DANIEL HERCULANO*
Daniel Herculano escreve sobre o nacional Os Desafinados de Walter Lima Júnior
27/08/2008 09:30

Os Desafinados (Idem, 2008) é uma viagem no tempo. E uma viagem deliciosa, embalada com muita bossa nova, romances, gracejos e boas atuações num elenco curioso, em que Selton Mello é coadjuvante e, pra variar, rouba preciosas cenas.
Anos 60. Joaquim (Rodrigo Santoro), Jair Oliveira (Geraldo), Ângelo Paes Leme (Davi) e Paulo César (André Moraes) formam a banda carioca Os Desafinados, que com seu amigo e pretenso diretor de cinema Dico (Selton Mello) decidem ir à Nova York, sonhando em tocar no Carnegie Hall. Num acaso, Joaquim, que deixou a esposa (Alessandra Negrini) no Brasil, conhece a cantora Glória (Cláudia Abreu) e tudo passa a ter um novo ritmo, novas perspectivas, um novo sentido, um novo sentimento.
O experiente diretor Walter Lima Júnior continua a primar por uma característica que permeiam seus longas: a sensibilidade. Ele demonstra isso em cenas que, com o adorno carinhoso da bossa, nos transportam para o turbilhão de acontecimentos dos anos 60, incluindo política e o nascimento de um novo estilo musical, uma paixão avassaladora pela pessoa certa na hora errada regado à comicidade na dose certa. Tudo bem afinado, compreendendo também a narrativa em flashback, com seus bate-papos nostálgicos, descontraídos e empapuçados de lirismo.
Santoro seduz e se esforça bem no piano, Jairzinho não compromete e André Moraes conquista aos poucos como o amigão Paulo César. Cláudia Abreu ilumina a tela com sua beleza resplandecente, encanta com sua atuação e até seus dotes musicais funcionam. Selton Mello, sempre ele, está muito bem. Mesmo num papel menor, suas tiradas, seu jeitinho malandro e a pose de bacana parecem ter saído de improviso, num momento ímpar (e nem por isso menor) de inspiração.
Os Desafinados não sai do tom e consegue na maior parte do tempo deixar o espectador com um sorriso no rosto, com sua história de bossa nova regada a muita amizade, amores imperfeitos e emoções dignas, sinceras e bem intencionadas.
NOTA: 7,9
INFORMAÇÕES ESPECIAS
Sobre o diretor Walter Lima Júnior:
Foi assistente de direção em Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964);
Não dirigia desde o digno A Ostra e o Vento (1997).
Sobre Rodrigo Santoro:
Recomendados: Bicho de Sete Cabeças (2001) e Não Por Acaso (2007);
Nos EUA: participou da terceira temporada de Lost (2004), foi coadjuvante em Cinturão Vermelho (2008) e Simplesmente Amor (2008) e vilão em 300 (2007) e no horroroso As Panteras Detonando (2003);
A superação: brilhou como um travesti no razoável Carandiru (2003);
Venceu o prêmio revelação no Festival de Cannes em 2004;
Trilha nas Caixetas: Crepúsculo, Conjunto Roque Moreira.
*DANIEL HERCULANO é crítico de cinema, publicitário, produtor musical e assessor de comunicação. As quintas apresenta a coluna Script, no programa Viva Fortaleza da TV O POVO (canal 48/NET 23/TV Show 11).