Fazia calor, muito, quando cruzamos o Sertão dos Inhamuns. Os olhos capturaram na velocidade da paisagem o serrote Quinamuiú
16/07/2007 20:43
Oi! Tem alguém aí? Estou de volta, depois de um mês de férias. Que passaram voando. Bem, antes do vôo propriamente, houve este deslizar a 100 por hora na garupa da Falcon negra. Daqui até o fim do mapa do Brasil. Seguinte: ao começo. Dia 13 de junho, sem fogueiras nem bandeirinhas, somente dois aventureiros devidamente empacotados para a viagem.
Fazia calor, muito, quando cruzamos o Sertão dos Inhamuns. Duas da tarde, os olhos capturaram na velocidade da paisagem o serrote Quinamuiú, com suas costelas minerais de fora. Rocha soberba. Urubus no céu, a sombra rara das árvores, o caminho áspero. Piauí adentro, até Picos – primeira parada. E ver o segundo capítulo da microssérie A Pedra do Reino num televisorzinho guenzo de poucas polegadas, enfim... Manhã cedo, toca-lhe ficha, na estrada de novo, que o Piauí é grande demais. Vou te contar: quilômetros sem ver uma casinha, uma pessoa, um pássaro. Só este sol desolador e a beleza brutal dos chapadões contra o céu limpo de nuvens. Bom Jesus do Gurguéia.
Ali por perto, nesse Brasil árido, a história está escrita nas paredes de calcário. Desenhos rupestres, feitos por gente de outra era, registrando um outro cenário, certamente mais verde, rico de fauna – bichos grandes caçados por pequenas criaturas que desenvolveram a inteligência na mesma medida de sua ferocidade: que nem nós. E o contraste. Ali, por Bom Jesus, fartura de água nas fontes que jorram do coração da Terra. Adiante, o caminhão-pipa que mal basta para abastecer a sede das gentes que se amontoam ao lado de baldes, potes, vasilhames. A estrada se acaba mal a gente chega na Bahia, poeira grudada até na alma.
Oeste da Bahia, e os campos lavrados. Por quem? Quilômetros de pés de algodão, bem pequenininhos, naquela lonjura plana. Ali, ao longe, uma máquina arrasa os algodoeiros miudinhos, não mais aquela bucólica imagem da minha infância, férias no sertão. Nós mesmos, meninos da cidade, de sacola ao lado catando os capuchos. Pois, nestes negócios agrícolas sem pequeno produtor, vê-se apenas o trator gigante traçando linhas no chão. Nem uma casa de morador, nem um só homem ou mulher trabalhando. Solidão e silêncio. Quilômetros e quilômetros. E Brasília tão distante de tudo isso...
Então, a paisagem fica ainda mais plana, estamos em Goiás. Frio e seco, o ar de Brasília. E crianças escorregando na rampa do Planalto. Mas lá dentro não há espaço para elas, para nós. O tempo fica mais gélido, de agora em diante. As pistas imensas da via Anhanguera. Estradas de veludo e não sei quantos pedágios. Ainda bem que moto não paga... São Paulo, Paraná. Pinheiros e araucárias na rodovia Régis Bittencourt. Ipês roxos. Aquela árvore com tufos cor de uva, no lugar das folhas – que nome terá? A temperatura baixa um pouco mais, chegamos a Santa Catarina. A ilha-capital, antes chamada de Desterro, tão bela. O mar batendo furioso nas pedras, a luz suave, e o primeiro encontro com o minuano – o vento que vem lá do sul. Mas não há frio que não ceda ao calor humano...