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Zé Tarcísio, 66

De bata branca, colar de coral encarnado, discreto, os cabelinhos de anjo de procissão, todo contente da vida, o sempre pra cima Zé Tarcísio, na noite do seu aniversário de 66 anos


13 Fev 2007 - 23h11min

FOTOS EDUARDO ALMEIDA
De bata branca, colar de coral encarnado, discreto, os cabelinhos de anjo de procissão - pra combinar com os espertos maliciosos olhinhos azuis, todo contente da vida, o sempre pra cima Zé Tarcísio, na noite do seu aniversário de 66 anos. Recebeu os amigos, e quanta gente veio a sua casa-ateliê, altos de um daqueles prédios tão bonitos ao redor do Dragão - aquele que, daqui debaixo, tem tanta planta no batente da janela. E, lá da passarela, por outro ângulo, vê-se a assinatura do artista na parede e um jardim suspenso na pequena, singela babilônia de telhados.

Sob o signo de aquário, oito de fevereiro, uma noite quente - e isto nem precisava ser dito, as noites andam quentes como o diabo. Em companhia das Naddaf, mãe e filha, a ver o amigo, depois de uma passada no brechó da Odysséia, valha-me Silvânia de Deus! Escadaria de madeira acima e estamos imersos todos num grande quadro, uma instalação, as coisas vivas do Zé. Espécimes de vários trabalhos, desde os primeiros, dos anos 60, aos atualíssimos ex-votos reinventados. O colorido pop, as estacas com arame farpado, os rostos abissais, as paisagens de outras esferas, cidades pelo avesso, a pele e as entranhas da criação. Tudo estava lá, pulsando.

Numa rodinha, bebericando uma cachaça com canela e outras ervas, a me lembrar de como e quando conheci o Zé Tarcísio. Foi no princípio dos anos 80, 82, por aí, por causa da Beliza Guedes. A Bel morava, nesse tempo, na Tenente Benévolo, e benévola era ela, é, acolhendo aquelas meninas malucas em sua casa, onde nunca faltou nem poesia, nem pão. Ela o conheceu primeiro, quase vizinhos, ele recém chegado do Rio. Instalado numa casa maravilhosa na Carlos Vasconcelos, casona antiga, com jardim, quintal, ateliê. No jardim, eu vi nascer um morrinho de pedra, e depois os cactus, as trepadeiras, as flores, a variedade de plantas nativas entronizadas neste pátio acolhedor. Me lembro que sempre havia um vento rondando por ali, alegre.

Com ele, fui a Canoa Quebrada pela primeira vez. Era de noite, no terreiro da casa do Zé Correia, uma lua clara, e o mar bem aí, em disparada corri, parei na beira do paredão, precipício. O mar tão perto ficava além da falésia vermelha, a proximidade foi mera ilusão de ótica e talvez - talvez!, uma bicada a mais naquela cachaça improvável do Correia. Loucura líquida. Algumas vezes fui com Zé Tarcísio nas dunas ali da Praia do Futuro, melhor dizendo, neste pedaço antes, que era repleto de dunas e logo todas cercadas, loteadas, rodeadas de estaca e arame farpado. O artista, político em seu sentido mais pleno, denunciou, do seu jeito, com sua arte, a especulação.

Moravam na casa ventilada e cheia de flor duas velhas senhoras, a mãe do Zé, também artista - criou belas mandalas de tecido, linha e fitas - a outra, a tia. Ambas tratadas como meninas preciosas. Nos anos 90, Zé Tarcísio foi morar em Canoa Quebrada, e trabalhou como secretário de cultura em Aracati. Ali fomentou oficinas, espalhou a benesse de sua arte entre os jovens, leve professor. Um dia, ele próprio havia sido um menino curioso, ajudando no ateliê de Antônio Bandeira - e foi Bandeira quem reconheceu, naquele garoto loirinho, um artista de grande estatura. Ainda em flor, foi-se embora para o Rio de Janeiro, ousou, marcou presença, mostrou a que vinha. E houve Paris, os prêmios, o Réquiem para o Artista Morto. E a volta.

De volta à cidade solar, Zé Tarcísio outra vez reconstruiu os fios, os afetos, plantou flores, pintou, inventou, criou moda. Voltou à Europa, visitou a África, teceu novos afetos. Entre o popular, o erudito, o eterno e o descartável, o arcaico e o psicodélico o artista vai abrindo caminho, inquietando e surpreendendo. Confira um pouco da vida-obra do artista na página www.zetarcisio.art.br (de onde vieram as fotos desta Periférica), ou venha ver bem de perto, no ateliê do Zé, aberto ao público de terça a sexta, de 14 às 20. Fica ali na rua Dragão do Mar, 22-A, altos. Contato prévio: (85) 3088.2659. E viva o Zé! Parabéns pra você, de novo, amigo!

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