Homem-Aranha (2002;2004;2007). Fez também Adoráveis Mulheres (1994), Tudo Acontece em Elizabetown (2004) e foi dirigida por Sofia Coppola em As Virgens Suicidas (1999);

Jason Schwartzman: Veio como uma revelação em Três é Demais – Rushmore (1998). Depois fez o bacana S1mOne (2002), o interessante Huckbees – A Vida é Uma Comédia (2004) e o excelente A Garota da Vitrine (2005). Participou ainda do fiasco (e terrível) A Feiticeira (2005);

Judy Davis: Indicada para o Oscar de Atriz por Passagem Para a Índia (1984) e Atriz Coadjuvante por Maridos e Esposas (1992). Fez com destaque Mistérios e Paixões (1991), Barton Fink – Delírios de Hollywood (1991), Sangue & Vinho (1996), Poder Absoluto (1997), Desconstruindo Harry (1997), Celebridades (1998) e Separados Pelo Casamento (2006);

Francis Ford Coppola: Produtor executivo de Maria Antonieta (2006) e pai de sua diretora (Sofia Coppola), Coppola é um dos maiores cineastas de todos os tempos. Já ganhou 5 Oscars, pelo Roteiro Original de Patton – Rebelde ou Herói? (1970); Roteiro Adaptado de O Poderoso Chefão (1972); Filme, Direção e Roteiro Adaptado por O Poderoso Chefão 2 (1974). Foi indicado ainda como Diretor por O Poderoso Chefão (1972); Diretor, Filme e Roteiro Adaptado por Apocalypse Now (1979); Filme e Diretor por O Poderoso Chefão 3 (1990); Filme e Roteiro Original por A Conversasão (1974) e Filme por Amerigan Graffit – Loucuras de Verão (1973);


Daniel Herculano é formado em Comunicação Social e escreve para o Guia Vida & Arte do Jornal O POVO.

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